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LER

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Discurso indirecto livre (crónica de Abel Barros Baptista)

Um jornal ou revista resolveu fazer teste ou coisa parecida à cultura dos estudantes universitários. De vez em quando, dá-lhes para isto. E é sempre uma comoção de almas escandalizadas. Vão para a rua e desatam a fazer aos incautos perguntas que acham que devem ou pelo menos podem ser feitas, para as quais julgam ter a resposta e a respeito das quais entendem que a falta de resposta é sinal gravíssimo de ignorância do inquirido, da falência do sistema de ensino, de crise dos valores, da família e do raio que os parta. Vê-se que não atino com este tipo de iniciativas. São mesquinhas, estúpidas, desnecessárias. Humilham uns, expondo-os para satisfação de outros. Porque tem de haver alguma satisfação para alguém, ou não se entende porque insistem.

Talvez com a esperança de que as novas gerações estejam mais cultas… Mas é contra-senso: esses inquéritos trivializam o que julgam sacralizar. Perguntas sobre títulos e nomes de artistas, cineastas, músicos, acontecimentos históricos, monumentos, nomes de ruas e o mais que se sabe, escandalizam porque a falha na resposta, presumem-na os promotores do teste sintoma de ausência de cultura geral, a qual no entanto só permite tal presunção se for reduzida ao corriqueiro, ao básico, ao que toda a gente devia saber: cultura de almanaque, em suma (e será por isso que ninguém anda pela rua a pedir, por exemplo a quem leu Lobo Antunes, definições de «edição ne varietur»).

O grau de familiaridade com essa cultura de almanaque é o que as perguntas permitem testar: se mostram o que o inquirido não sabe, não deixam ver o que sabe nem perceber outras qualidades relevantes na avaliação intelectual do cidadão, jovem ou cota. E não podem impor significado exclusivo para a ignorância em certo ponto particular. Uma menina não saber quem escreveu O Evangelho segundo Jesus Cristo significa exactamente o quê? E é lastimável exactamente porquê? Será o mesmo que não saber quem escreveu, digamos, O Capote, ou Lazarillo de Tormes ou Dubliners? E se alguém mais informado respondesse que «quem escreveu O Evangelho segundo Jesus Cristo foi o mesmo que publicou Os Poemas Possíveis», quem nos garante que o inquiridor saberia estar diante de resposta correcta?

E aqui tocamos o ponto escandaloso da abominação: os inquiridores não são obrigados a saber mais do que os inquiridos nem é requerido que tenham passado por provação idêntica. Na verdade, apenas estão colocados ou se colocam em posição que os isenta de serem por sua vez inquiridos: a posição de quem pergunta, justamente. Quem pergunta pode decidir o conteúdo da pergunta e os termos da pergunta; pode escolher a quem pergunta; sobretudo, pode apresentar-se e pedir respostas…  como um polícia, juiz, procurador ou outro com autoridade para exigir da testemunha a verdade.

Ora, como alguém disse, se não queres que o teu vizinho te minta, não lhe perguntes nada. A mentira é recurso legítimo diante da inquirição abusiva ou apenas inadequada. Aqui não é questão de mentir, mas de perceber que só a tendência benigna para colaborar graciosamente com a imprensa e sobretudo a televisão conduz os inquiridos a responder e os coloca em posição de serem declarados ignorantes e expostos enquanto tal na página ou na televisão. E o ignorante nem se apercebe de que exigir respostas é muitas vezes uma afronta, uma prepotência intolerável, sendo o caso destes testes de «cultura geral» uma dessas vezes.

É urgente por isso que se reformem os hábitos. De cada vez que um braço desses inquéritos, jornalista inocente ou estagiário que seja, se abeirar de alguém para lhe perguntar, por exemplo, se sabe quem foi o poeta que dá nome à rua onde vive, sugiro que o cidadão replique propondo este simples acordo: bem ou mal, responderá, mas só depois de o jornalista lhe explicar detidamente o que é o «discurso indirecto livre». Uma coisa que sempre quis saber, sabe? que gostava mesmo de saber, e que na sua profissão, tão generosa, deve abundar… sim, o que será o discurso indirecto livre…?

 

Crónica de Abel Barros Baptista (segundo o anterior acordo ortográfico) publicada na edição de janeiro da LER.

Romance de Agualusa adaptado ao cinema

Começa este mês no Brasil a rodagem do filme O Vendedor de Passados, baseado no romance de José Eduardo Agualusa. «Li o livro e me apaixonei. Conversei com Agualusa e disse que adoraria adaptá-lo para o cinema, mas queria que a história se passasse no Brasil. A partir disso, ele me deu total liberdade», afirmou em conferência de imprensa o realizador Lula Buarque de Hollanda. As filmagens decorrem no Rio de Janeiro e em Paulínia (São Paulo), e o filme tem lançamento previsto para o fim de 2012.