MANIFESTO: As rotundas dívidas das autarquias
COMENTÁRIO Se me pedissem para escolher duas palavras que definem as nossas autarquias diria «dívidas» e «rotundas». Posso estar a ser injusto para as três autarquias que escaparam a este duplo flagelo, mas é disto que me lembro quando vejo a presidente da Câmara de Portimão anunciar um programa de adoção de rotundas. Vejamos: em 2014, a Câmara de Portimão, com 159 milhões de euros de dívida, ocupava um honroso terceiro lugar na lista das autarquias mais endividadas, logo atrás de Lisboa e Vila Nova de Gaia. A par desta dívida monstruosa, a edilidade portimonense era a orgulhosa proprietária de 30 rotundas que, não podendo ser transplantadas para outras localidades nem trocadas por estatuária diversa, continuaram a adornar o espaço urbano daquela cidade. Ao fim de meses a saltar entre dívidas e rotundas e dívidas rotundas, algum cérebro autárquico sugeriu o revolucionário cruzamento entre uma campanha de solidariedade animal e o mecenato viário: pedir aos empresários da terra que adotem uma rotunda. Quem viaja pelo país sabe que a rotunda solitária, deixada ao abandono, ignorada por condutores negligentes que por ela passam sem um gesto de atenção, é um problema social gravíssimo. Em declarações à CMTV, a presidente da câmara, com o sorriso rasgado dos visionários míopes, disse acreditar que, daqui a uns anos, os turistas irão de propósito a Portimão visitar as rotundas que, na altura, fruto do investimento dos empresários na sua requalificação, estarão ao nível de um Taj Mahal ou das pirâmides de Gizé. BVA [Ler, 141]