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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Camacho para a Esfera

Francisco Camacho é o novo Director Editorial da Esfera dos Livros, substituindo Sofia Monteiro. O novo responsável era até agora editor da Oficina do Livro, do Grupo Leya, onde se encontrava desde 2010 e onde desenvolveu um catálogo constituído essencialmente por obras de não-ficção. Francisco Camacho passou por várias publicações ao longo das duas últimas décadas. Foi redator e editor do semanário O Independente, diretor-adjunto da revista Grande Reportagem, diretor das revistas Volta ao Mundo e Notícias Sábado, editor-executivo da Sábado e, antes entrar no mundo da edição de livros, foi fundador e diretor-adjunto do jornal i. Francisco Camacho, filho da escritora Helena Marques e do jornalista Rui Camacho (falecido em agosto passado), irmão dos jornalistas Paulo Camacho (atualmente no grupo PT) e Pedro Camacho (diretor da Visão) inicia funções a 3 de novembro próximo. 

Como autor, Francisco Camacho, de 45 anos, publicou os romances Niassa (Asa, 2007,  prémio PEN Clube Português na categoria Primeira Obra), e A Última Canção da Noite (Dom Quixote, 2013).

 

ENSAIO || PORNOGRAFIA: Adeus Princesa

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Texto de Valério Romão

Ilustrações de Pedro Vieira

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A pornografia não é bonita, não é bondosa. Haverá quem precise dela e quem nela se sinta como gato ao sol porque esta lhe permite exprimir sem reservas um potencial de desejo que, de outro modo, dificilmente poderia revelar no decurso de uma relação, ou mesmo de muitas. De resto, a indústria pornográfica enfrenta hoje um problema comparável ao que aflige os produtores de conteúdos televisivos: a experiência de choque a que temos vindo a ser submetidos exige, para provocar um efeito equivalente, um acréscimo de potência num ou mais dos elementos que a compõem. Ou seja, as Ginas e as Week-end-Sex dificilmente provocam, hoje em dia, mais do que uma estranheza retrospectiva: alguém conseguia «armar a tenda» com isto? Valério Romão sobre o mundo em recomposição da pornografia – e dos seus efeitos e defeitos.

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MAGISTÉRIO PRIMÁRIO.

Lembro-me da primeira vez que vi um filme pornográfico, estávamos nas férias de natal e naquele ano calhava-nos passar a consoada com as minhas irmãs, eu, o meu pai e a minha mãe, em casa de uma delas. Era a altura em que falar de picha ou de cona ou da constelação aparentemente infinita das equivalências e das declinações possíveis provocava em cada um de nós – sobretudo nos mais tímidos, nos mais impreparados – o riso, e a gente não sabia porque ria e do que ria, e o riso, ao contrário do choro – que é concentração, foco, a incapacidade de o eu transcender aquilo que o afecta – é muitas vezes apenas uma forma – e não amiúde, a única – de defesa perante o horror – aquilo que não se compreendendo, não se dominando, se teme. Ríamo-nos porque precisávamos de nos defender daquele continente que estamos todos condenados a descobrir, mais cedo ou mais tarde, a vastíssima terra do arbusto pintelheiro, infinitamente por delinear, impassível de ser dominada pela aprendizagem mediada, a terra na qual se exige de todos uma perícia e uma excelência apenas alcançáveis nas das inumeráveis e obnóxias fodas de língua.

 

 

