"Mediadoras de leitura"
Na praça da Matriz, bem perto das árvores, de ondem pendiam dezenas de livros, raparigas de T-shirt rosa esperavam a chegada dos mais novos.
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Na praça da Matriz, bem perto das árvores, de ondem pendiam dezenas de livros, raparigas de T-shirt rosa esperavam a chegada dos mais novos.
A propósito de Como Falar dos Livros que não Lemos, de Pierre Bayard, alguns dos escritores convidados da FLIP escolheram os seus livros-não-lidos-preferidos:
Inês Pedrosa - Anna Karenina, de Leo Tolstoy.
Luis Fernando Verissimo - A Montanha Mágica, de Thoman Mann.
Humberto Werneck - A Montanha Mágica, de Thoman Mann.
Nathan Englander - A Montanha Mágica, de Thoman Mann.
Martín Kohan - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.
João Gilberto Noll - Moby Dick, de Herman Melville.
Partes das palestras dos escritores que passaram pela FLIP podem ser vistas aqui e aqui.
Leitor sentado perto de uma das igrejas de Paraty.
Gustavo Franco publicou em 2007 A Economia em Pessoa - Verbetes Contemporâneos e Ensaios Empresariais do Poeta (Zahar Editor). Depois de Fernando Pessoa e Machado de Assis, o filão de "garimpeiro" promete continuar. "Eça de Queirós é um bom suspeito", revelou o autor.
Além de genial, Machado de Assis era tudo ou quase tudo. Gozador, irreverente, brincalhão, apreciador de cantoras líricas (para utilizar as palavras de Rouanet) e crítico de temas económicos e financeiros da sua época. Foi esse lado do cronista do quotidiano, interessado por assembleias, relatórios, estatutos e dividendos (ele próprio accionista do Banco do Brasil) que Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil, revelou na colectânea A Economia em Machado de Assis (Zahar Editor), conjunto de 39 crónicas publicadas por Machado de Assis entre 1883 e 1900 - para além de dois testamentos. "Da garimpagem e da posterior reunião das crónicas resultou um enredo do qual se destaca a figura do accionista", afirma. Gustavo Franco é um bom orador, mas lê mal (mesmo os próprios textos, como ficou provado na Casa da Cultura de Paraty. E não desfez a curiosidade do público: "Se Machado era progressista ou reaccionário? Não sei. Se era republicano ou anarquista? Também não sei. É um enigma que continua. Machado de Assis é muito difícil de encaixar em quaisquer modelos. Era essencialmente um indivíduo debochado."
Gustavo Franco (à esquerda) entrevistado para a televisão numa das ruas de Paraty.
A fila para entrar na "tenda principal" da FLIP começa logo de manhã.
O último romance de Miguel Sousa Tavares em destaque na livraria da FLIP, ao lado de Moby Dick, de Herman Melville.
Enquanto Neil Gaiman escrevia dedicatórias no jardim da Pousada do Ouro, Pierre Bayard, fato escuro e ritmo lento, passava discretamente pelo corredor. Escritor, professor de literatura francesa e psicanalista, Bayard colocou meio mundo a discutir os livros ao publicar Como Falar dos Livros que não Lemos (editado em Portugal pela Verso da Kapa). A discutir livros, expectativas, leituras e a noção de culpa. "Os livros não são objectos sacralizados e as pessoas não devem sentir vergonha por não conseguirem ler as grandes obras; não devem ficar com a noção de culpa." A tese parece simples: cada um deve procurar os seus livros (assim como tenta encontrar durante a vida as pessoas mais importantes), escolher um "cânone individual". "A divisão entre livros lidos e não lidos é redutora. A base intermédia entre estes dois pólos é enorme. O que significa ter lido um livro? E se o li pela última vez há dez anos e não me lembro de nada?" É no território dos conceitos (e da sua desconstrução) que Bayard trabalha, ele que confessa ter escrito (assim como tantos outros) sobre a Bíblia e o Corão, por exemplo, sem ler por completo estas duas referências religiosas. "É contra esta noção de totalidade que tento lutar." Ou que já citou mal Oscar Wilde porque acreditou num dos livros de Alberto Manguel, autor do clássico Uma História de Leitura (Presença).
Neil Gaiman é a pop star deste ano em Paraty - a par talvez de David Sedaris (mas já lá vamos). O escritor inglês, autor de Sandman (1989) ou Stardust (1998) - editado em Portugal pela Devir e Presença - tem um discurso fácil, aparece bem disposto nos eventos, não se aborrece com as perguntas, dá todo o tempo aos fotógrafos e aos leitores que pedem mais um autógrafo. Resultado? É o mais solicitado na FLIP. Hoje é o seu dia no grande auditório.
O auditório principal da festa de Paraty, do outro lado do rio. Hoje vão passar por lá Pepetela, Neil Gaiman, Alessandro Baricco, Cees Nooteboom ou Fernando Vallejo.

