Livros, fim à vista
Está já marcado o fim dos livros em papel. Com data e tudo. Daqui até 2020, é usá-los para a lareira, como propunha Pepe Carvalho, o detetive de Manuel Vázquez Montalbán. [Via Blogtailors]
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Está já marcado o fim dos livros em papel. Com data e tudo. Daqui até 2020, é usá-los para a lareira, como propunha Pepe Carvalho, o detetive de Manuel Vázquez Montalbán. [Via Blogtailors]

Cristina Peri Rossi e Julio Cortázar
«Julio Cortázar não morreu de cancro, nem de leucemia, como se disse, mas de sida, contraída pela sua querida mulher, Carol Dunlop»: entrevista com Cristina Peri Rossi, no Clarín: «Cómo Cortázar murió de sida, que contrajo en una transfusión»

D’Annunzio e Mussolini
Outro pequeno ruído em torno de biografias de escritores: desta vez trata-se de Gabriele D’Annunzio, cuja biografia, The Pike [ver artigo de Fernando Sobral, edição da LER em Janeiro], de Lucy Hughes-Hallett, ganhou o Prémio Samuel Johnson (£20,000). Na altura, em Novembro, o The Independent, num assomo da sua habitual correção política, chamou-lhe «a biografia de um repelente poeta e político italiano», mas The Pike é, na verdade, uma excelente biografia (na última ronda pelo prémio Samuel Johnson bateu a volumosa biografia de Margareth Thatcher, de Charles Moore) e a personalidade complexa, ambígua e certamente pouco simpática do fascista D’Annunzio, poeta assinalável, não esgotará nunca a lista de atividades e vícios deploráveis ou apenas extravagantes: cocainómano, piloto de aviões, amante de armas, hedonista e pecador, sedutor inesgotável, etc. Nos EUA, entretanto, The Pike foi de ser publicado com outro título, Gabriele D'Annunzio: Poet, Seducer, and Preacher of War (Alfred A. Knopf), em simultâneo com duas traduções. Depois de o The New York Times ter anunciado «Fascist Designs», a The New Republic relança o debate entre a literatura, o aventureirismo ideológico e a construção da Itália moderna: «The Writer, Seducer, Aviator, Proto-Fascist, Megalomaniac Prince Who Shaped Modern Italy From Gabriele D'Annunzio to Silvio Berlusconi».

A cena passou-se no festival de Jaipur (como quem vem ali do Paquistão e vira à direita), que se anuncia como o maior festival literário gratuito do mundo. Numa mesa em que participavam Jhumpa Lahiri e Jonathan Franzen, a escritora sino-britânica Xialu Guo insurgiu-se contra o predomínio e expansão de um tipo de literatura inspirado na norte-americana, realista e com ênfase na narrativa, facto que atribui à baixíssima percentagem de traduções no mercado anglo-saxónico (dois por cento do total de livros publicados). Para Guo, este afunilamento – num mercado que é fundamental para o reconhecimento global dos escritores (veja-se os casos de Sebald e Bolaño cujas ondas de popularidade partiram precisamente da celebração das respetivas obras na Inglaterra e nos EUA) – é nocivo porque uniformiza a leitura e condena aos guetos da intelectualidade os autores e as obras que fujam ao padrão-ouro da literatura norte-americana, que a mesma autora considera «sobrevalorizada». Disse-o na cara de Franzen, embora com o cuidado de garantir que adorava os seus livros. A nossa opinião? Bem, em primeiro lugar, Guo jogou pelo seguro num festival que decorre na Índia: criticou os EUA. Em segundo lugar, tem alguma razão no que disse. Em vez de permitir a entrada no circuito de estilos (vamos simplificar) alternativos, o que a globalização trouxe foi a expansão das tendências dominantes, ou seja, a desejada variedade deu lugar a uma crescente homogeneização da literatura. Em vez de muitos produtos diferentes na mesma montra global, temos os mesmos produtos nas diferentes montras locais. Mas não é o fim do mundo. O McDonald’s não acabou com as gastronomias locais. No caso dos livros, podemos afirmar, com algum grau de certeza, que we’ll always have Camilo e rojões à minhota. Bruno Vieira Amaral.

