José Maria da Costa e Silva (Almarjão)
Bela evocação de Maria Filomena Mónica sobre um livreiro e um grande amante de livros, domingo, no Público:
«Nada - a colecção de livros, o ambiente acolhedor, o caótico armazém - existia sem ele. Discreto, não se gabava dos clientes que tinha, mas fui-me apercebendo que havia gente famosa que a ele recorria e que conhecia muitos dos grandes alfarrabistas europeus. Um dia, foi visitar-me a Oxford, com a mulher, a Margarida. Ao contrário dele, esta era extrovertida, o que facilitou o contacto. Passeámos pelos jardins dos colégios, até que, em Broad Street, me contou histórias dos tempos em que se dera com um dos alfarrabistas que, nessa rua, fundara a loja que fornecia os livros para a colecção do rei D. Manuel II.
Apesar de há muitos meses ter deixado de ir à sua livraria, ainda hoje - um Sábado - me levantei a pensar que me faltava qualquer coisa para preencher o dia. Não sei se José Maria recordou as palavras do seu antepassado no leito de morte - "Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste" - mas fiquei contente ao ter conhecimento de que morrera serenamente. Nunca esquecerei aquelas manhãs, como nunca o esquecerei.»