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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Coisas realmente importantes: a Terra anda à volta que quê?

 

 

 

Se entre Nova Iorque e, imaginemos, Anchorage, perguntássemos aos americanos como se organiza o sistema solar, notaríamos que 25% da população ignora que a Terra gira à volta do Sol. Sherlock Holmes, se se lembram, também não sabia – e considerou o assunto uma completa inutilidade, mas tratava-se de ficção. A The Atlantic revela os pormenores de um estudo sobre conhecimento científico, e preocupa-se com a América; mas olhem que os resultados da União Europeia também são muito, muito preocupantes; apenas 67% dos europeus afirma que a Terra anda à volta do Sol. Já quanto à pergunta sobre se os seres humanos se desenvolvem a partir de outras espécies de seres vivos, a percentagem de americanos que responde «sim» é inferior a 50%: «This seems to indicate that many Americans are familiar with the theories of evolution and the Big Bang; they simply don't believe they're true.»

As bibliotecas abatem-se devagar — ou não.

Numa biblioteca que tem feito um notável trabalho na rede de leitura pública, a Câmara Municipal da Nazaré reduz dramaticamente o quadro de pessoal: de 7 funcionários ficam apenas 3.

Extracto de um comunicado recebido há pouco:

«No passado dia 10/02 foi transmitida oralmente a informação da não renovação dos contratos de trabalho a termo certo do Técnico Superior BD e das três (3) Assistentes Técnicas BD a desempenhar funções na Biblioteca Municipal da Nazaré quebrando uma ligação de seis (6) anos com o município da Nazaré, numa 1ª fase (3 anos) integrados no grupo de funcionários afetos à Câmara Municipal e, numa 2ª fase (3 anos) integrados na Empresa Municipal Nazaré Qualifica. Foi comunicado superiormente que, num conjunto de sete (7) elementos da equipa, apenas iriam ficar os 3 (três) trabalhadores do quadro de pessoal da câmara que desempenham atualmente funções na Biblioteca Municipal. A justificação oficial que foi fornecida foi de natureza económica decorrendo de uma política global de redução do número de trabalhadores da Nazaré Qualifica não obstante esta continuar em atividade e tendo sido renovados contratos de trabalhado de funcionários da empresa municipal noutro tipo de funções que não na biblioteca e que tinham o seu términus na mesma altura. Não foi apontado nenhum critério de índole técnico ou profissional mantendo-se a incógnita formal acerca das razões da extinção da equipa técnica da biblioteca e sobre o futuro deste importante equipamento cultural.

A referida equipa técnica, que assumiu funções no dia 01/03/2008 ao abrigo de um concurso público de recrutamento de pessoal para responder às necessidades de recursos humanos qualificados decorrentes do Contrato-Programa celebrado entre o Municipio da Nazaré e a DGLB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), foi alvo de um despedimento coletivo num equipamento cultural inaugurado em 22/11/2008.»

Luiz Ruffatto organizou uma biblioteca no Esporte Clube Taquara Preta

Luiz Ruffato quis dar uso público aos livros que não cabiam no seu apartamento; por isso, organizou uma biblioteca no Esporte Clube Taquara Preta — mas os traficantes de droga acharam que isso iria atrapalhar o seu negócio. Leia, na íntegra, a crónica do autor de Estive em Lisboa e Lembrei-me de Ti:

«Descobri, frustrado, que os livros que havia adquirido ao longo de toda minha vida – estamos falando de fins dos anos 1990 – não caberiam no apartamento para onde estava me mudando em São Paulo, pequeno e mal arejado. Após inúmeras noites sem dormir, percebi que a melhor maneira de me desvencilhar deles, sem perdê-los de vista, seria organizar uma biblioteca na Taquara Preta, bairro operário de Cataguases, onde moravam meus pais.»

Gabriele d’Annunzio, megalomaníaco, proto-fascista, aviador, poeta notável e sem perdão

D’Annunzio e Mussolini

 

Outro pequeno ruído em torno de biografias de escritores: desta vez trata-se de Gabriele D’Annunzio, cuja biografia, The Pike [ver artigo de Fernando Sobral, edição da LER em Janeiro], de Lucy Hughes-Hallett, ganhou o Prémio Samuel Johnson (£20,000). Na altura, em Novembro, o The Independent, num assomo da sua habitual correção política, chamou-lhe «a biografia de um repelente poeta e político italiano», mas The Pike é, na verdade, uma excelente biografia (na última ronda pelo prémio Samuel Johnson bateu a volumosa biografia de Margareth Thatcher, de Charles Moore) e a personalidade complexa, ambígua e certamente pouco simpática do fascista D’Annunzio, poeta assinalável, não esgotará nunca a lista de atividades e vícios deploráveis ou apenas extravagantes: cocainómano, piloto de aviões, amante de armas, hedonista e pecador, sedutor inesgotável, etc. Nos EUA, entretanto, The Pike foi de ser publicado com outro títuloGabriele D'Annunzio: Poet, Seducer, and Preacher of War (Alfred A. Knopf), em simultâneo com duas traduções. Depois de o The New York Times ter anunciado «Fascist Designs», a The New Republic relança o debate entre a literatura, o aventureirismo ideológico e a construção da Itália moderna: «The Writer, Seducer, Aviator, Proto-Fascist, Megalomaniac Prince Who Shaped Modern Italy From Gabriele D'Annunzio to Silvio Berlusconi».

