Qual Panteão? Deixem Eusébio.
Sugestão em duas linhas: deixem Eusébio sossegado no lugar onde sempre estará – na memória dos seus admiradores.
Amália e Eusébio foram os dois maiores heróis populares do século XX português. Houve outros – atores, cantores, desportistas – mas nenhum atingiu a fama e o reconhecimento internacional comparáveis aos dos dois. Por motivos insondáveis, os deputados da nação decidiram que o lugar do repouso eterno de Amália deveria ser junto de outras figuras luminosas como Manuel Arriaga, João de Deus e Teófilo Braga, aos quais nem o facto de os restos mortais se encontrarem protocolarmente depositados no Panteão salva da indiferença generalizada dos seus compatriotas. Agora, ainda transidos pela morte do grande futebolista, os deputados já decidiram que, com a brevidade que a lei e os costumes permitam, o corpo de Eusébio deverá ser encaminhado para esse lugar lúgubre onde tristemente se celebram os equivalentes modernos dos deuses do edifício mandado construir por Marco Agripa. Eu nunca estive no Panteão, mas estou certo de que, pagos os três euros do bilhete com direito a visita guiada, qualquer português sairá desse mausoléu secular reconciliado com a nação que o pariu e a ensaiar os versos cantados por Amália ou a escrever a sua própria cartilha maternal. Também não quero contrariar a generalidade dos portugueses que, a esta hora, já estão a subscrever inúmeras petições online para que o corpo de Eusébio seja trasladado – ou, se preferirem, transladado – para qualquer sítio ou, quem sabe, criogenizado para que, num futuro longínquo, a ciência o possa ressuscitar e devolvê-lo ao convívio dos homens que, na altura, estiverem a representar o País na Assembleia da República. No entanto, atrevo-me a sugerir que deixem Eusébio sossegado no lugar onde sempre estará: na memória dos seus admiradores. Bruno Vieira Amaral