Mais textos publicados na LER disponíveis em PDF: longo retrato de Agustina (com um ensaio imperdível de Eduardo Lourenço), entrevista ao poeta A. M. Pires Cabral, homenagem a Dinis Machado, trinta livros do Plano Nacional de Leitura (e as suas omissões), a história do Nobel, os últimos e-mails de Stieg Larsson (com ilustração de Pedro Vieira) e uma «Breve Introdução à Teoria Literária» assinada por Rogério Casanova.
Mais novelas do que contos, estas três histórias de Teresa Veiga (n. 1945) planam, antes de tudo, sobre o mistério dos destinos à maneira da mitologia rural. A evocação das Parcas (na primeira, com o mesmo título), da licenciosidade (na segunda) e do demónio (na terceira) elevam-nas e orientam-nos para o universo do fantástico, onde até mesmo o explicitamente impresso nos deixa suspensos sobre dúvidas. Estruturalmente muito bem organizadas estas novelas registam círculos quase inteiros de vida narrados por terceiros. Desde a inversão de vontades: a de uma mãe curiosa e dinâmica que se esforça por introduzir a filha, pouco entusiasta e algo apática, no universo das viagens (entendidas como aventura de descoberta) e da arte; passando pela evocação do dom-juanismo: na pessoa do marquês de Bradomín, actor profícuo (e discretíssimo, como convém) de um vasto número de episódios de sedução consumada, num curto período de tempo e no espaço de apenas um casarão; até à fragmentação do diabo em forma de gente: capaz de fecundação, mas perecível enquanto figuração do mesmo. Os enquadramentos desenvolvem-se numa linguagem plana, sugerindo distância relativamente ao hipotético realismo mágico que uma leitura menos atenta possa evocar (não é casual a referência a Isabel Allende colocada na boca de uma visitante impertinente em «O Maldito, Marianina, e o Feitiço da Rocha da Pena»). Com estas novelas entramos no universo do fantástico e é flectindo sobre ele que Teresa Veiga escreve. [Cotovia, 172 págs.]
Crítica assinada por Dóris Graça Dias na edição de Janeiro de 2009.
Há dois meses, numa conferência que fiz sobre António Botto, a pretexto do cinquentenário da sua morte, um dos presentes quis saber em que circunstâncias, em 1927, o autor de Canções tinha passado uma temporada em Itália na companhia do príncipe Luís Fernando de Orleães e Bourbon. Se tinham partido juntos de Lisboa ou se o poeta fora ter com Sua Alteza a Capri. Isto leva-nos às biografias de escritores. Em Portugal, o género tem duas balizas: as biografias de Fernando Pessoa (1950) e Alexandre O’Neill (2007), feitas, respectivamente, por João Gaspar Simões e Maria Antónia Oliveira. No intervalo cabem as de Camilo Castelo Branco (1961), Raul Brandão (1979) e Eça de Queirós (2001), feitas por Aquilino Ribeiro, Guilherme de Castilho e Maria Filomena Mónica. Cinco títulos em quase 60 anos. O que sobra conta pouco. Nos anos 70, a Editora Arcádia manteve uma colecção sobre a vida e obra de vários escritores, mas o protocolo biográfico cedia à deriva ensaística. Em todo o caso, o volume dedicado a José Régio (1976), da autoria de Eugénio Lisboa, continua sendo o mais detalhado relato biográfico que se conhece sobre o poeta de A Chaga do Lado. As biografias representam sempre um grande investimento: exigem tempo (o tempo custa dinheiro), perseverança e distância crítica. O biógrafo não tem estados de alma: parte pedra. Maria Antónia Oliveira andou cinco anos a escavar no O’Neill. Não havia outra forma. Edmund White mudou de país e durante seis anos não fez outra coisa senão desconstruir o Genet. Não é pêra doce. O tipo de empresa contra a qual opomos um puritanismo inato, preguiça homérica e fraca tesouraria. Leitores parece que há: o vasto mundo gosta de indiscrições. O crivo dos costumes permite fotobiografias de aparato, correspondência inócua, cronologias em colecções de obra completa, memórias filtradas à luz das