Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Os livros excluídos

O universo dos livros é semelhante ao das igrejas, com os seus Papas e devotos, as suas Bíblias, Tábuas da Lei, procissões e autos-de-fé. Um universo curiosamente imune à exponencial dessacralização das artes que marca este início do século XXI. Enquanto os territórios da música, do cinema, do teatro, da dança, da pintura e da escultura entram num processo de descontracção e inclusão, o território dos livros contrai-se e exclui. O mercado editorial e livreiro assemelha-se muito ao mercado dos bares e discotecas, com os seus porteiros inexpugnáveis decretando quem pode e não pode entrar, de acordo com o trajo, os hábitos e as relações sociais. A razão desta atitude de defesa é simples, no caso dos bares: só sobrevivem se souberem definir um território e uma tribo. As pessoas que os frequentam esperam encontrar ali os seus iguais, divertir-se no conforto da reafirmação da sua identidade e no orgulho da sua diferença.
Já os livros nascem do impulso contrário; com tiragens potencialmente infinitas, portáteis, leves, imediatamente disponíveis em qualquer tempo ou lugar (ao contrário de todas as outras obras de arte), são o instrumento por excelência de democratização do saber e de livre entrada no mundo da cultura. Essa democratização parece hoje incomodar os leitores e criadores de literatura, acossados pelo crescimento de uma indústria editorial que torna vacilante a própria definição de literatura. Mas o que temem esses criadores e leitores? O valor de James Joyce terá diminuído pelo facto de Ulisses ter sido um best-seller em Portugal? Que prejuízo advém para a literatura da popularidade (ilusória ou real, mas, em todo o caso, financeiramente concreta) desta obra literária? Vanguardista, arrojado, difícil a não iniciados, Ulisses antecipa, na sua estrutura aberta e no seu cruzamento de estilos e géneros, a contaminação de modos de criação estética a que assistimos hoje.
A reprodutibilidade do livro tem como principal inimigo a exiguidade do espaço dos seus pontos de venda. Quanto mais livros se produzem, menos tempo de exposição tem cada livro nas livrarias, o que reduz a possibilidade de impacto de um livro novo – e quanto mais literário (perturbador, diferente, exigente em relação ao leitor), mais difícil será dá-lo a ver. Se um romance dito histórico faz sucesso, mil outros serão publicados – precisamente porque é fácil copiar uma fórmula predefinida, o que é o contrário da literatura. E depois não há espaço para os livros que se estranham antes de se entranharem. Por isso é de saudar e apoiar o aparecimento de livrarias dedicadas à literatura, e imunes à pressão dos livros feitos para consumir e deitar fora. Mas há pedras travando esta engrenagem. A maior delas é a do temor dos autores em relação aos números de vendas: querem ser reconhecidos, e temem que, se forem demasiado conhecidos, isso lhes prejudique a apreciação crítica. É uma ideia que a realidade demasiadas vezes tem confirmado. Pensa-se que se a maioria dos livros mais vendidos são muito maus, isso significa que só minorias serão capazes de ler livros bons. Esse preconceito tem sido cultivado e acarinhado – porque reduz o investimento e o esforço – com efeitos desastrosos.
Na inauguração da livraria da Alêtheia Zita Seabra proclama, orgulhosamente, veto de entrada a Paulo Coelho – embora não a Paula Bobone, como anotou judiciosamente Eduardo Pitta, o que demonstra a que ponto a política editorial e livreira é ainda moldada pelo conceito marxista de classe social. Na abertura da nova livraria Ler Devagar, o seu responsável disse que ainda estava a pensar se haveria lugar naquela livraria para António Lobo Antunes, porque nessa livraria os excomungados são todos os best-sellers – o que sinaliza, pelo menos, um critério claro de exclusão. Entretanto, fez-se grande e amável alarido na imprensa por mor da exclusão de um livro do escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro de uma cadeia de supermercados, mas ninguém parece questionar a exclusão, nos supermercados, dos livros de Antonio Cicero ou Eucanaã Ferraz, dois nomes maiores do ensaio e da poesia do Brasil. E, ao contrário da ficção, o ensaio e a poesia precisam de ser defendidos, sob pena de deixarem de ser publicados.


Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Passeio à Terra do Nunca

O território português dá poesia e ficção mas não dá ensaio – os poucos ensaístas que tivemos ou temos são, em verdade ou consequência, expatriados. Como se aqui dentro do nosso pequeno, respeitador e burocrático jardim no extremo da Europa o pensamento tivesse, ainda hoje, dificuldade em respirar. Mais raro ainda é o ensaio literário exterior aos códigos e currículos académicos, escrito por leitores incomuns (porque vorazes) para leitores comuns, capaz de correr o risco de pensar por si mesmo, para lá das exegeses, apenas a partir dos textos e das suas conexões. A Infância é Um Território Desconhecido, de Helena Vasconcelos, agora publicado pela Quetzal, numa colecção intitulada «Textos Breves» – o que pareceria irónico, dado que o livro tem mais de 300 páginas, se não fosse a extrema legibilidade do volume –, é esse tipo de ensaio.
Em primeiro lugar, parte de uma ideia excelente: analisar os personagens infantis dos romances (para crianças ou para adultos) que marcaram o nosso imaginário. Essa ideia desemboca imediatamente noutra, presente no livro de forma sorrateira, implícita, mas não menos marcante: a ideia de escangalhar os mecanismos da imaginação, para ver como ela nasce e se desenvolve. Nos capítulos temáticos, elaborados de forma cronológica, que fazem o corpo principal do livro, é disso sobretudo que se trata: de ver como determinada sociedade molda um determinado tipo de fantasia – e, mais do que isso, de confrontar a biografia de cada escritor com as histórias que ele, supostamente, inventou –; verificaremos a que ponto a inspiração é um compósito de pessoalíssimas questões que o autor tem consigo próprio. Depois de, das décadas de 60 a 90 do século passado, termos seguido a cartilha estruturalista que declarava a morte do autor e o autismo espaciotemporal dos textos, é refrescante, pelo menos para mim, poder voltar a encontrar um rosto humano, verdadeiramente humano, marcado pelos desastres e alegrias de um tempo e um mundo, atrás dos textos. Helena Vasconcelos analisa em detalhe, através de uma prosa comunicante e límpida, as vidas e obras de Charles Dickens, J.M. Barrie (o criador do imortal Peter Pan), Lewis Carroll, Mark Twain, Louise May Alcott (a progenitora das Mulherezinhas que marcaram sucessivas gerações de raparigas), Thomas Mann (por causa de Morte em Veneza), Nabokov (por causa da eterna Lolita), William Golding (o autor de O Deus das Moscas) e Ian McEwan. Nessa análise interferem, em doses iguais, os conhecimentos da autora sobre História, Psicologia e Psicanálise, a sua experiência de leitora compulsiva e a sua experiência de vida. Helena implica-se no que escreve, e a sua análise interpela-nos. O que significa tomar-se por heroína Alice no País das Maravilhas? Ou Peter Pan? A comparação feita pela autora entre essas duas figuras maiores do reino da infância põe o dedo na ferida dos conceitos de «masculinidade» e «feminilidade»: «Alice, mesmo no País das Maravilhas, é uma pessoa bastante real; Peter Pan, num universo quase “real” é apenas uma espécie de elfo; Alice é corajosa porque pensa; Peter Pan é corajoso porque não pensa» ( p. 112).
O extraordinário magma de informações, espírito crítico, experiência, bom senso e capacidade de comunicar torna o livro deliciosamente despenteado, livre, entusiasmante, lembrando A Louca da Casa de Rosa Montero. Um livro em que o amor aos livros se abre em inspiração reflexiva sobre os temas fundamentais da vida – porque falar sobre a infância é falar sobre a vida e a morte, o medo e o desejo, a inocência e o pecado, o poder e a submissão.
Acresce que, mais do que um livro sobre livros, este ensaio é também uma História da Infância. O primeiro, e extenso, capítulo, recorda-nos que a infância, tal como a vivemos hoje, nesta Era em que a Ditadura dos Novos se impõe, é muito recente. O último capítulo é uma dissertação sobre a presença fascinadora do terror, do Capuchinho Vermelho a Harry Potter, e sobre a importância que o medo tem para a formação da coragem e o crescimento do desejo. Descobri que a menina apaixonada pelo Peter Pan continuava a morar em mim – e que, afinal de contas, isso é bom.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