O colombiano Fernando Vallejo, na Flip, criticou hoje a libertação de Ingrid Betancourt: «É um horror que tenham libertado essa mulher horrível! Como se Uribe e toda essa praga de políticos miseráveis não fossem suficientes! E o resto dos sequestrados?»
Eis um homem de letras. Vallejo é especialista em dizer coisas imbecis como «não gosto de García Márquez porque não gosto da escrita na terceira pessoa». Para deixar claro que se trata de mau-feitio, Vallejo acrescentou: «Os membros das Farc não são apenas sequestradores assassinos, são também uns velhacos.» Obrigado, Vallejo, boa viagem para a floresta.
Festa literária, tudo bem. Mas com bossa nova dentro. O Brasil comemora este ano o cinquentenário de um género (chamemos-lhe assim) que revolucionou a música brasileira (primeiro) e o resto do mundo (depois). Carlos Lyra - um dos expoentes da bossa, ao lado de Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Geraldo Vandré, entre outros, autor do recente Eu e a Bossa (editado pela Casa da Palavra) - trazia cinco folhas para ler na mesa "Retrato a Preto e Branco". Não as utilizou. Se bossa nova é (também) improviso, Lyra improvisou. “Vou jogar de improviso aqui.” E jogou, explicando logo o significado da palavra bossa, “uma aptidão, um jeitinho para fazer coisas”.
Foi então um jeitinho para fazer coisa novas de um grupo de jovens cariocas. "O nascimento de um surto cultural; não de um movimento com manifesto e tudo isso. O nosso negócio era ir com menininha para a praia." Carlos Lyra e os amigos não queriam ouvir as músicas habituais da classe média suburbana do Rio de Janeiro. "Cole Porter e Frank Sinatra, isso sim, era a nossa casa. Decidimos fazer nossa música. Compor e buscar a forma, uma melodia bem sofisticada, com letra poética, o ‘discreto charme da burguesia’. Faltava-nos interpretação e chega então João Gilberto, a última célula da bossa nova, uma voz macia, o discreto charme da burguesia.”
“Foi precisamente um surto cultural, um daqueles momentos em que se dá um salto, em que tudo o que está para trás é visto de uma forma diferente. A bossa dá uma nova potência à música popular através da mudança dos instrumentos do reportório”, explicou Lorenzo Mammì, crítico e professor italiano, a viver no Brasil desde 1987. O tango e o samba ficaram-se pelos nichos culturais, mas a bossa obrigou a música internacional a mexer-se. “Frank Sinatra não cantava tango, mas cantava bossa nova. Faz parte do cânone. É coisa nova em todos os sentidos”, concluiu Lorenzo Mammì.
Jornalista sentado no meio da rua, terminando a sua crónica, fumando o primeiro charuto do dia e bebendo a primeira caipirinha. Há pouco.
Paraty é também o cenário para encontros entre editores, autores e agentes. Nicole De Witt e Anja Saile, por exemplo, são duas das agentes literárias que marcaram presença na Flip. Hoje com carreiras separadas, estão unidas pelo passado -- ambas trabalharam na agência de Ray Güde-Mertin, a quem se deve muito do trabalho de divulgação de autores brasileiros e portugueses pelo mundo fora.

À hora do jantar, procurar um restaurante é sempre uma tarefa difícil. Mas há ruas tranquilas que escapam à avalancha de esfomeados: Zeferino Coelho e Ana Maria Magalhães jantavam numa mesa no meio da rua, longe da agitação, no simpático Bartolomeo.

O Che Bar, por exemplo, ficou marcado pela presença (com direito a reserva permanente de mesa) da editora Record. Luciana Villas-Bôas e o grupo da Record (Sérgio França naturalmente, mas também Valéria, Ana Paula, e autores como João Gilberto Noll) lá estavam a iniciar a noite.

Rumores, de resto, conseguiu o quase impossível no final da tarde de ontem: a uma mesa do Bar do Hiltinho, o mais antigo de Paraty, juntou pessoal da Record e da Compahia das Letras. À mesma mesa, dividindo a cerveja. Ana Paula Hisayama, da Companhia, tinha acabado de negociar os direitos de dois autores seus.

No Punto Divino, à noite, não cabia ninguém. Bia (filha do escritor Rubem Fonseca) e Pedro Corrêa do Lago, ex-director da Biblioteca Nacional, e que se prepara para lançar (em exclusivo mundial) uma edição fac-similada das cartas de amor de Fernando Pessoa, aguardavam mesa. Maité Proença, cujo novo livro está nas livrarias, o trompetista Paulo Moura, também esperavam na fila.

Numa esplanada, longe da agitação, no intervalo das mesas & debates, Eduardo Coelho (editor da Língua Geral) e Pepetela (que acaba de lançar Predadores no catálogo da editora), bebiam cerveja e falavam de literatura. Uma crítica absurda no Jornal do Brasil, reproduzindo
o essencial das badanas (no Brasil diz-se «orelhas»), anunciava que o escritor agora tinha decidido não escrever mais sobre Angola; ora, Predadores é Angola, Luanda, Angola, Luanda, da primeira à última página.

