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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Cabrera Infante e os livros póstumos

A Quetzal acaba de lançar em Portugal o primeiro dos meus romances póstumos – A Ninfa Inconstante (bela capa e tradução rigorosa de Salvato Telles de Menezes). Virão depois Corpos Divinos e Mapa. Sou um daqueles escritores, raros, que se tornou mais prolífico depois de morto. Em vida, como se sabe, publiquei apenas dois romances: Três Tristes Tigres (1965) e Havana para Um Infante Defunto (1980).
Quando esta crónica surgir a público já deverá ser possível comprar nas livrarias espanholas o novo livro de Cortázar, Papeles Inesperados (Alfaguara), reunindo contos, poemas e auto-entrevistas do escritor argentino. Na noite em que aqui cheguei, ao Hotel Paraíso, já cá o encontrei – chegou em 1984 – meio morto de tédio, a vomitar coelhos brancos.
Em Novembro próximo deverá vir a lume um novo romance de Vladimir Nabokov: The Original of Laura. Recordo que o meu querido colega russo-americano deixou instruções para que o referido romance fosse destruído após a sua morte. Nabokov morreu em 1977, e o The Original of Laura dormiu durante mais de 30 anos no cofre apertado de um banco suíço, até que Dmitri, o filho de Nabokov, decidiu publicá-lo. Murmura-se que a Penguin terá oferecido mais de um milhão de dólares para convencer Dmitri. Em sua defesa, Dmitri recordou que o pai também pretendeu destruir o original de Lolita, e que só acedeu a publicá-lo por insistência da mãe.
Quanto a mim não tenho nada contra os livros póstumos, muito pelo contrário. Acho mesmo que nenhum autor deveria ser autorizado a publicar um livro antes de soltar o derradeiro suspiro. Num regime deste tipo a literatura deixaria de estar associada à vaidade, à vacuidade, à promiscuidade, e ao consumo. A torrente de títulos que todos os dias desagua, lama impura, nas livrarias do mundo inteiro, sossegaria um pouco. Editores, distribuidores e livreiros procurariam empregos mais respeitáveis e lucrativos, e os leitores poderiam escolher com melhor critério.
Por outro lado, livres da opressão do tempo, e do momento, sabendo-se além do amor e do rancor, de toda a paixão e fúria, a salvo de qualquer ameaça, insulto ou pedrada – mesmo fátua –, os escritores poderiam mergulhar sem receio nos abismos mais profundos da alma humana, espreitar os desvãos interditos da sua história familiar, os podres odres da pátria, cutucar com vara curta Deus e o Diabo, enfim, derrubar ideias feitas a golpes de ideias um pouco menos imperfeitas.
O que terá levado Vladimir Nabokov a pedir ao filho para destruir o manuscrito de The Original of Laura, ao invés de o fazer ele mesmo? Martirizar o pobre Dmitri? Aumentar o preço do manuscrito, e assim beneficiar a descendência?
A verdade é que se Dmitri tivesse obedecido ao severo desejo paterno, 30 anos atrás, ninguém teria ganho nada com isso. Com a publicação de The Original of Laura todos lucram. Se o romance for muito mau, paciência. Nabokov não perde. Já nada o afecta. Se for bom, ou sofrível, ou se simplesmente permitir lançar uma vaga luz sobre a restante obra, ganham os leitores, ganham os académicos, ganha Dmitri, ganha a editora, ganham os distribuidores e os livreiros, e, finalmente, ganha Vladimir Nabokov.
Sábio foi Fernando Pessoa. Todo ele – ou quase todo – póstumo. O poeta português foi tão clarividente que não só deixou quase toda a sua imensa obra por publicar, como confiou aos vindouros a tarefa de o construírem, enquanto poeta, conforme as exigências da época e as convicções de cada um (o caso da sua divulgação em Itália é exemplar).
Pessoa teria conseguido ser o poeta que é hoje caso tivesse publicado metade do material que deixou inédito? Isto é: teria conseguido escrever a outra metade – afadigado em responder a críticos e detractores, em fazer-se entender, em não magoar os amigos? O que seria O Livro do Desassossego se Fernando Pessoa o tivesse publicado em vida? Uma obra de génio, sem dúvida, mas nunca esse jogo interminável, esquivo e fascinante em que se transformou.
Não devemos recear as obras póstumas – e sim os leitores póstumos, como eu.
 

Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Rui Knopfli fala das raízes

Nasci moçambicano, em Inhambane, e morri em Lisboa – mas não lisboeta. Fui a vida inteira português, pois nunca tive outro passaporte, e no entanto pouco me interessei por Portugal. Raízes? O que são raízes para um escritor? As raízes de um escritor afundam-se em terrenos que ele, eventualmente, nunca pisou. Versos lidos há muito tempo, de um velho poeta javanês (é só um exemplo), podem ressurgir décadas depois, delidos, ténues, e alimentar outros poemas. Um dos meus detractores sistemáticos há-de acusar-me, lendo-os, de não ter sido eu suficientemente afri­cano, ou de não ter sido suficientemente português – e estará certo. Nunca fui suficientemente nem uma coisa nem outra, ou outra ainda, porque aos poetas, aos romancistas, calha bem ser todos os homens e de todas as nações, às ­vezes simultaneamente. Um escritor exercita-se a vida inteira para conseguir tornar-se fluente em múltiplas nacionalidades, personalidades, etc. Uns poucos conseguem-no.
Sei, não obstante, que me senti sempre mais africano do que europeu e deixei disso testemunho num poema, um tanto ingénuo, mas de maior circulação do que os restantes, talvez por haver muitos leitores que nele se reconhecem. Também para isso servem os poetas – para aju­darem os outros a expressarem-se: «Europeu, me dizem. / Eivam-me de literatura e doutrina / europeias / e europeu me chamam. // Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum // pensamento europeu. / É provável... Não, é certo, / mas africano sou. / Pulsa-me o coração ao ritmo dolente / / desta luz e deste quebranto. / Trago no sangue uma amplidão / de coordenadas geográficas e mar Índico. / Rosas não me dizem nada, / caso-me mais à agrura das micaias / ao silêncio longo e roxo das tardes / com gritos de aves estranhas. // Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. / Mas dentro de mim há savanas de aridez / e planuras sem fim / com rios langues e sinuosos, / uma fita de fumo ver­tical, / um negro e uma viola esta­lando.»
Os sul-africanos zangaram-se com J.M. Coetzee por este ter abandonado o país, radicando-se na Austrália. Pior: Coetzee deixou a África do Sul após o fim do apartheid e a transição para um regime democrático e não racial, requerendo e obtendo a nacionalidade australiana. Tivesse feito o mesmo, mas cinco anos antes de Mandela irromper, como um deus magnânimo, de Robben Island, e ninguém teria reparado. Assim foi um escândalo, quase uma declaração de guerra contra o país do arco-íris. Também Mario Vargas Llosa – que os peruanos não quiseram como Presidente, preferindo ­votar em Fujimori – abandonou o país, após a vitória do adversário, requerendo a nacionalidade espanhola. Todavia, Coetzee, cidadão australiano, continuou a escrever como Coetzee, escritor sul-africano, embora acrescentando à galeria dos seus austeros personagens uma escritora australiana, Elizabeth Costello, que se assemelha ao próprio Coetzee na fúria (elegante) com que defende o vegetarianismo, e em mais umas poucas opiniões menos convencionais. Mario Vargas Llosa, cidadão espanhol, não deixou nunca de ser Mario Vargas Llosa, escritor peruano (aliás, quase tudo é Peru em Vargas Llosa).
São raros os escritores que ao mudar de passaporte transitaram também para uma nova nacionalidade literária. Talvez Nabokov, ou nem ele, pois o autor de Lolita recebeu desde o berço uma educação cosmopolita, e além disso qualquer um consegue ser americano (já o somos todos). Ser um escritor australiano também não me parece difícil. Canadiano parece-me ser ainda mais fácil. Neste último caso exige-se apenas uma absoluta indiferença, ou desprezo, como quiserem, em relação a raízes, países, narizes, e todas as armadilhas semelhantes; basta ser de toda a parte, e de nenhuma, como muito bem tem vindo a fazer Michael Ondaatje.
Pagaria, isso sim, e pagaria bem, para ver Nabokov, ou Coetzee, ou Ondaajte a transformarem-se em escritores japoneses.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Amado e os patrulheiros

