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O Novo Paradigma, por Eduardo Pitta

Não é coisa de somenos tentar intuir o que seria a literatura portuguesa com Jorge de Sena e Ruy Belo sobrevivendo duas ou três décadas à deadline de 78. Imaginar como entre si dialogariam, e cada um com hipotéticos interlocutores: Vasco Graça Moura e Joaquim Manuel Magalhães face a Sena (indignação, inscrição, culturalismo), António Osório e João Miguel Fernandes Jorge face a Ruy Belo («esgotamento dos imperativos do modernismo», para usar a síntese de Osvaldo Manuel Silvestre), Alberto Pimenta, António Franco Alexandre, Al Berto e Nuno Júdice, vozes inorgânicas que estabelecem a linha de fronteira entre o antes e o depois, ou seja, entre Fernando Assis Pacheco e Fiama Hasse Pais Brandão, por um lado, Helder Moura Pereira e Adília Lopes, por outro.
Atento a tudo o que mexia, Sena largamente escreveu sobre este mundo e o outro: os cancioneiros, Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, romantismo, modernismo, presencismo, neo-realismo, surrealismo (o famoso choque com Cesariny), literaturas estrangeiras, com especial enfoque na brasileira e na inglesa, etc., dando particular atenção a Camões, Almeida Garrett, Antero de Quental, Gomes Leal, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Florbela Espanca, Vitorino Nemésio, António Gedeão, Ruy Cinatti, Tomaz Kim, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, etc., sem esquecer Manuel Teixeira Gomes, José Rodrigues Miguéis e mais uns quantos. Convém acrescentar a Terceira Série de Líricas Portuguesas (1958), antologia que, contando com a edição aumentada de 1972, junta 73 poetas nascidos entre 1871 e 1929, fechando com Ana Hatherly. (Somados, os respectivos verbetes fazem um exaustivo tour d’horizon da poesia portuguesa de Novecentos.) A cronologia é cristalina.
E do lado de Ruy Belo? Desobrigado de tineta académica, o autor de Na Senda da Poesia (1969) usou de parcimónia. Escreveu sobre Sena, a pretexto dos sonetos de Camões, e também sobre poesia italiana, Fernão Lopes, Manuel Bandeira, José Régio, António Gedeão, Adolfo Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Sebastião da Gama, Herberto Helder, Nuno Guimarães e, em 1971, sobre João Miguel Fernandes Jorge: «Há mais de um ano que trabalho neste prefácio. Consegui ultrapassar o período de tempo que decorre entre o começo e o final dessa obra-prima que é Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil.» Ao contrário de Sena, Ruy Belo não era historiador da literatura nem sequer crítico com tribuna.
Em 1978 muda tudo. Morrem Sena e Ruy Belo, Carlos de Oliveira publica Finisterra, e Eduardo Lourenço inicia com O Labirinto da Saudade a psicanálise mítica do nosso destino.
Ao tempo, o génio de Agustina Bessa-Luís embaraçava o milieu, porque A Sibila (1953) fora elogiada por Régio e a trilogia da revolução — As Pessoas Felizes (1975), Crónica do Cruzado Osb. (1976), As Fúrias (1977) — provocava azia no PREC. A canonização começou com Fanny Owen (1979) e o filme de Oliveira.
A maioria das pessoas não se lembra, mas o primeiro romance de Saramago é de 1947, e o segundo, Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977. Nesse intervalo de 30 anos escreveu versos e crónicas. O aval do establishment chegaria em 1980, ano em que publicou Levantado do Chão. Em 1998, no exílio espanhol, et pour cause, o Nobel.
António Lobo Antunes apareceu em 1979, dois livros de uma assentada, primeiro Memória de Elefante, logo a seguir Os Cus de Judas, mudando mais fundo do que era verificável à época.
É fácil verificar que o mundo de Sena e Ruy Belo, como representado em 1978, sofreu uma guinada. Esse mundo, dominado por Torga, José Gomes Ferreira, João Gaspar Simões, Vergílio Ferreira, Óscar Lopes, Fernando Namora, Sophia, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Cesariny, Natália Correia, Alexandre O’Neill, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Herberto Helder, Maria Velho da Costa, Fiama, Almeida Faria, etc., esse mundo, dizia eu, mudou.
Teria mudado da mesma forma caso Sena e Ruy Belo tivessem sobrevivido mais uns anos?

 

Crónica publicada na edição de Dezembro (nº 75) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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