Depois da sua mesa, Inês Pedrosa arrasou: esteve quase três horas a dar autógrafos, numa fila interminável. O seu romance, publicado pela Alfaguara, está a ter muito sucesso.

O Globo, que não perde uma, garante: os autores da Língua Geral são os que mais riem. Têm razões para isso. Connie Lopes, directora da Língua Geral, comanda as operações.

Tem feito sucesso, também, a nova tatuagem de José Luís Peixoto, enorme, ocupando todo um braço.

A mesa sobre revistas literárias (com a LER, a Piauí, a Egoísta e a Bravo), com mediação de José Eduardo Agualusa, foi uma das mais concorridas da série Flip Etc. Como os exemplares disponíveis da LER não chegavam para distribuir pelas duas centenas de presentes, foram disparadas revistas sobre a audiência, que as disputou. Verdadeira operação de punk marketing, comentou João Moreira Salles, o director da Piauí, que acaba de estrear o seu documentário Santiago. Foi anunciado que a LER passa a ter distribuição no Brasil através da editora Língua Geral. A partir de Outubro, e com destaque para as várias Livraria da Travessa, do Rio de Janeiro.

As ruas de Paraty são de calçada setecentista, de lajes irregulares. Isso faz a delícia de turistas -- mas é chato, na verdade, para quem tem de percorrê-las para poder assistir aos eventos da Flip, sobretudo à noite. Os portugueses são considerados culpados do facto: «Vocês fizeram Paraty e ficou bonitinha, e tal. Mas a calçada é miserável. Podiam ter dado um jeito...»

O angolano Ondjaki esteve na Flip como visitante, feliz e entusiasmado -- vive agora por períodos mais largos no Rio de Janeiro, para onde se mudou recentemente. Mas anda perseguido pelo azar telefónico: os seus dois primeiros números de telemóvel (o celular...) tiveram que ser substituídos, por avaria. Os amigos dizem que isso se deve ao facto de ser angolano, mas tem de responder a pequenas provocações: «Ondjaki, qual é teu número esta semana?»


O show de Luiz Melodia na primeira noite da Flip foi muito bom. Não há outra designação. Depois de uns sambas clássicos, com interpretação notável, Melodia atacou com uma sequência que fez comover toda a gente na Tenda dos Autores: primeiro, «Estácio, Holy Estácio» («Se alguém quer matar-me de amor/ Que me mate no Estácio/ Bem no compasso, bem junto ao passo/ Do passista da escola de samba/ Do Largo do Estácio// O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço/ Trago não traço, faço não caço/ O amor da morena maldita do Largo do Estácio»), o seu clássico mais do que clássico; depois, «Pérola Negra» («Tente entender tudo mais sobre o sexo/ Peça meu livro querendo eu te empresto/ Se intere da coisa sem haver engano...»). No final, no camarim improvisado num bar da Praça da Matriz, Rumores soube que Luiz Melodia é verdadeiramente apaixonado por Portugal e quer levar este mesmo espectáculo até Lisboa. Vale a pena, sinceramente vale a pena.

Ontem, Sérgio (da Editora Record) estava verdadeiramente preocupado com Portugal; tinha sabido que Zico poderia ser escolhido como treinador da selecção portuguesa de futebol. E avisava, na esplanada do bar Coupé: «Cuidado! Zico é o maior pé-frio do futebol mundial.»

Editores de autores portugueses e brasileiros mantêm uma discreta esperança para estes dias de Paraty. É daqui a dois meses que se conhecerá a lista definitiva dos finalistas ao Prémio Portugal Telecom do Brasil.
Se Paraty fosse uma peça de teatro, Tom Stoppard era seguramente um dos personagens principais. O dramaturgo inglês, nascido há 71 anos na actual República Checa, só tem "mesa" marcada para amanhã, sábado, às 19h, mas encontrou-se com os jornalistas manhã cedo, na Pousada do Ouro. Chega bem disposto, dá um minuto para as fotografias e puxa do cigarro - "só fumo durante as entrevistas" - antes de começar a conversa colectiva. "Bom dia, o que posso fazer por vocês?" Mas logo dá sinais de impaciência quando confrontado com as perguntas banais de sempre, como a mais ouvida "Qual a relação entre teatro e literatura?". Ou então quando lhe pedem opinião sobre a herança do Maio de 1968. "Eu não sou o Papa ou um político para ter opinião sobre tudo." Tom Stoppard gosta de contar histórias - suas e dos outros. "O teatro é uma arte de contar histórias, não é o mesmo que partilhar uma opinião. Até se pode identificar um tema geral, como a guerra no Iraque ou o aquecimento global, os personagens podem falar do tema, mas sem história não existe teatro." O dramaturgo, conhecido do "grande público" pela sua colaboração no filme Shakespeare in Love (1998), marcou tão afincadamente o seu estilo durante décadas que este se tornou adjectivo: "stoppardian" é utilizado para classificar autores e peças que misturam o humor com conceitos filosóficos. "Uma peça de teatro é um animal muito estranho. Não é um texto em si, é um evento. É a transcrição de um evento que ainda não aconteceu."