A arte de bem capar

Um dos fulgores da língua portuguesa é a capacidade que ela tem para concentrar, numa só palavra, um tratado de filosofia. As nossas palavras não se limitam a ser polissémicas; muitas vezes desenham um arco de sentido que descreve uma identidade. O verbo «capar» é um exemplo disto: serve para castrar e serve para envolver as páginas de um livro. Basta entrar em qualquer livraria para ver a que ponto estas duas acções se fundem e potenciam: as capas dos livros portugueses tendem a ser ou sonsas, ou debochadas, ou obscuras – ou seja, em qualquer dos casos, castradoras. Mentirosas: um sonso é um falso tímido, um debochado é um sedutor sem arte, um obscuro é uma imitação barata de intelectual. A tradição portuguesa do contrabando, do faz de conta ou da auto-ilusão é perfeitamente ilustrada pela  paisagem gráfica da edição portuguesa. Há excepções – mas são isso mesmo, excepções. Já estivémos mais perto da vontade de atingir a verdade e a luz. A crise deprime-nos, e a depressão dá-nos desculpa para tudo. Embala-nos de medo, encolhe-nos. Aproveitamos a crise para desistir em vez de ousar. Perdidos por cem, perdidos por mil. Não será por isso que a palavra «crise» é o eterno cartão de visita de Portugal?

Ainda mal começara esta crise particular – a crise intergaláctica provocada pelos banqueiros gananciosos que arrastaram para os seus condomínios em Marte as poupanças do povo sofredor – já as capas dos livros começavam a urrar de desespero, numa profusão de relevos dourados e cores contrastantes, inspiradas na estética sórdida do famoso quadro do menino da lágrima. Deu-se um visível aumento dos livros cintados com frases bombásticas (cada uma mais igual à anterior) e os textos de contracapa tornaram-se discursos de infiéis, lançando promessas e adjectivos como projécteis aos olhos cândidos dos eventuais leitores. Antes da crise, a estratégia era a do «excerto-com-sabor-a-Literatura-com-L-maiúsculo». Não era bem uma estratégia, era mais uma espécie de preguiça pomposa, que se julgava impressionante e poupava o trabalho, tão pouco português, da sinopse. Pensava-se que os leitores se vergariam à solenidade do virtuosismo literato. O pior é que não se pensava mal – num país mais velho do que antigo e mais pretensioso do que culto,  a vaselina da literatice passa demasiadas vezes por substância literária.
O escândalo da capa que exibe A Origem do Mundo de Courbet teve várias consequências, todas elas positivas. Antes de mais, deu a conhecer o próprio Courbet. Em segundo lugar, excitou, entre vários outros, os órgãos de comunicação social, o que é sempre de louvar, num país tão difícil de excitar. Em terceiro lugar, recordou-nos a rigorosa definição de André Breton: «A pornografia é o erotismo dos outros.» E, acima de tudo, fez esgotar a edição. À atenção dos departamentos de marketing das editoras: se querem vender livros, chamem a polícia. Uma apreensãozinha em Braga dá largo espaço de publicidade gratuita nos media. Só tenho pena que A Origem do Mundo não tivesse servido de capa a O Mundo desde o Fim de Antonio Cicero, que merecia 10 mil vezes mais leitores do que este Pornocracia de Catherine Breillat. Também tenho pena que a bela obra de Courbet apareça, ela mesma, tão castrada pelo ouro da moldura ( o ouro, sempre o ouro) e pela fonte tipográfica em contorcionismo escancarado. Claro que há quem prove que as capas não precisam de ser feias, porcas e más para vender. Mas a inércia do mau gosto tornou-se tese de marketing; entende-se que a badalhoquice é comercial, e que a seriedade não compensa. Se as capas dos livros se tornam estridentes, aldrabonas e cada vez mais parecidas umas com as outras, como poderemos encontrar, apesar delas, os livros que nos fazem falta?
Em Portugal ainda são poucos os editores capazes de ser isso mesmo: pegar num livro e dar-lhe a roupagem que o livro e os seus leitores merecem. É muito mais fácil capar do que iluminar um livro – e por isso os livros se tornam casos de polícia.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Moderadores