Imaginemos que, em vez de repetirem até à exaustão as indigências habituais pelas televisões, os nossos senadores e dirigentes políticos começavam a atacar os livros que poluem a moral, que põem em causa as nossas tradições e bons costumes, que — para abreviar, enfim — levantam as saias ao pudor ou às benfeitorias da pátria. Ah, isso seria um país culto, finalmente — não amorfo, onde tudo é igual a qualquer outra coisa, sobretudo em se tratando de livros, um objecto estranho. Não basta distribuir A Relíquia por todas as salas de aula do secundário — é preciso que um dirigente político proteste e queira saber quem fez essa coisa tremenda (infelizmente, uma larguíssima percentagem de dirigentes políticos formou-se em Miró e não lê Eça há bastante tempo, apesar de estar na mesa de cabeceira, claro). Esse é o instrumento mais perfeito do marketing livreiro, como prova a reação de Jean-François Copé, presidente do UMP, partido do centro-direita francês, que se declarou chocado com Tous à poil!, um livro ilustrado onde os personagens se vão despindo sucessivamente até mergulharem nas ondas de um mar estival. O livro, publicado em 2011 pelas Éditions du Rouergue, estava parado nos armazéns — mas em poucos dias atingiu o pódio nas vendas da Amazon.fr em 2014. Jean-François Copé, depois de dizer que a simples visão das imagens lhe paralisou o sistema sanguíneo, resumiu assim o livro: «Em pêlo o bebé, em pêlo a baby-sitter, em pêlo os vizinhos, em pêlo a mamã, em pêlo o cão... em pêlo a professora...» A imprensa, de esquerda e de direita, festejou o livro e o Le Figaro (que considerada os desenhos «muito realistas, mas muito infantis: explícitos mas sem maldade», resumiu bem o assunto: «Tous à poil! n.°4 nas vendas da Amazon: Obrigado Sr. Copé!»
Que pena que em Portugal os políticos não ataquem (e violentamente) os livros de que não gostam ou que acham impróprios e, em vez disso, o assunto lhes seja completamente indiferente. Que mimo poderia ser: «António José Seguro acha lamentável que Afonso Cruz use e abuse da cerveja nos seus livros.» «Passos Coelho acha o novo livro de Mário Cláudio o cúmulo da pouca-vergonha.» Não poderiam eles prestar esse grande serviço aos nossos autores? Basta uma palavrinha. F.J.V.
Adenda: O livro Tous à poil!, faz parte do conjunto de leituras aconselhadas em França por uma associação de promoção da leitura e as Éditions du Rouergue é uma editora prestigiada no domínio infanto-juvenil. Em 2011, recebeu o prémio Libbylit de Meilleur Álbum para Crianças.
Conheça, aqui, 30 livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura em Portugal.
Este post foi atualizado às 20:48 para introduzir as informações complementares do último parágrafo e o link para obras recomendadas pelo PNL.
Uma aplicação (App, como quiserem...) que fornece um texto por dia — por amor aos clássicos. Está em francês.

«A indústria do livro vê-se a si mesma como uma Procter & Gamble. Quem é que deu aos editores a ideia de que isto é um grande e fabuloso negócio? Não é — é um negócio pequeno, delicado, para vender coisas a um bando de pessoas estranhas que leem.»
Andrew Wylie, no artigo de George Packer sobre a Amazon, na New Yorker.

Júlio Cortázar (1914-1984) inventou boa parte dos nossos sonhos, mesmo que não saibamos quem foi este argentino e que livros escreveu. Michelangelo Antonioni revelou um deles no cinema, com Blow-Up. História de um Fotógrafo (que adapta um conto seu e usa este belo quarteto: David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles e Jane Birkin). Mas a maior parte deles vem em livros como Rayuela. O Jogo do Mundo (um romance fundamental, para ler como um labirinto interminável), Todos os Fogos o Fogo, A Volta ao Dia em 80 Mundos, Histórias de Cronópios e de Famas ou o breve Prosa do Observatório: de seres imaginários a mundos construídos do avesso, de histórias de amor até textos que denunciam os absurdos do seu tempo, recriando vampiros e reinventando a língua da literatura. Morreu exatamente há trinta anos, em Paris, num dia de neve. Mas nunca parou de escrever. F.J.V.