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Rui Tavares sobre Vladimir Putin: «O orputinismo»

Ao contrário de pelo menos alguns que, por frustração com a União Europeia e o «Ocidente», encaram com equanimidade as ações de Putin, eu estive na Rússia de Putin e conheço bem alguns dos democratas russos que sob ele padecem.

 

 

Texto de Rui Tavares

 

Onde vai isto parar? Não sei se o deveria dizer, mas desde o início da crise ucraniana que receio que haja um objetivo final para Putin: Odessa. Olhando para um mapa, é quase no extremo oposto da região onde as forças pró-russas mantêm ainda ocupados os edifícios da administração ucraniana. Mas historicamente Odessa era a grande cidade russa (e judaica) da Nova Rússia, como os czares chamaram à faixa de território junto ao mar Negro que conquistaram ao Império Otomano no fim do século XVIII. É ainda uma cidade maioritariamente russófona, embora pareça ser de maioria étnica ucraniana, tanto quanto se possam distinguir estas coisas. E permite duas coisas: ligar a Rússia à região separatista da Transdnístria, na Moldávia, e cortar o acesso da Ucrânia ao mar Negro. Sem litoral, a Ucrânia fica reduzida a Kiev e às antigas regiões austro-húngaras (e polacas) da Galícia, sem a menor hipótese de se tornar numa potência regional. A visão de Putin para a Ucrânia parece ser a seguinte: ou aquele país é uma extensão da Rússia, e nesse caso pode ser deixado em paz, ou é um país desleal à Rússia, e nesse caso deve ser punido e, se necessário, mutilado. Não é uma visão muito diferente da que Putin tem para a própria Rússia e para a sua sociedade. Quando serve os propósitos de Putin, deve ser louvada pelo seu patriotismo. Quem não servir, azar para eles. Putin é um oportunista. Enquanto foi útil jogar segundo as regras do direito internacional, fê-lo com rigor. Se houver mais a ganhar ao não o fazer, joga-se à antiga: pela anexação, às claras ou encoberta. É essa a doutrina do «orputinismo».

 

Ao contrário de pelo menos alguns que, por frustração com a União Europeia e o «Ocidente», encaram com equanimidade as ações de Putin, eu estive na Rússia de Putin e conheço bem alguns dos democratas russos que sob ele padecem. E nem a mesma frustração que sinto perante os desmandos da troika e outras tropelias antidemocráticas que se verificam deste lado do continente, me fazem esquecer do que lá vi e do que me contam. Na Rússia, um coisa tão banal quanto a criação de um centro de estudos está sujeita à arbitrariedade das autoridades; numa universidade conhecida por nela lecionarem oposicionistas, bastou enviar o corpo de bombeiros para «uma vistoria» na qual se decidiu que o edifício não era seguro, ficando assim encerrado até a realização de uma das eleições fantoche em que Putin trocou de presidente para primeiro-ministro. Um jornalista incómodo não perde o emprego; perde o sossego e é capaz de perder a vida. Uma simples associação ou ONG está sempre a um passo de ser declarada uma «agente do estrangeiro» e ser encerrada. Os democratas russos sabem bem de onde vem isto: da História. Um e-mail recente que recebi contava-me do medo de sair do país pela última vez, e encontrar a porta fechada ao regresso. Quem viveu o fechamento quase secular da União Soviética, sabe bem reconhecer os sinais indesmentíveis de um novo fechamento: o complexo de superioridade patriótico, a ideia de que a Rússia não pode confiar em ninguém e que todos os estrangeiros a querem roubar. Sabem, em última análise, que é a Rússia que tem mais a perder com esta atitude. E nada os desespera tanto quanto ver os democratas ocidentais ceder à tentação do orputinismo.

 

Publicado na revista LER n.º 134

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