A crítica de Xialu: we’ll always have Camilo Castelo Branco

A cena passou-se no festival de Jaipur (como quem vem ali do Paquistão e vira à direita), que se anuncia como o maior festival literário gratuito do mundo. Numa mesa em que participa­vam Jhumpa Lahiri e Jonathan Fran­zen, a ­escritora sino-britânica Xialu Guo insurgiu-se contra o predomínio e expansão de um tipo de literatura inspirado na norte-americana, realista e com ênfase na narrativa, facto que atribui à baixíssima percentagem de traduções no mercado anglo-saxónico (dois por cento do total de livros publicados). Para Guo, este afunilamento – num mercado que é funda­mental para o reconhecimento global dos escritores (veja-se os casos de Sebald e Bolaño cujas ondas de popularidade partiram precisamente da celebração das res­petivas obras na Inglaterra e nos EUA) – é nocivo porque uniformiza a leitura e condena aos guetos da intelectualidade os autores e as obras que fujam ao padrão-ouro da literatura norte-americana, que a mesma autora considera «sobrevalorizada». Disse-o na cara de Franzen, embora com o cuidado de garantir que adorava os seus livros. A nossa opinião? Bem, em primeiro lugar, Guo jogou pelo seguro num festival que decorre na Índia: cri­ticou os EUA. Em segundo lugar, tem ­alguma razão no que disse. Em vez de permitir a entrada no circuito de estilos (vamos simplificar) alternativos, o que a globalização trou­xe foi a expansão das tendências dominan­tes, ou seja, a desejada variedade deu lugar a uma crescente homogeneização da literatura. Em vez de muitos produtos diferentes na mesma montra global, temos os mesmos produtos nas diferentes montras locais. Mas não é o fim do mundo. O McDonald’s não acabou com as gastronomias locais. No caso dos livros, podemos afirmar, com algum grau de certeza, que we’ll always have Camilo e rojões à minhota. Bruno Vieira Amaral.

Passos Coelho acha este livro o cúmulo da pouca-vergonha

Imaginemos que, em vez de repetirem até à exaustão as indigências habituais pelas televisões, os nossos senadores e dirigentes políticos começavam a atacar os livros que poluem a moral, que põem em causa as nossas tradições e bons costumes, que — para abreviar, enfim — levantam as saias ao pudor ou às benfeitorias da pátria. Ah, isso seria um país culto, finalmente — não amorfo, onde tudo é igual a qualquer outra coisa, sobretudo em se tratando de livros, um objecto estranho. Não basta distribuir A Relíquia por todas as salas de aula do secundário — é preciso que um dirigente político proteste e queira saber quem fez essa coisa tremenda (infelizmente, uma larguíssima percentagem de dirigentes políticos formou-se em Miró e não lê Eça há bastante tempo, apesar de estar na mesa de cabeceira, claro).  Esse é o instrumento mais perfeito do marketing livreiro, como prova a reação de Jean-François Copé, presidente do UMP, partido do centro-direita francês, que se declarou chocado com Tous à poil!, um livro ilustrado onde os personagens se vão despindo sucessivamente até mergulharem nas ondas de um mar estival. O livro, publicado em 2011 pelas Éditions du Rouergue, estava parado nos armazéns — mas em poucos dias atingiu o pódio nas vendas da Amazon.fr em 2014. Jean-François Copé, depois de dizer que a simples visão das imagens lhe paralisou o sistema sanguíneo, resumiu assim o livro: «Em pêlo o bebé, em pêlo a baby-sitter, em pêlo os vizinhos, em pêlo a mamã, em pêlo o cão... em pêlo a professora...» A imprensa, de esquerda e de direita, festejou o livro e o Le Figaro (que considerada os desenhos «muito realistas, mas muito infantis: explícitos mas sem maldade», resumiu bem o assunto: «Tous à poil! n.°4 nas vendas da Amazon: Obrigado Sr. Copé!» 

Que pena que em Portugal os políticos não ataquem (e violentamente) os livros de que não gostam ou que acham impróprios e, em vez disso, o assunto lhes seja completamente indiferente. Que mimo poderia ser: «António José Seguro acha lamentável que Afonso Cruz use e abuse da cerveja nos seus livros.» «Passos Coelho acha o novo livro de Mário Cláudio o cúmulo da pouca-vergonha.» Não poderiam eles prestar esse grande serviço aos nossos autores? Basta uma palavrinha. F.J.V.