Não sei o que é um moderador. Confesso que embirro com a palavra: soa-me sempre a moralizador. O mundo andaria melhor com mais moral e menos moralizadores, com mais moderação e menos moderadores. O substantivo abstracto parece minguar à medida que se materializa nos seus concretos particulares – também vejo mais amantes do que amor. No tempo em que não sabia dizer não, aceitei moderar muitas mesas. Aterrada, e com razão: não há meio de se sair de uma moderação com o amor dos moderados intacto (isto partindo do princípio cândido que esse amor existia à partida). Por mais que a pessoa se esforce, escorrega sempre num adjectivo – que atribuiu a A e não atribuiu a B, ou porque não se quis repetir ou porque a obra de B lhe parece de facto menos relevante do que a de A. Caso prescinda totalmente dos adjectivos, sempre há-de ter uma linha a mais para B do que para C – questão do tamanho dos currículos, mas nenhum C o perdoará. Depois vem a questão, ainda mais delicada, dos tempos: damos quinze minutos a cada, mas há sempre aquele (normalmente o C, ou seja, o de menor currículo) que se estica. Aprendi com Onésimo Teotónio de Almeida o truque eficiente dos bilhetinhos – 5 minutos, 3 minutos, corta. Com o Onésimo, que é professor na Brown University, isto resulta. Comigo, nem por isso: fazem de conta que não vêem. Deve faltar-me um gesto viril no lançamento do papel. E o respeitinho académico, claro. De modo que às tantas, numa mesa da Gulbenkian, peguei no microfone e dei por finda a charla interminável de um dos quatro participantes na mesa. A metade da audiência que me fazia gesticulações iradas, aplaudiu. Mas na outra metade havia uma claque do orador, que assobiou, pediu a palavra e protestou. Foi a minha despedida dessa dura profissão. Hoje, quando me convidam para moderar uma mesa, digo que sou demasiado imoderada para isso. Como as pessoas são difíceis de convencer, acabo por ter de mentir: digo que nessa data estarei no Brasil. É um método tão eficaz que às vezes a mentira acaba por se tornar verdade: desembarco mesmo no Brasil; com sorte, até directamente no Rio de Janeiro. Deve ser por isso que aquele livro chamado O Segredo tem tanto sucesso; quando desejamos muito que uma mentira se torne verdade, isso acaba por acontecer (embora não seja tão fácil transformar uma verdade numa mentira, há quem passe anos a tentar).
Supostamente, o moderador serviria para animar a conversa, para fazer perguntas pertinentes, para dar vivacidade e força ao debate. Seria um trabalho para jornalistas, dos bons (aqueles a que se chamam jornalistas culturais, por fazerem questão de terem cultura geral). Seria mais rigoroso, então, chamar-se à função «animador». Mas na realidade, se nenhum palestrante gosta de ser moderado, ainda menos gosta de ser «animado». Nos tempos que correm, a maioria dos debates são sessões de leitura: o palestrante vem com os seus dizeres escritos (em geral, numa resma de papel). Sob alegação de timidez. Perante as tais resmas dos alegados tímidos, cheias de saber e citações, os desgraçados que se limitem a trazer uns tópicos e que venham dispostos ao improviso e às provocações do moderador, suplicam ficar para o fim e passam as leituras alheias a escrever umas coisas cheias de pânico, que depois lerão, em tom pausado para dar mais ênfase. No fim, nem uma alma da audiência tem vontade de perguntar nada – empanturrado de citações e embalado em leituras sucessivas, quem consegue pensar?
Menos moderação e mais espontaneidade, isso é que seria bom para os debates. Assistir a um grupo de pessoas pensando e discutindo em voz alta. Arriscando dizer disparates, puxar pelo raciocínio e pela inventiva, começar a pensar do zero em coisas já muitas vezes pensadas. É para mim um mistério, o que faz com que as pessoas saiam dos seus sofás para debates que não são mais do que comboios de leituras. Com tanto ensaio bom para ler em casa, silenciosamente. Sou uma impaciente, imoderada e individualista: ler por ler, prefiro ler sozinha. Conhece-se menos gente, mas o prazer é garantido.
 

Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.