Tinha 13 anos e o meu sobrinho, um ano e meio mais novo do que eu, já tinha visto o filme. Vê-se tudo, perguntava, ao que ele respondia, franzido a testa, tudo, mas tudo mesmo, voltava a perguntar, incrédulo, tudo, assegurava. Não me era difícil imaginar o tudo em questão, na forma estática, dadas as revistas que já tinha lido e que tinham sedimentado o meu imaginário castanholeiro da altura. Eram as Ginas, as Weekend Sex, as Tanias (um nome de gaja absolutamente inócuo que durante muito tempo me ficou ligado a badalhoquice, malgrado as Tânias desprovidas de cio em permanência que fui conhecendo) folheadas conjuntamente em casa de um afortunado amigo de escola cujo pai acumulava revistas pornográficas como outros o faziam com semanários. Entrar na casa do Paulo era um privilégio ao alcance de poucos. Eu, tímido e patuscamente vestido pela minha mãe durante muito tempo – demasiado tempo, demasiado penteado, demasiado bege – acedia ao clube dos punheteiros por ser o único a ter um computador, um Commodore Amiga, e fazer a fineza de os convidar a jogar nele enquanto me estendia na cama a ler um livro. Os pais do Paulo trabalhavam e, a casa ficando vazia, nós aproveitávamos para semanalmente ter acesso às ultimas edições ou revistar aquelas que iam conformando o nosso gosto e com as quais sonhávamos, excitados de antecipação, a semana toda.

O resto era evidentemente adolescente, evidentemente javardo. Uma dezena de miúdos carregados de revistas fazia por escolher um recanto onde se conseguissem masturbar-se tantas vezes quantas possíveis naquele eldorado de tempo. Não havia recantos para todos na casa do Paulo, pelo que muitos se entregavam à impudência da castanhola em regime comunal, cada um no seu metro quadrado de sofá ou de chão (na minha cama e na dos meus pais não, caralho), olhos postos na revista folheada numa impaciência de gula, demorando-se por vezes em imagens de irresistível detalhe visual, é como se estivessem ali, diziam, e apenas intervalavam a vigência do desejo com a visão panorâmica dos pessegueiros em flor em convicto descascamento, e daquela métrica comparativa nascia a inveja, o orgulho e uma certa ideia estética de como deve ser um caralho no prumo de vertical orgulho. Ainda assim, a adolescência era generosa a inventar categorias para que ninguém se quedasse reduzido à completa insignificância erótica (até porque, para isso, já existiam as adolescentes, uma espécie de virulento caruncho para o ego zeppelinesco do adolescente em fase de afirmação) e se não a tinha grande, era grossa, e se não era grossa, era direita como um fuso horário, e se não era direita tinha um aspecto muito sadio e por aí fora até à irremedialidade incomentável, felizmente rara entre os frequentadores da casa do Paulo, generoso quanto bastasse para nos deixar usufruir sem restrições das revistas, desde que in situ e com muito cuidadinho para não manchar ou colar as páginas, sendo absolutamente intransigente na questão de as emprestar, talvez por recear que o pai desse conta da falta, talvez por saber que dificilmente manteria o status quo decorrente de ter a maior coleção da cidade acaso abrisse excepções que a pudessem minguar. Ninguém devolve uma revista pornográfica. É como um tupperware.

 

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Voltando ao O Corpo é Meu, filme pornográfico razoavelmente banal, da década de oitenta, que adquiriu um estado privilegiado na minha videoteca mental por ter sido o momento fundador da minha vida enquanto pornófilo. Não me recordo com precisão dos detalhes, da trama, tenho imagens das actrizes que sei não corresponderem a factualidade das roupas, dos adereços ou dos corpos. Mas há um estilo que perpassa todo o filme, um zeitgeist inconfundível do qual a imaginação se serve para suprir o que a memória não logra resgatar. São os oitentas, as mulheres têm cabelos normalmente frisados – de uma forma tão irregular e volumosa que dá a sensação de terem passado algum tempo com a língua numa tomada com os fios a descoberto – encimados por grandes popas que prolongam consideravelmente o planalto da testa. A roupa berra de cor, tanto nos tailleurs como nos fatos de licra muito em voga nas aulas da Jane Fonda e nos vídeos de uma Madonna quase virgem. A Tracy Lords, protagonista de quem ainda guardo uma afável recordação, tinha à altura os mamilos mais filhos da puta da indústria: duas auréolas equilibradamente escuras finalizavam umas adequadíssimas mamas em formato de pêra, impolutas de silicone, e quando a Tracy adoptava a posição de cowgirl ou de reverse cowgirl, aqueles mamilos iam entumecendo até parecerem duas bondosas campainhas de hotel, convidando todos os homens de todo o mundo (e ainda uma pródiga quota parte de mulheres) a erguer os dedos na direcção do ecrã, lambareiros, onde aquelas contrapartes absolutamente perfeitas das covas das mãos cabriolavam de modo tão magistral que todo o plano era, naquele momento, só e somente mamas, mamas em registo de sismógrafo, de ioiô, configurando uma experiência capaz de competir, em intensidade hipnótica, com os melhores barbitúricos pré-anestésicos.