 

Adenda: O livro Tous à poil!, faz parte do conjunto de leituras aconselhadas em França por uma associação de promoção da leitura e as Éditions du Rouergue é uma editora prestigiada no domínio infanto-juvenil. Em 2011, recebeu o prémio Libbylit de Meilleur Álbum para Crianças.

Conheça, aqui, 30 livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura em Portugal.

 

Este post foi atualizado às 20:48 para introduzir as informações complementares do último parágrafo e o link para obras recomendadas pelo PNL. 

Cortázar: trinta anos depois de um dia de neve

Júlio Cortázar (1914-1984) inventou boa parte dos nossos sonhos, mesmo que não saibamos quem foi este argentino e que livros escreveu. Michelangelo Antonioni revelou um deles no cinema, com Blow-Up. História de um Fotógrafo (que adapta um conto seu e usa este belo quarteto: David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles e Jane Birkin). Mas a maior parte deles vem em livros como Rayuela. O Jogo do Mundo (um romance fundamental, para ler como um labirinto interminável), Todos os Fogos o Fogo, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Histórias de Cronópios e de Famas ou o breve Prosa do Observatório: de seres imaginários a mundos construídos do avesso, de histórias de amor até textos que denunciam os absurdos do seu tempo, recriando vampiros e reinventando a língua da literatura. Morreu exatamente há trinta anos, em Paris, num dia de neve. Mas nunca parou de escrever. F.J.V.

100 anos de Burroughs: mais notas avulsas

As referências são muitas, mas aqui ficam as principais: o dia em que Kurt Cobain conheceu Wiiliam S. Burroughs (que já tinha passado pela sua fase Iggy Pop ou Patti Smith) ou de como um cigarro de haxixe acabou por mudar a literatura, o grunge e talvez a canção «Smells Like Teen Spirit». Tudo no livro de Servando Rocha, Nada es Verdad, Todo está Permitido. Também aqui.

A privacidade dos e-readers

Mein Kampf, o livrinho escrito há quase cem anos por aquela então jovem esperança do nazismo, Adolph Hitler, tornou-se um sucesso na sua versão digital. Parece que os leitores se sentem mais à vontade a beber clandestinamente a sapiência do Führer. Desta forma, os res­tantes passageiros do metro poderão estranhar o esgar maquiavélico ­daquele sujeito mas, não sabendo que está a ler o livro de Hitler, não se atreverão a pôr em causa as suas credenciais humanistas. Este é apenas o exemplo mais recente de uma tendência que terá atingido o pico com As Cinquenta Sombras de Grey. Apro­veitando a privacidade dos e-readers, os leitores, resguardados dos olhares recriminadores dos outros, consomem a porcaria que lhes apetece. O que não é completamente mau. Pelo menos têm vergonha, o que é um primeiro passo para a reabilitação. Bruno Vieira Amaral.

Toda a gente culpa a Amazon pela “morte da cultura”. Vejamos o consumidor, esse traste.

É um debate a seguir e a manter. Na New Yorker, faz-se a pergunta da ordem: «A Amazon é boa para os consumidores. Mas será boa para os livros?» Um extracto para abrir:

«Amazon is a global superstore, like Walmart. It’s also a hardware manufacturer, like Apple, and a utility, like Con Edison, and a video distributor, like Netflix, and a book publisher, like Random House, and a production studio, like Paramount, and a literary magazine, like The Paris Review, and a grocery deliverer, like FreshDirect, and someday it might be a package service, like U.P.S. Its founder and chief executive, Jeff Bezos, also owns a major newspaper, the Washington Post.»

Na Salon, Andrew Leonard responde e mantém dúvidas

«The democratization of distribution has perversely inverted that classic Rolling Stones maxim: In the Amazonian future, the people get what they want, but not, maybe, what they need.»

 

Ver, também, esta inside story no Los Angeles Times.

Frases para reter: Vítor Gaspar

«Era uma obrigação minha ser tão claro quanto possível. Embora o meu talento para ser claro seja manifestamente limitado.» (Pág. 251)

 

«O sucesso político de um Programa de Ajustamento depende da capacidade dos governos nacionaios assegurarem a provisão dos bens sociais que os seus cidadãos consideram fundamentais.»

 

«Percebo o que diz, mas está tudo errado. Não é uma questão de estar mais ou menos certa, está totalmente errada.»

 

«R: Não vou fazer comentários sobre o que poderão ter sido as motivações ou os processos mentais do doutor Paulo Portas. Não tenho nenhuma competência na matéria.

P: Falo de política.

R: Não! Fala de pessoas! […] Em Portugal existe um grande desconhecimento sobre a forma como funcionam as coligações políticas.

P: Ah, bom?

[…]

R: Não preciso, não quero e não vou comentar isso.

P: Ah!»