Morrer salvou-me da velhice. «A velhice é uma merda» - afirmei certa ocasião, numa entrevista, escandalizando muito boa gente, inclusive alguns jovens. A morte também me salvou da estupidez, e dos patrulheiros do politicamente correto, que deram para implicar com minhas muitas mulatas e seu generoso talento para a dança e para o amor. Lembro - é só um exemplo - as palavras do poeta (e senador) Abdias Nascimento: «O que tem a ver as personagens "Maria dos Reis" ou "Rosenda Rosendá" com as figuras respeitáveis de Yalorixás, como Tia Massi ou Mãe Teté do Candomblé do Engenho Velho da Casa Branca? Poderia a dignidade de uma Mãe Menininha do Gantois ou de Mãe Stela do Ilê Axé Opo Afonjá ser confundida com as imagens espumejantes que Jorge Amado retrata no seu famigerado livro Jubiabá? E onde se situariam, nesse universo de sexo espumante, figuras da enorme dimensão humana e religiosa de uma Mãe Nicinha, do Bogum, ou Dona Hilda, do Ilê Axé Ogun? Estas e muitas outras personalidades religiosas afro-brasileiras têm sido impunemente agredidas e humilhadas nos livros de Jorge Amado, como o foram nossos antepassados nas obras de antropólogos, etnólogos, historiadores, etc., criadores de estereótipos pejorativos sobre a raça negra. (...) Esse estereótipo e seus equivalentes modernos (mulata, mãe de santo e filha de santo lascivas) propagados por Jorge Amado, e muitos outros artistas brasileiros, afastam a mulher negra do âmbito íntimo da procriação - do âmbito familiar -, relegando-a ao espaço externo da transação sexual gratuita, diversionista ou comercial. Não é uma opinião pessoal minha. Ainda recentemente, o professor e crítico literário inglês David Brookshaw, observou o mesmo fenômeno nos romances de Jorge Amado, comentando a respeito que o escritor "caiu no exotismo", isto é, que ele vê o negro como um elemento ex-ótico (fora de ótica): um estrangeiro na própria Bahia que ele construiu.»
Depois de morto cada qual tem seu  paraíso - ou seu inferno - e no meu (graças a Deus!) bailam mulatas. No do senador Abdias, ou no do professor Brookshaw, não há mulatas, apenas afro-descendentes muito respeitáveis, e, suspeito, muito chatas. Mesmo a palavra «mulata» incomoda meus detratores politicamente corretos. Acham nela irremediável degradância, por porvir de «mula», esquecendo que a palavra terá adentrado em nosso idioma, a partir do espanhol, por volta de 1525. Durante os quinhentos anos que se seguiram o povo e seus poetas e trovadores trabalharam a palavra, poliram-na, deram-lhe luz, operando nela uma esplêndida subversão semântica.
Melhor se preocupariam meus detratores com o desaparecimento dos afro-descendentes - e da cultura africana do Brasil - das páginas da literatura brasileira. Depois de mim deixou de haver pretos e mulatos na ficção nacional. Os jovens escritores brasileiros, quase todos provenientes da classe média do Rio e São Paulo, (d)escrevem um país que poderia ser europeu, não se desse o caso dos países europeus estarem hoje cheios de imigrantes africanos e seus descendentes, alguns dos quais, aliás, se revelaram entretanto muito bons escritores. Há mais negros nos romances ingleses e franceses que se publicam atualmente, do que na ficção brasileira. Não estou a defender um sistema de cotas, segundo o qual os escritores deveriam ser forçados a incluir nos seus livros uma determinada percentagem de personagens de cor preta ou aparentada - ah, aí está uma ideia que agradará aos patrulheiros do politicamente correto. Estou simplesmente a manifestar a minha estranheza.
E enquanto dito esta crónica vou ouvindo com gosto Mart'nália cantar o famoso samba de Ary Barroso, com versos de Vinícius de Moraes. «Mulata no Sapateado»: «Quem tem mais balanço no sapateado / Tem mais molejo, tem mais requebrado, oi / Do que a mulata tem / Quem é mais faceira, mais apaixonada / Faz mais miséria quando está gamada / Tem mais feitiço que a mulata tem? // Quem é que se mostra / Pro estrangeiro ver, por favor / Imperador ou presidente / Ou qualquer todo crente que vem / Quem é a mulata só porque ela samba bem? / Se samba ô, se samba /  Sim, é a mulata seja lá de onde ela for / Pra mexer assim precisa ter aquela cor /Tanto faz no samba de partido alto / Ou no puladinho na ponta do salto / Desenvolvendo o seu sapateado».