A Tracy Lords foi a minha primeira princesa porca. Numa altura em que as meninas sonhavam, no lagar informe do inconsciente colectivo, com um príncipe capaz de as resgatar (aos pais, ao mundo, à escola) e de as completar (tomando a identidade ao modo de Aristófanes no Banquete de Platão, fragmentada até conhecer a "metade em falta") os meninos, por outra parte, dormiam e acordavam com a cobra bem agasalhada pela mão e sonhavam, de dia ou de noite, com a desformalização concreta das cavalonas que lhes enchiam a cabeça e de que não se conseguiam ver livres nem ao cabo de seis sarapitolas. Nesta óptica de narrativas desencontradas, esperar-se-ia que a adolescência correspondesse a uma espécie de guerra das rosas, inconscpicuamente declarada e a custo resolvida pela consequência inevitável da chegada à idade adulta, momento no qual as meninas purgam a culpa de ter idealizado um ícaro, afogando as barbies, ou as mães, ou as barbies e as mães, e os meninos dão conta da progressiva descida dos colhões, sitos na região do córtex frontal, mesmo por detrás dos olhos, para o escroto, de onde nunca deviam saído. Mas o que sucede é exactamente o inverso, para incessante espanto do órgão da lógica. As meninas e os meninos cortejam-se recíproca e incessantemente e dos maiores desencontros interiores nascem as relações mais intensas. Os meninos e as meninas aprenderam a mentir e a manipular. Podem ainda não estão prontos para a vida adulta, mas já sabem o que baste para terem uma relação.

 

 

Sempre fomos gulosos de ver. Como dizia Aristóteles, é o sentido que nos dá mais mundo. Já havia buracos de fechadura antes de haver peepholes e não é coincidência que uma grande parte dos filmes pornográficos sejam filmados na perspectiva de quem vê as coisas à distância do espectador desinteressado, mesmo, e sobretudo, quando se opta pelo estilo pov (point of view) há o cuidado de não fixar o plano demasiado tempo para evitar o constrangimento da intimidade, como se fosse possível sermos descobertos, como se de repente pudesse aparecer uma identidade alheia, um espelho consciente do nosso desejo. Na pornografia, queremos ser um corpo sem órgãos, como dizia Deleuze. Queremos ser uma única superfície, toda ela picha, alimentada, como uma fornalha, pelo sentido que nos dá mais mundo e o mundo, esse, está cada vez representado/confinado na internet (como alguém epitetou, deliciosamente, de “Wonderful Waste of Time”).

 

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Há três axiomas fundacionais para compreender a relação intrínseca entre internet e pornografia. A primeira, representada pelo acrónimo Triple A Engine (ou AAA), postula as condições pelas quais a rede global é o meio mais adequado e completo para se aceder a conteúdos pornográficos: affordable, accessible and anonym. Quase tudo o que se pode pensar, mesmo – e, muitas vezes, sobretudo) – o que é ilegal, pode ser encontrado, descarregado e visionado. Ainda que os produtores se esforcem por fortalecer a segurança dos sites pelos quais distribuem o seu material e cujo funcionamento é, regra geral, por assinatura, há sempre alguém de dedos algorítmicos pronto a provar a sua perícia técnica arrombando o cofre de onde se espera jorrar as melhores fodangas do universo e, estas, libertadas do justilho comercial, tornam impossível seguir-lhes o rasto até à quantidade incontável de fóruns onde são distribuídas gratuitamente (veja-se, por exemplo, a petição recentemente lançada na qual se pede aos que consumidores paguem pela pornografia consumida, para se ter uma ideia da dimensão do problema em http://www.businessinsider.com/porn-stars-start-campaign-to-save-their-struggling-industry-2014-5). Com a profusão de hotspots e de serviços acessíveis e com o aumento exponencial da largura de banda disponível, é uma Atlântida da marotice que emerge à disposição do consumidor que, para usufruir desse manancial, só precisa de um browser e de muitas horas para perder, não raras vezes sozinho no seu quarto, anónimo, apenas mais um nó em formato numérico no labirinto do tcp/ip, os olhos postos no peephole infinitamente caleidoscópio que é monitor, tudo à disposição, e fôssemos capazes de ter a mesma amplitude para a simultaneidade como temos para a sucessão e a orgia seria, de cada vez, global e prodigiosa.

