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Um poema de António Franco Alexandre

aqui estou eu entre demónios e paredes lisas

solicitando certificados bulas para viver melhor à sexta-feira
vale-me não ser ninguém: faziam-me a vida negra
assim basta o cinzento fato completo silencioso com lugar para os olhos
levantar cedo ver passar os carros 
estar certo que o que digo já foi dito e selado
agora não me resta poesia alguns dias mais oscilando a cabeça 
fazendo que sim
 
dá vontade de fugir vomitando tudo em volta mas o preço é preciso
se ao menos inventasse a cura do ar podia secar tranquilamente 
agora espero pelo meio do escuro para gritar errei! errei! desmanchando o 
                                                                                                [cabelo
nada disto é a minha vida!
para que ninguém ouça nas coloridas salas do inferno terceira repartição
onde somos, mas todos, contínuos de comer por fora 
Melhor seria ter ficado de lado entregue à simplicidade dos caminhos
sabendo que em nenhum lugar está a minha parte 
 
Ao atravessar as ruas há outros como eu 
a jeito para enfiar uma navalha ao fim da tarde
Aqueles para quem o mundo ia ser outro de mãos lavadas 
e ficou tudo igual com mais ausentes à mistura 
Um dia destes dou baixa dos infernos por motivo de cegueira interna 
ou mando-me de um sítio alto
depois não sei se voltarei feito demónio de província 
ou ficarei eterno como um exemplo a não seguir 
 
António Franco Alexandre, in Poesia, ed. Assírio & Alvim