Hilary Mantel sobre o bloqueio do escritor: «Em caso de bloqueio, o melhor é ficar longe da mesa de trabalho. Dar uma caminhada, tomar um banho, dormir, cozinhar, desenhar, ouvir música, meditar, exercício; faça o que fizer, não se limitar a fazer uma cara feia.» É como dizes.
O novo livro de Mário de Carvalho trata de literatura — e, mais do que isso, dos mistérios da composição literária, mas, geralmente, vistos do avesso. Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão. Guia Prático de Escrita de Ficção (Porto Editora) está a chegar às livrarias.
«Fervilham por aí uns livros ditos de auto-ajuda que pretendem ensinar os novos autores a escrever. Instalou-se uma movimentada indústria conselheiral, popular e cansativa. De uma forma geral, esses livros são inofensivos. Mas não poucos abusam da benevolência e boa-fé dos principiantes. Assertivos, peremptórios, simplificadores, seguem os princípios da linguagem publicitária. É próprio de quem pretende ganhar dinheiro à custa do desembolso dos outros. Muitas vezes começam pelo auto-elogio. Fiz e aconteci, vendi tantos e tantos exemplares, estive em tal ou tal sítio, fui elogiado por A e por B, conferenciei no Gabão, etc… Música celestial. Vai-se ver e a obra produzida é mole, clandestina e insignificante. O alarido autopromocional é sinal quase certo do palco trampolineiro. Os elogios na epígrafe ou na contracapa lembram os testemunhos dos doentes curados acerca do elixir milagroso.
Pretende-se dar a impressão de que todos estes temas e procedimentos são simples e redutíveis a definições, chavetas e listas. No entanto, o leitor facilmente se aperceberá, se não lhe interessar a banha reptilária, que a maioria das matérias de que vamos ocupar-nos dava, em si, para um livro. Algumas, até, para bibliotecas. No meu caso, aposto que depois deste volume impresso me hão-de ocorrer mais coisas. Faltar-me-á aprender muito mais do que nele se contém.
Não que inexistam milagres. Há-os. Mas deles não trata a modéstia deste livro. Não que não haja génios. Abundam os génios. Mas esta obrazita também não compromete os génios. Visa apenas uma prática mais informada da escrita por escritores a quem ainda não foi diagnosticada a genialidade. Aqueles para quem, lembrando um verso de Petrarca que Camões gostava de citar, «entre a mão e a espiga existe o muro». Também, não se podendo evitar a terceira-pessoa-do-singular-do-presente-do-indicativo-do-verbo-ser, nem algumas asserções, nem alguns superlativos (ou o contrário), fica aqui desde já declarado que todas as afirmações são para tomar cum grano salis (com um grãozinho de sal). Com uma porção de antídoto. Pratique-se a dúvida sistemática. Se o exercício da dúvida produz maus anúncios, pode, em contrapartida, gerar melhores escritores.
O acaso, por seu lado, costuma intrometer-se a baralhar uma situação em que milagres e genialidades já causaram os seus problemas. Mas se o acaso intervém na História das Civilizações porque não há-de fazer das suas na vida dos indivíduos? «Ele tem sorte?», perguntou Napoleão quando lhe sugeriram a promoção de certo militar a general. Nesse particular, nada se pode acrescentar, a não ser repetindo que a fortuna (um pseudónimo do acaso) ganha em ser ajudada. E até agradece.
Convém desfazer um equívoco logo à partida, e duma vez por todas. Quando falo em «escritor», refiro-me aos ficcionistas, com vénia aos dramaturgos e aos poetas. Ponto. A razão da advertência é que, no mundo de língua inglesa, writer designa quem quer que tenha como ocupação o escrever (não digo «a escrita» para não misturar no caso os contabilistas). Vale para a publicidade, guionismos vários, didascálias de banda desenhada, receitas de cozinha, bricolage, legendas de fotografias, ou aconselhamento psicológico. Por isso ficamos perplexos quando, ao lado, por exemplo, dos mandamentos de Henry Miller nos aparecem os palpites dos gurus da publicidade. Naquele universo cultural são todos «escritores». Escusaria de fazer esta precisão se não tivesse verificado que, ao toque duma pressão cultural suserana, algumas pessoas com voz pública dão mostras de traduzir à letra do inglês.
Se isto é assim com o inglês (já aconteceu, em tempos, doentiamente, com o francês), tremo do que acontecerá quando os modelos inspiradores começarem a exprimir-se em mandarim.
Já agora, com a mão na massa, convém lembrar que o uso de expressões latinas, como outras de línguas alheias – inevitáveis –, não pretende ser exibição de sabença. Aliás, manda um velho preceito de origem aristocrática que, em se sabendo latim, é de bom-tom não o exibir. Por maioria de razão, quando não se sabe, que é o meu caso.
Quando escrevemos in medias res ou quod erat demonstrandum ou ad lib repetimos tão-somente fórmulas reiteradas e consabidas, de uso universal, que atalham problemas e poupam algumas prolixidades.
Ainda a propósito das receitas criativas, lembro a resposta que teria dado Alexandre Dumas, filho (A Dama das Camélias), quando lhe perguntaram o melhor método de escrever uma peça de teatro: «Não tem dificuldade», respondeu o dramaturgo. «Compre um caderno, forre-o muito bem e na primeira linha escreva 1.º Acto. Quando chegar ao fim do caderno, a peça está pronta.»
Eu vou ser mais generoso na demonstração, embora, se calhar, menos imaginativo na fórmula e menos competente na escrita. Mas uma coisa posso garantir. Pensar que se fica apto a escrever depois de ler um compêndio de escrita criativa é a mesma coisa que julgar que se passa a dominar uma língua após ter comprado um dicionário.»