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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Palavras das Correntes, 2.

Ruas, caminhos, labirintos, cruzamentos, viagens. A geografia literária (de cada leitor, de cada escritor) marcou o dia de ontem, nas Correntes. Antonio Orlando Rodriguez só sentiu que chegou a Alexandria quando conseguiu deitar-se na cama de Kavafis; José Mário Silva viajou até à Patagónia, com Chatwin, e a East Anglia, com Sebald, sem sair das páginas dos livros; Santiago Gamboa só percebeu que as ruas de Bogotá (onde nascera) não estavam orfãs de literatura quando foi estudar para Madrid, aos 19 anos; Eloy Santos falou sobre os escritores encallados (de calle) - «da impossibilidade do caminho nasce a possibilidade do relato, da narrativa»; e Gonçalo M. Tavares contou histórias, algumas dos seus livros, outras das suas viagens, e demorou-se propositadamente na palavra «reparar». (cont.)

A banana e o desconhecido

Moacyr Scliar (n. 1937, Porto Alegre) é um grande contador de histórias. E contou mais uma (já repetida mil vezes, garantiu) no auditório principal das Correntes, poucos minutos antes das onze da manhã. Tema em cima da mesa: «O Medo ou o Fascínio do Desconhecido». Moacyr, repetimo-lo nós agora, quis contar uma história, a história (aqui resumida) da chegada do seu pai, aos 10 anos, a Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, depois de uma viagem de semanas no porão de um navio de carga. Magríssimo, despertou rapidamente a atenção de um gaúcho que esperava os emigrantes no cais. Quando recebe uma banana (nunca tinha visto tal fruta) lembra-se de que a única fruta que comia na Rússia (uma laranja a dividir por nove irmãos, em dias de aniversário) tinha caroço. Ali, no cais, o pai de Moacyr come a casca da banana e deita fora o «caroço».

«O escritor», conclui Scliar, «é alguém que olha para a banana e come a casca», que entra permanentemente num território desconhecido. Como aconteceu com o seu pai, aos 10 anos.

Palavras das Correntes

Quem está farto das palavras? «Estou farto das palavras», tema de uma das mesas das Correntes, ontem. Tema provocador, avisou Carlos Pinto Coelho, no papel de moderador. Mas são as palavras (provocadoras ou não, pouco importa) que justificam as Correntes. Das palavras que os alunos das várias escolas da Póvoa ouviram de Dulce Maria Cardoso, João Paulo Cuenca, José Luís Peixoto ou Eucanaã Ferraz; das palavras que teimam em não passar para a folha em branco, das palavras publicadas no novo romance de Helder Macedo (Natália, ed. Presença), nos livros de autores sul-americanos (Andrea Blanqué, Álvaro Uribe, Adriana Lisboa, Héctor Abad Faciolince) editados pela Quetzal, e nos títulos apresentados, já noite dentro, numa sala do hotel onde o grande desafio era encontrar uma cadeira livre (entre eles, A Escriba, de António Garrido, O Mundo, de Juan José Millás ou Chiquita, de Antonio Orlando Rodriguez); nas palavras gastas que tanto «arruinam casamentos como editoras», como explicou Victor Andresco, que nos podem salvar (Rui Cardoso Martins) quando a morte aparece cobardemente, ou que faltam quando a imaginação é torrencial (Daniel Galera); palavras que mudam (mudam mesmo) a vida das pessoas, como contou Luis Fernando Veríssimo a propósito de uma das obras-primas do seu pai (Olhai os Lírios do Campo), palavras desenhadas com prazer a lápis (Almeida Faria), palavras cantadas por Paulina Chiziane, palavras escritas e lidas numa emocionada carta ao pai (Eduardo Bettencourt Pinto). (cont.)

Fotografia de Erico e a segurança do papel

Duas «revelações» durante mais um debate na tarde do segundo dia das Correntes: Alice Vieira guarda na carteira uma fotografia do escritor Erico Veríssimo (o filho, Luis Fernando Veríssimo, estava ali ao lado) e Almeida Faria, já lá vão uns anos, chegou a copiar o que aparecia no ecrã do seu computador para o papel, garantindo assim (acreditava ele) que não perdia nada do que escrevera.