O segundo axioma refere-se ao facto de todos os dias surgirem milhares de páginas na internet e de algumas não serem pornográficas. Este crescimento tem tanto de inexorável como de orgânico e, imaginando a internet como um corpo, a parte que caberia ao órgão pornográfico – o braço direito, se me permitem – seria de uma dimensão tão exagerada em relação ao resto que faria parecer os braços espinafrados do Popeye uns gravetos de anoréctica. O terceiro axioma, esse, tem que ver com a noção de comunidade de interesses e depende, em grande escala, do funcionamento adequado, e em tandem, dos dois primeiros. A internet, estreitando fronteiros por meio da imediatez do meio de comunicação que oferece, permitiu que se estabelecessem relações até então improváveis entre indivíduos de países ou de continentes diversos, indivíduos esses muitas vezes inquietos por habitarem um millieu relativamente pequeno onde a simples menção de uma apetência sexual não normativa lhes podia granjear o afastamento daqueles que constituem o seu ecossistema social. A internet serviu para mostrar a toda esta gente que não está sozinha, que nunca esteve, que existem outros (e por vezes muitos outros) com gosto por tirar o chapéu ao monsenhor pelas mesmas razões. Nos anos noventa, por exemplo, havia um fórum fechado no Yahoo Groups onde a comunidade de interesse eram os soluços. Evidentemente, os ficheiros que se trocavam eram apenas de áudio.

A internet reconfigurou tudo na pornografia e fê-lo porque a pornografia sempre foi o primeiro e melhor cliente da internet. A pornografia estava à espera da internet para, em primeiro lugar, se libertar do constrangimento formal e narrativo dos meios onde ela foi beber inspiração estrutural: a novela erótica e o seu correlato visual, a foto-novela pornográfica. Quando, no tempo do VHS, se alugavam filmes de visionamento caseiro, descobriu-se sem demora que o controlo remoto tinha só dois botões verdadeiramente importantes, o fast-forward e o play, e que um filme pornográfico podia ser reduzido à sua décima parte sem perder qualquer interesse (pelo contrário). Ainda assim, e durante muito tempo, os produtores filmavam uma história, na maior parte das vezes linear à exaustão (haverá decerto memória do omnipresente canalizador…), parodiando os sucessos do cinema à época (Edward Penishands, O Milagre da Rua 69, and so on) com um talento tão ínfimo e difícil de descobrir como uma cáfila de camelos a tricotar à sombra, secundados pelo esforço monossilábico de uma dúzia de criaturas a fazerem lembrar uma quermesse da Cerci em que alguém tivesse posto pau-de-cabinda na Coca-Cola. Este formato, obviamente confortável apenas para o cinema erótico, foi sendo abandonado à medida que se percebeu que a internet, à altura com veias muito estreitas e condicionadas, tinha um potencial infindo de divulgação desde que lhe fosse adaptado o produto. Com uma ligação de modem ponto a ponto, lentíssima, com codecs de vídeo muito pouco aprimorados para a rede TCP/IP e incapazes de fazer o que agora é comum no Xvid e no mais recente .264, i.e., comprimir sem perda substancial de qualidade um vídeo, a única solução para quem quisesse divulgar e vender online o seu material era cortar-lhe as partes que não interessavam. Felizmente, havia muito que interessava muito pouco, e os primeiros a perceber isso fizeram versões de baixa qualidade dos seus filmes – distribuídos originalmente em VHS ou DVD – apenas para visionamento online nas quais, graças a nosso senhor, o diálogo estava quase ausente, deixando apenas as cenas em que de facto acontecia qualquer coisa. Esta ajuda involuntária dos condicionalismos técnicos fez com que pouco a pouco os temas fossem ganhando importância relativamente à trama e os produtores desataram a fazer filmes e séries fotográficas só para a internet, sem suporte físico, apostando em captar uma clientela cada vez menos regional e cada vez mais especializada. A história deu lugar ao estilo e à segmentação progressivamente atómica dos gostos e da oferta: só gajas novas, só gajas gordas, só gajas gordas a fumar, só gajas a fumar, gajas que aceitam entrar num autocarro ou numa casa de banho para foder com desconhecidos, gajas muito magras que só falam estrangeiro a serem penetradas por matulões em quartos decorados por viciados na Hello Kitty, professoras de toda a amplitude académica, gajos em todo o tipo de uniformes, miúdas novas a tocar guitarra eléctrica no banho, you name it, they thought about it. A pornografia encontrava finalmente o seu formato.  [...continuar a ler]

