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A arte da antecipação

 

A Amazon de Jeff Bezos está a preparar-se para enviar encomendas aos seus clientes ainda antes de eles as fazerem. Confuso? Leia as instruções. 

 

Da Amazon, o gigante mundial da distribuição, já se espera tudo. Há uns meses, foi anunciado o proje­to de usar, num futuro próximo, drones para fazer entregas em qualquer ponto dos EUA num intervalo inferior a 30 minutos. Escolhe-se o que se quiser no site e meia hora depois um veículo voador do tamanho de um helicóptero telecomandado pousa no quintal das traseiras com a encomenda. Impressionante, sim, mas o engenhoso e insaciável Jeff Bezos não se fica por aqui em termos de arrojo tecnológico. Na ânsia de ser sempre mais rápida do que a concorrência, a Amazon está a preparar-se para enviar encomendas aos seus clientes ainda antes de eles as fazerem. Exato: é como se lhes adivinhassem os pensamentos e as intenções. Valendo-se das quantidades incalculáveis de informação armazenada sobre hábitos de consumo (das compras feitas no passado às wish lists, passando pelo tempo que o cursor permanece a pairar em cima de um determinado item), um sistema informático calculará que produtos terão uma probabilidade elevada de serem ­encomendados e acionará o respetivo «envio antecipado». Assim, quando o cliente clicar por fim no botão de compra, o produto já estará em trânsito, ou em espera num armazém mais próximo da morada de destino. Levada às últimas consequências, a ideia acabará por descartar a própria vontade do consumidor, esse obstáculo final à absoluta fluidez do sistema. Chegará o dia em que a Amazon anunciará o algoritmo capaz de definir – sem que tenhamos voto na matéria – o que na verdade cada um de nós precisa de ler, ver ou ouvir. José Mário Silva

Ilídio Matos: a agência literária (com o seu nome) continua

 

«Depois de alguns meses de transformações, mudanças e adaptações», Gonçalo Gama Pinto decidiu continuar o trabalho na agência de Ilídio Matos — a agência conservará o seu nome em homenagem à sua longa história e ao seu fundador.

A agência (que era em Benfica) passará agora a funcionar na Rua Passos Manuel (85 – 1º Dto., 1150-258  Lisboa), e o contacto por email é este: goncalo.gamapinto@ilidiomatos.com.

 

«Na história da edição portuguesa há nomes que nunca desaparecerão. Conhecemos os seus nomes: editores que arriscaram a vida e os cabedais, grandes revisores e leitores, excelentes livreiros, notáveis capistas – e agentes literários que quase ninguém conhece. Ilídio Matos (1926-2013) foi, durante anos, esse agente literário. Primeiro, em part-time atrevido; depois, ocupação principal, representando autores que iam de Agatha Christie a Hemingway, de Caldwell a Patricia Higshmith. Nas feiras internacionais de direitos (Frankfurt, Londres, etc.) ele foi, durante anos, o agente português – um George Smiley da nossa pequena edição: discreto (sabia guardar segredos), divertido, cauteloso, prudente, generoso e possuído pela loucura dos livros. Depois dos oitenta, Ilídio Matos continuou a trabalhar; era o seu único vício, além do anonimato. Até ontem. A edição portuguesa deve-lhe muitas homenagens.» (Francisco José Viegas, 13 Set. 2013)

Dinamarca, pois

A dinamarquesa Dorthe Nors foi muito festejada depois da publicação do seu primeiro livro nos EUA (Karate Chop, Graywolf Press), com direito a entrevista e crítica na New Yorker, e a uma duvidosa frase na engalanada Paris Reviewa writer of moments—quiet, raw portraits of existential mediation, at times dyspeptic, but never unsympathetic»); numa entrevista na The Atlantic, Nors explica quase tudo: «It's not drugs, poverty, or wild lovers that make a great writer. It's discipline and time alone.» Ah, Dinamarca, tão bem comportada...

Não há segredos de Cortázar

No ano do centenário de Julio Cortázar, Miguel Dalmau decide não publicar a sua biografia do escritor argentino: «Ante las reiteradas prohibiciones y amenazas de la agencia Carmen Balcells, y dado el elevado coste de producción que supone el extirpar del texto hasta la última línea, se ha decidido finalmente no publicar mi libro de Cortázar. Aparte del shock personal, el tema daría mucho para hablar. Y centrado además en minucias como la libertad de expresión.»