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LER

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Tinta-da-china entra no mercado brasileiro

«O primeiro livro sai em março. É uma seleção de crônicas de Ricardo Araújo Pereira, um dos grandes fenômenos do humor português, convidado do festival Risadaria deste ano, em São Paulo. Em seguida, é a vez do romance O retorno, de Dulce Maria Cardoso, considerado um dos livros de 2011 em Portugal pelo jornal Público e pelas revistas LER e Time Out. E, depois, E a noite roda, romance de estreia de Alexandra Lucas Coelho», pode ler-se no jornal O Globo, que cita na notícia os Prémios de Edição LER/Booktailors.

Bestas Céleres (crónica de Pedro Mexia)

Em 1912, a Publisher’s Weekly começou a divulgar quais os livros mais vendidos na América. Com essa iniciativa, a indústria livreira quebrou a ancestral «sacralização» do livro, que se tornou então num «produto» de massas igual a outros. Um produto em competição comercial, independente de juízos estéticos.

Alexandre O’Neill chamava ao best-seller a «besta célere», e com bons motivos. Trata-se de uma «besta» pela sua dupla enormidade, pois são em geral calhamaços escritos a trouxe-mouxe; e é «célere» porque vende depressa e espelha uma época em directo. Como escreveu o crítico John Sutherland, ler um best-seller antigo é tão estranho como ler um jornal antigo. Aliás, antes da invenção das bestas céleres universais, houve fenómenos localizados, com sucesso instantâneo e colossal. Foi o caso de Charlotte Temple, romance publicado em 1791 por Susanna Rowson. Sabem quem é? Eu também não.

A besta célere é um fenómeno de moda e de impaciência. Muita gente quer ler o mesmo que os outros andam a ler, e ler de imediato, ler livros conhecidos, reconhecíveis, acessíveis. Livros escritos para o momento, e não para o futuro. O aparecimento do livro de bolso, um avanço a todos os títulos notável, acentuou porém a ideia de que o livro não é para guardar, é transportável, descartável, efémero.

O que distingue uma besta célere não é vender muito, mas vender muito depressa. As tiragens acumuladas da Bíblia ou do Quixote superam todas as bestas céleres, mas são livros que vendem sempre, ao longo dos séculos, enquanto o prazo médio de vida de uma besta célere é de uns meses, raramente mais de um ano. Até porque entretanto é preciso renovar as existências, e o romancista tem de produzir novo cartapácio.

Os grandes êxitos comerciais são quase sempre romances, embora algumas memórias, biografias e livros de auto-ajuda se possam intrometer. O romance, que se tornou uma forma hegemónica, fornece escapismo e a facilidade a rodos. Há vários anos que quatro grandes «bestas» (Clancy, Grisham, King, Steele) conseguem vender em regra um milhão de exemplares em hardcover por cada novidade, mais uns quantos milhões em paperback. Os autores de «ficção popular» escolhem muitas vezes as baias de um género, com os seus códigos previsíveis, ou as questões que angustiam a sociedade, a guerra, a mudança de costumes, o «regresso ao religioso». Temas polémicos ou sentimentais são eternos favoritos. Enredos ofegantes e conspirativos também.

Também há escritores propriamente ditos que vendem muito e depressa, como Dickens, mas são uma raridade. Um caso curioso é o de Graham Greene, que dividia as suas obras de ficção entre «novels» e «entertainments», pois não queria confusões (sendo que um “entretenimento” de Greene é coisa magnífica). E há escritores a sério que foram bestas céleres por terem sido processados (Lawrence), proibidos (Pasternak) ou condenados à morte (Rushdie), incidentes exteriores à literatura e que ainda por cima fazem mal à saúde. Faulkner também se propôs escrever uma besta célere, escolheu um tema grosseiro e escreveu à pressa Santuário (1931), que cumpriu as expectativas. Mas o sucesso é uma incógnita: a besta célere, como a economia, é uma falsa ciência, nunca se sabe o que vai acontecer. A existir, a fórmula de besta tem a ver com uma determinada intenção e uma determinada estratégia. Falar de assuntos «em voga», escrever em linguagem «simples», fazer sociologia de bolso ou metafísica aguada. Nenhuma besta é célere se for difícil.

Cresci sem bestas céleres em casa, e lembro-me de em casas alheias espreitar com espanto os calhamaços de Herman Wouk, Morris West, Leon Uris, ou o fininho Fernão Capelo Gaivota, sem perceber que continente obscuro era aquele, lia umas páginas e aquilo não era literatura, era «outra coisa». Não podia imaginar que um dia as livrarias teriam mais dessa coisa do que literatura. Nessas alturas, consolo-me pensando em Susanna Rowson. Sabem quem é? Eu também não.  

 

Crónica de Pedro Mexia (segundo o anterior acordo ortográfico) publicada na edição de janeiro da LER.