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Valério Romão nasceu em 1974. Licenciado em Filosofia, é autor de dois romances (Autismo e O da Joana, ambos publicados pela Abysmo), um livro de contos  (Facas, Companhia das Ilhas) e várias peças de teatro. Traduziu obras de Virginia Woolf e Samuel Beckett.

 

Ler mais na edição em papel ou em e-book ou PDF.

 [Publicada na edição em papel, LER 135]

Já agora: alguns autores que não ganharam o Nobel

 

   

 

 

 

Lev Tolstoi, Marcel Proust, James Joyce, Virginia Woolf, W. H. Auden, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges, Primo Levi, Graham Greene, Chinua Achebe, Norman Mailer, John Updike, Arthur Miller, Anton Tchekhov, Henrik Ibsen, Robert Frost, Emile Zola, Mark Twain, Henry James, Somerset Maugham, Thomas Hardy, Joseph Conrad, D.H. Lawrence, August Strindberg.

ENSAIO || BÍBLIA: A Redoma e o Livro

 

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Texto de João Leal

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Dos arredores de Lisboa para Pitcairn, o cenário de Revolta na Bounty: a história de uma educação religiosa («uma minoria religiosa», a comunidade batista) e a forma como se constrói uma redoma a partir do seu livro essencial: «De vez em quando volto a pegar na minha Bíblia. Nunca me quis desfazer dela. É um memorial dos meus primeiros 20 anos de vida. Está usada, rasgada aqui e ali, tem muitos sublinhados e comentários nas margens. Ainda reconheço o seu cheiro. É difícil de folhear por causa de toda a humidade e quase nenhum uso na última década.»

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Foi o Pedro que me apresentou o Revolta na «Bounty». Chegadas as férias de verão, o meu irmão mais velho encetava jornadas épicas de leitura compulsiva. Ficou de tal modo entusiasmado com as aventuras do capitão Bligh e dos amotinados do Bounty que me propôs a tentativa de teletransporte para Pitcairn, a ilha deserta em que os marinheiros revoltosos desembarcaram e de cuja praia ficaram a ver o navio a arder ao largo. Para isso, deveríamos os dois concentrarmo-nos ao mesmo tempo no objetivo com o máximo de força possível durante um minuto ou dois. Alinhei, achando a ideia formidável e cheia de possibilidades. Para grande deceção dos meus 11 anos de idade, no final do período combinado continuávamos no nosso quarto, cada um na sua cama do beliche.

Se hoje em dia a internet permite saber tudo sobre a ilha de Pitcairn, sendo mesmo possível passear na ilha com o street view da Google, em meados dos anos 80 eu e o Pedro só tínhamos o livro de bolso da Europa-América, um atlas de capa azul do Círculo de Leitores e a nossa imaginação para preencher as colossais lacunas de informação. Sabíamos, por exemplo, que passados quatro anos da chegada à ilha tinham morrido sete marinheiros, os seis taitianos e duas das onze taitianas que acompanharam os amotinados. Acidentes, assassinatos, suicídio e doenças mortais haviam reduzido a comunidade a dois homens, Ned Young e John Adams, e a nove mulheres. Tentando evitar a repetição do caos e terror desses primeiros anos, os dois homens tomaram a Bíblia de bordo do Bounty como referência para o estabelecimento de ordem. Young ensinou Adams a ler a partir do livro e ambos acabaram por conseguir converter as mulheres taitianas ao cristianismo.

