Se entre Nova Iorque e, imaginemos, Anchorage, perguntássemos aos americanos como se organiza o sistema solar, notaríamos que 25% da população ignora que a Terra gira à volta do Sol. Sherlock Holmes, se se lembram, também não sabia – e considerou o assunto uma completa inutilidade, mas tratava-se de ficção. A The Atlantic revela os pormenores de um estudo sobre conhecimento científico, e preocupa-se com a América; mas olhem que os resultados da União Europeia também são muito, muito preocupantes; apenas 67% dos europeus afirma que a Terra anda à volta do Sol. Já quanto à pergunta sobre se os seres humanos se desenvolvem a partir de outras espécies de seres vivos, a percentagem de americanos que responde «sim» é inferior a 50%: «This seems to indicate that many Americans are familiar with the theories of evolution and the Big Bang; they simply don't believe they're true.»
A jovialidade familiar dos assassinos e o regresso da banalidade do mal: o Le Monde publica algumas das cartas de Heinrich Himmler à sua mulher Marga (datadas de 1929 até ao seu suicídio, em 1945). Himmler foi comandante militar das SS e líder do partido nazi e, finalmente, comandante de toda a administração da máquina do III Reich. Foi o criador dos Einsatzgruppen.
Numa biblioteca que tem feito um notável trabalho na rede de leitura pública, a Câmara Municipal da Nazaré reduz dramaticamente o quadro de pessoal: de 7 funcionários ficam apenas 3.
Extracto de um comunicado recebido há pouco:
«No passado dia 10/02 foi transmitida oralmente a informação da não renovação dos contratos de trabalho a termo certo do Técnico Superior BD e das três (3) Assistentes Técnicas BD a desempenhar funções na Biblioteca Municipal da Nazaré quebrando uma ligação de seis (6) anos com o município da Nazaré, numa 1ª fase (3 anos) integrados no grupo de funcionários afetos à Câmara Municipal e, numa 2ª fase (3 anos) integrados na Empresa Municipal Nazaré Qualifica. Foi comunicado superiormente que, num conjunto de sete (7) elementos da equipa, apenas iriam ficar os 3 (três) trabalhadores do quadro de pessoal da câmara que desempenham atualmente funções na Biblioteca Municipal. A justificação oficial que foi fornecida foi de natureza económica decorrendo de uma política global de redução do número de trabalhadores da Nazaré Qualifica não obstante esta continuar em atividade e tendo sido renovados contratos de trabalhado de funcionários da empresa municipal noutro tipo de funções que não na biblioteca e que tinham o seu términus na mesma altura. Não foi apontado nenhum critério de índole técnico ou profissional mantendo-se a incógnita formal acerca das razões da extinção da equipa técnica da biblioteca e sobre o futuro deste importante equipamento cultural.
A referida equipa técnica, que assumiu funções no dia 01/03/2008 ao abrigo de um concurso público de recrutamento de pessoal para responder às necessidades de recursos humanos qualificados decorrentes do Contrato-Programa celebrado entre o Municipio da Nazaré e a DGLB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), foi alvo de um despedimento coletivo num equipamento cultural inaugurado em 22/11/2008.»
Luiz Ruffato quis dar uso público aos livros que não cabiam no seu apartamento; por isso, organizou uma biblioteca no Esporte Clube Taquara Preta — mas os traficantes de droga acharam que isso iria atrapalhar o seu negócio. Leia, na íntegra, a crónica do autor de Estive em Lisboa e Lembrei-me de Ti:
«Descobri, frustrado, que os livros que havia adquirido ao longo de toda minha vida – estamos falando de fins dos anos 1990 – não caberiam no apartamento para onde estava me mudando em São Paulo, pequeno e mal arejado. Após inúmeras noites sem dormir, percebi que a melhor maneira de me desvencilhar deles, sem perdê-los de vista, seria organizar uma biblioteca na Taquara Preta, bairro operário de Cataguases, onde moravam meus pais.»
Outro pequeno ruído em torno de biografias de escritores: desta vez trata-se de Gabriele D’Annunzio, cuja biografia, The Pike[ver artigo de Fernando Sobral, edição da LER em Janeiro], de Lucy Hughes-Hallett, ganhou o Prémio Samuel Johnson (£20,000). Na altura, em Novembro, o The Independent, num assomo da sua habitual correção política, chamou-lhe «a biografia de um repelente poeta e político italiano», mas The Pike é, na verdade, uma excelente biografia (na última ronda pelo prémio Samuel Johnson bateu a volumosa biografia de Margareth Thatcher, de Charles Moore) e a personalidade complexa, ambígua e certamente pouco simpática do fascista D’Annunzio, poeta assinalável, não esgotará nunca a lista de atividades e vícios deploráveis ou apenas extravagantes: cocainómano, piloto de aviões, amante de armas, hedonista e pecador, sedutor inesgotável, etc. Nos EUA, entretanto, The Pike foi de ser publicado com outro título, Gabriele D'Annunzio: Poet, Seducer, and Preacher of War (Alfred A. Knopf), em simultâneo com duas traduções. Depois de o The New York Times ter anunciado «Fascist Designs», a The New Republic relança o debate entre a literatura, o aventureirismo ideológico e a construção da Itália moderna: «The Writer, Seducer, Aviator, Proto-Fascist, Megalomaniac Prince Who Shaped Modern Italy From Gabriele D'Annunzio to Silvio Berlusconi».
