"A grande mestiçagem é um mito"
A festa deste ano confirmou-o: Pepetela é um dos escritores de língua portuguesa mais acarinhados pelos leitores brasileiros. Mesmo dividindo a sessão - dedicada ao tema "Guerra e Paz" - com a jovem escritora nigeriana Chimamanda Ngozi, uma das grandes revelações da FLIP, foi o autor de Predadores (editado agora no Brasil pela Língua Geral) que mais aplausos recebeu - era vê-lo, sereno e feliz, a dar dezenas de autógrafos e a ser abordado nas ruas de Paraty. Pepetela falou da guerra de cinco séculos em Angola ("ela não começou em 1961"), do medo, da radicalização da personalidade dos soldados, de como "cada homem é uma situação limite" em combate. "Nós, os angolanos, fatalmente somos guerreiros e resolvemos os problemas pela via da violência. A História fez-nos assim. Talvez com o conhecimento da História as pessoas dêem mais valor à paz." O autor de O Quase Fim do Mundo (2008, Dom Quixote) apontou ainda o problema da nova geração de escritores angolanos ("têm boas ideias, mas poucos sabem escrever") e a falta de divulgação literária no seu continente. "Os autores africanos só se conhecem quando saem de África." A última pergunta da assistência justificou uma resposta pronta: "O melhor momento de unidade nacional aconteceu logo a seguir à independência. Não me parecia que o problema da cor da pele se pudesse agravar, mas agravou-se. A grande mestiçagem é um mito."
Pepetela durante um almoço com a LER.