Os habitantes de Pitcairn estiveram isolados durante 18 anos, altura em que um navio parou por acaso na ilha para se abastecer de cocos. A tripulação do USS Topaz encontrou uma comunidade organizada e pacífica, em que as crianças eram alfabetizadas num clima de abundância. Young tinha morrido de doença 10 anos antes e Adams era o único homem. Com ele estavam 11 mulheres e 23 crianças.

Certamente que a Bíblia foi central na vida e no sucesso da comunidade, cuja meia centena de habitantes atuais é descendente dos marinheiros amotinados desse longínquo século XVIII. E é com esse nível de importância que considero esse mesmo livro na minha história pessoal. Filho de pais que se conheceram na Igreja Batista de Leiria, sei que se a Bíblia não existisse, isto é, se a comunidade batista não existisse, eu não teria nascido.

Vivi a infância com a noção de que pertencia a uma minoria religiosa. Tinha a certeza de que era um dos pouquíssimos iluminados, alguém com uma vantagem moral sobre os colegas da escola e vizinhos lá da rua. Era óbvio que na iminente segunda vinda de Cristo, sendo eu justo, seria arrebatado, deixando perplexos todos os rapazes com quem nesse momento estaria a jogar à bola. Na longínqua hipótese de morrer antes desse arrebatamento, era certo que iria para o Céu, onde me iria reunir a todos os outros evangélicos batistas, os únicos com quem Jesus estaria disposto a partilhar a eternidade.

Olhava para todos aqueles que não eram da minha família, ou da minha Igreja, como o «mundo» que eu tinha como missão ajudar a redimir do seu pecado. Tinha a noção, exacerbando uma marca comum protestante, de que a Igreja Católica era um grupo de malfeitores dissimulados e tirânicos. Era um «nós» e «eles» que me trazia uma noção perfeita de identidade: havia alguém para salvar e um adversário mais poderoso para combater. Ser um exemplo era ponto de honra. Não mentir, não agredir, ser modesto, ajudar o próximo e exercer compaixão pelos mais fracos do recreio da escola garantia-me que fazia o que se esperava de um batista e que era um menino muito especial aos olhos de Deus.

Se cá fora, entre os do «mundo», já era bom, aos domingos na igreja era ainda melhor. Se lá fora me sentia como um membro de um conjunto de super-heróis de que dependia a única salvação possível dos habitantes do planeta Terra, lá dentro, sendo o filho mais novo do pastor, sentia-me realmente especial. Todas as pessoas me amavam, apaparicavam e creio que nunca voltei a ser tão mimado de um modo tão generalizado. Para os da minha idade existia o flanelógrafo, um quadro feito de flanela no qual se colavam figuras com velcro na parte de trás para contar as histórias bíblicas. Os apóstolos, os profetas, ovelhas, camelos, anjos, pedras, a Sarça Ardente, a cruz e toda uma miríade de ilustrações que apareciam para nossa maravilha nessas versões suavizadas daquelas histórias tantas vezes tão violentas. Cantávamos, também, muito. A minha canção preferida era a que dizia: «O meu coração era preto / Mas Cristo aqui já entrou / E o seu precioso sangue / Tão alvo assim o tornou / E diz na sua palavra / Que em ruas de ouro eu andarei / Que dia feliz quando eu cri / E a vida eterna ganhei.» [continuar a ler...]

 

João Leal nasceu em Lisboa em 1973. Estudou Teologia, curso que deixou incompleto. Livreiro desde 1997, manteve (entre 2003 e 2005) o blogue «Bicho Escala Estantes». É casado, tem duas filhas e mora na vila de Sintra. Em 2011 publicou Alçapão (Quetzal), o seu primeiro romance.

 

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 [Publicada na edição em papel, LER 135]