A cena passou-se no festival de Jaipur (como quem vem ali do Paquistão e vira à direita), que se anuncia como o maior festival literário gratuito do mundo. Numa mesa em que participavam Jhumpa Lahiri e Jonathan Franzen, a escritora sino-britânica Xialu Guo insurgiu-se contra o predomínio e expansão de um tipo de literatura inspirado na norte-americana, realista e com ênfase na narrativa, facto que atribui à baixíssima percentagem de traduções no mercado anglo-saxónico (dois por cento do total de livros publicados). Para Guo, este afunilamento – num mercado que é fundamental para o reconhecimento global dos escritores (veja-se os casos de Sebald e Bolaño cujas ondas de popularidade partiram precisamente da celebração das respetivas obras na Inglaterra e nos EUA) – é nocivo porque uniformiza a leitura e condena aos guetos da intelectualidade os autores e as obras que fujam ao padrão-ouro da literatura norte-americana, que a mesma autora considera «sobrevalorizada». Disse-o na cara de Franzen, embora com o cuidado de garantir que adorava os seus livros. A nossa opinião? Bem, em primeiro lugar, Guo jogou pelo seguro num festival que decorre na Índia: criticou os EUA. Em segundo lugar, tem alguma razão no que disse. Em vez de permitir a entrada no circuito de estilos (vamos simplificar) alternativos, o que a globalização trouxe foi a expansão das tendências dominantes, ou seja, a desejada variedade deu lugar a uma crescente homogeneização da literatura. Em vez de muitos produtos diferentes na mesma montra global, temos os mesmos produtos nas diferentes montras locais. Mas não é o fim do mundo. O McDonald’s não acabou com as gastronomias locais. No caso dos livros, podemos afirmar, com algum grau de certeza, que we’ll always have Camilo e rojões à minhota. Bruno Vieira Amaral.
Imaginemos que, em vez de repetirem até à exaustão as indigências habituais pelas televisões, os nossos senadores e dirigentes políticos começavam a atacar os livros que poluem a moral, que põem em causa as nossas tradições e bons costumes, que — para abreviar, enfim — levantam as saias ao pudor ou às benfeitorias da pátria. Ah, isso seria um país culto, finalmente — não amorfo, onde tudo é igual a qualquer outra coisa, sobretudo em se tratando de livros, um objecto estranho. Não basta distribuir A Relíquia por todas as salas de aula do secundário — é preciso que um dirigente político proteste e queira saber quem fez essa coisa tremenda (infelizmente, uma larguíssima percentagem de dirigentes políticos formou-se em Miró e não lê Eça há bastante tempo, apesar de estar na mesa de cabeceira, claro). Esse é o instrumento mais perfeito do marketing livreiro, como prova a reação de Jean-François Copé, presidente do UMP, partido do centro-direita francês, que se declarouchocado com Tous à poil!, um livro ilustrado onde os personagens se vão despindo sucessivamente até mergulharem nas ondas de um mar estival. O livro, publicado em 2011 pelas Éditions du Rouergue, estava parado nos armazéns — mas em poucos dias atingiu o pódio nas vendas da Amazon.fr em 2014. Jean-François Copé, depois de dizer que a simples visão das imagens lhe paralisou o sistema sanguíneo, resumiu assim o livro: «Em pêlo o bebé, em pêlo a baby-sitter, em pêlo os vizinhos, em pêlo a mamã, em pêlo o cão... em pêlo a professora...» A imprensa, de esquerda e de direita, festejou o livro e o Le Figaro (que considerada os desenhos «muito realistas, mas muito infantis: explícitos mas sem maldade», resumiu bem o assunto: «Tous à poil! n.°4 nas vendas da Amazon: Obrigado Sr. Copé!»
Que pena que em Portugal os políticos não ataquem (e violentamente) os livros de que não gostam ou que acham impróprios e, em vez disso, o assunto lhes seja completamente indiferente. Que mimo poderia ser: «António José Seguro acha lamentável que Afonso Cruz use e abuse da cerveja nos seus livros.» «Passos Coelho acha o novo livro de Mário Cláudio o cúmulo da pouca-vergonha.» Não poderiam eles prestar esse grande serviço aos nossos autores? Basta uma palavrinha. F.J.V.