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Viriato da Cruz e o poder da poesia

Se não estivesse morto (morri em Pequim a 13 de Junho de 1973) festejaria no próximo dia 25 de Março 81 anos. Há quem ache que Angola poderia ser hoje um país muito diferente se eu não tivesse morrido tão jovem, mesmo às portas da Revolução de Abril em Portugal, e das grandes mudanças que a mesma implicou para o meu país. Sinto-me lisonjeado com tais opiniões, mas acho-as exageradas. É verdade que um único homem pode em certas circunstâncias alterar a correnteza da História – basta pensar em Nelson Mandela, sem o qual o regime do apartheid talvez não se tivesse desmoronado de forma pacífica. Olhando para trás, porém, sou forçado a admitir que o mau génio que sempre me dominou teria arruinado nesse futuro imaginário, como arruinou no duro passado real, qualquer encontro meu com a Senhora História.
Não me parece provável que em 1974 tivesse conseguido unir os diferentes movimentos nacionalistas angolanos. Não eu, um dos primeiros militantes do MPLA que se atreveu a contestar a liderança de Agostinho Neto e ousou romper com o partido para se juntar aos homens de Holden Roberto. Isto antes de romper com todos, a murro e à cacetada, e ficar completamente só. Levei a minha propensão iconoclasta sempre muito a sério. Tão a sério que um dia, em Pequim, onde estava exilado, quebrei um busto de Mao em público. Os meus anfitriões chineses ao invés de me expulsarem, como eu pretendia, condenaram-me a uma espécie de prisão domiciliária, ao ostracismo mais feroz, à penúria. Morri e enterraram-me sem testemunhas no cemitério dos estrangeiros. Se tivesse resistido mais alguns meses poderia ter conseguido deixar Pequim e recomeçar uma vida nova em Paris ou em Lisboa, onde me aguardavam muitos amigos.
Cheguei sempre cedo demais. Nunca soube esperar. Até para morrer fui impaciente.
Resumindo: vivo não teria ajudado a evitar nem a guerra civil, nem o desastrado  pesadelo totalitário que em poucos anos, sob o olhar perplexo do camarada Neto, arruinou Angola. Em contrapartida talvez me tivesse dedicado à poesia, aprofundando a meia dúzia de caminhos que sugeri em outros tantos versos ingénuos. É graças a esses versos que por excessiva indulgência da crítica, ou excessiva ignorância, muitos insistem em chamar-me poeta.
Nos anos 40 e 50 eu e mais alguns companheiros começámos a escrever poesia na intenção de despertar as massas. A poesia deveria servir, no nosso entender, para preparar o terreno para a insurreição nacionalista. E assim foi. Contrariando os cépticos, demonstrámos que a poesia pode mudar o mundo. Primeiro os versos, depois as balas. A seguir demos razão aos cínicos: mudar, mudámos, mas não para melhor. Acontece que, infelizmente os poemas que então produzimos estavam longe da excelência. Faltou-nos labor literário. Talvez com boa poesia pudéssemos ter obtido melhores resultados na política. Não deixei de acreditar no poder da poesia. Nem sequer na necessidade de levar a poesia ao poder. O problema (suspeito) foi a qualidade dessa poesia – e dos seus poetas. Não é possível cozinhar um bom funge com farinha ruim.
Se não tivesse morrido em 1973 estaria agora a confrontar-me – inclusive a murro e à cacetada, caso não me faltasse o fôlego, mas em todo o caso possuído pelo mesmo espírito iconoclasta – com todos quantos impedem a afirmação de um novo pensamento e de uma nova criatividade, capaz de iluminar consciências e de preparar terreno para outras insurreições, outras libertações. Vez por outra oiço alguém utilizar, a propósito do regime angolano, a expressão «pensamento totalitário», e rio-me às gargalhadas do alto da minha nuvem – eis aqui um belo oximoro. Não sei quanto tempo vai levar (o que no estado em que me encontro é indiferente) mas sei que mais tarde ou mais cedo a boa poesia acabará por se impor e triunfar.

 

Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.