Adenda: O livro Tous à poil!, faz parte do conjunto de leituras aconselhadas em França por uma associação de promoção da leitura e as Éditions du Rouergue é uma editora prestigiada no domínio infanto-juvenil. Em 2011, recebeu o prémio Libbylit de Meilleur Álbum para Crianças.
«A indústria do livro vê-se a si mesma como uma Procter & Gamble. Quem é que deu aos editores a ideia de que isto é um grande e fabuloso negócio? Não é — é um negócio pequeno, delicado, para vender coisas a um bando de pessoas estranhas que leem.»
Júlio Cortázar (1914-1984) inventou boa parte dos nossos sonhos, mesmo que não saibamos quem foi este argentino e que livros escreveu. Michelangelo Antonioni revelou um deles no cinema, com Blow-Up. História de um Fotógrafo (que adapta um conto seu e usa este belo quarteto: David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles e Jane Birkin). Mas a maior parte deles vem em livros como Rayuela. O Jogo do Mundo (um romance fundamental, para ler como um labirinto interminável), Todos os Fogos o Fogo, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Histórias de Cronópios e de Famas ou o breve Prosa do Observatório: de seres imaginários a mundos construídos do avesso, de histórias de amor até textos que denunciam os absurdos do seu tempo, recriando vampiros e reinventando a língua da literatura. Morreu exatamente há trinta anos, em Paris, num dia de neve. Mas nunca parou de escrever. F.J.V.
As referências são muitas, mas aqui ficam as principais: o dia em que Kurt Cobain conheceu Wiiliam S. Burroughs (que já tinha passado pela sua fase Iggy Pop ou Patti Smith)ou de como um cigarro de haxixe acabou por mudar a literatura, o grunge e talvez a canção «Smells Like Teen Spirit». Tudo no livro de Servando Rocha, Nada es Verdad, Todo está Permitido. Também aqui.
Mein Kampf, o livrinho escrito há quase cem anos por aquela então jovem esperança do nazismo, Adolph Hitler, tornou-se um sucesso na sua versão digital. Parece que os leitores se sentem mais à vontade a beber clandestinamente a sapiência do Führer. Desta forma, os restantes passageiros do metro poderão estranhar o esgar maquiavélico daquele sujeito mas, não sabendo que está a ler o livro de Hitler, não se atreverão a pôr em causa as suas credenciais humanistas. Este é apenas o exemplo mais recente de uma tendência que terá atingido o pico com As Cinquenta Sombras de Grey. Aproveitando a privacidade dos e-readers, os leitores, resguardados dos olhares recriminadores dos outros, consomem a porcaria que lhes apetece. O que não é completamente mau. Pelo menos têm vergonha, o que é um primeiro passo para a reabilitação. Bruno Vieira Amaral.
Haruki Murakami escreveu um conto para a revista Bungei Shunju, mas os habitantes de Nakatonbetsu (região de Esashi, Hokkaido) não gostaram da forma como a cidade apareceu retratada e protestaram com algum ruído. Murakami pediu desculpa e promete escolher um nome diferente quando o texto aparecer em livro. NoJapan Times. E no LA Times.
«Amazon is a global superstore, like Walmart. It’s also a hardware manufacturer, like Apple, and a utility, like Con Edison, and a video distributor, like Netflix, and a book publisher, like Random House, and a production studio, like Paramount, and a literary magazine, like The Paris Review, and a grocery deliverer, like FreshDirect, and someday it might be a package service, like U.P.S. Its founder and chief executive, Jeff Bezos, also owns a major newspaper, the WashingtonPost.»
«The democratization of distribution has perversely inverted that classic Rolling Stones maxim: In the Amazonian future, the people get what they want, but not, maybe, what they need.»
«Era uma obrigação minha ser tão claro quanto possível. Embora o meu talento para ser claro seja manifestamente limitado.» (Pág. 251)
«O sucesso político de um Programa de Ajustamento depende da capacidade dos governos nacionaios assegurarem a provisão dos bens sociais que os seus cidadãos consideram fundamentais.»
«Percebo o que diz, mas está tudo errado. Não é uma questão de estar mais ou menos certa, está totalmente errada.»
«R: Não vou fazer comentários sobre o que poderão ter sido as motivações ou os processos mentais do doutor Paulo Portas. Não tenho nenhuma competência na matéria.
P: Falo de política.
R: Não! Fala de pessoas! […] Em Portugal existe um grande desconhecimento sobre a forma como funcionam as coligações políticas.
P: Ah, bom?
[…]
R: Não preciso, não quero e não vou comentar isso.