conveniências, diários rasurados, verbetes de dicionário, um ou outro ensaio dado ao biografismo, arremedos de autobiografia com controlo de danos colaterais. Aqui e ali, o esqueleto aguenta-se. Biografia sem restrições, como as que Maria Filomena Mónica e Maria Antónia Oliveira fizeram do Eça e do O’Neill, só quando o rei faz anos. A gente olha em volta e fica a pensar na enxurrada de informação (social, política, literária) que representariam as biografias de Manuel Teixeira-Gomes, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros, Florbela Espanca, António Ferro, António Botto, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, Miguel Torga, Joaquim Paço d’Arcos, Ruy Cinatti, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Jorge de Sena, Raul de Carvalho, Natércia Freire, Agustina Bessa-Luís, José-Augusto França, José Saramago, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Mário Cesariny, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Herberto Helder, Rui Knopfli, Ruy Belo, José Carlos Ary dos Santos, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Eduardo Prado Coelho, Al Berto e Luís Miguel Nava. (Nesta lista de 40 autores nascidos entre 1860 e 1957 há quatro autores vivos, o mais novo tendo agora 78 anos.) Nem todas urgentes, com certeza, porque a importância relativa das obras e o grau de intervenção pública nem sempre coincide. Mas uma dúzia bem escolhida faria a história do século XX português. Os seus equivalentes ingleses, americanos e franceses estão todos biografados, alguns mais de uma vez. No Brasil, por exemplo, há Paulo Coelho em versão autorizada, não-autorizada e for dummies. O que não quer dizer nada, porque os herdeiros de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa blindaram tudo. E nós por cá? Nós por cá talvez preferíssemos trocar a lenda — «Há sempre muita lenda à volta das pessoas», dizia David — pelas biografias a que temos direito.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
De um serviço internético encabeçado por «Correio de João Ubaldo Ribeiro» (qualquer interessado poderá inscrever-se: ubaldoescritor@terra.com.br) arribou-me aqui ao Nordeste da Nova Inglaterra, esta mensagem: «Subject: Interessante coincidência «Querido Ancelmo [sic], Só para mostrar como este mundo é curioso. No mesmo dia em que eu recebia a notícia de estar sendo mais uma vez censurado em Portugal, assinei contrato para a publicação em inglês do mesmíssimo livro, em tradução de Clifford Landers (que também traduziu O Sorriso do Lagarto), com o título de The House of the Fortunate Buddhas. A prestigiosíssima editora, conhecida pela suas edições de clássicos universais, se chama Dalkey Archive Press e é vinculada à também prestigiosa Universidade de Illinois. Enquanto isso, na brava Lusitânia, onde no geral os brasileiros são tão apreciados quanto percevejos, entro na galeria dos pornógrafos proscritos e o Viva o Povo Brasileiro ainda está sendo examinado para ver se pode ser vendido na rigorosa rede. Pôde ser adotado duas vezes (o máximo que a lei permite) pelo Ministério da Educação da França como o livro-texto para o Exame de Agregação de Língua Portuguesa, mas tem que ser examinado por vendedores de supermercado, para ver se é leitura permissível aos portugueses. Abraços moralizados do velho João Ubaldo.» Um dia, no final de uma edição das Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, ainda emocionado como ele se deixa ficar sem escondê-lo, disse-me ao despedir-se: «Onésimo, você usa essa coisa nova agora que chamam de e-mail?» Ao meu «sim», continuou: «Você faz um favor ao seu amigo?» Eu, claro só precisava dizer, e ele: «De vez em quando você manda um e-mail pra mim dizendo só: “João, você é bom!”» Absolutamente desarmante como só o João Ubaldo. Então o meu e-mail «Você é bom» lá seguiu assim: «Meu querido João Ubaldo: Li e fiquei parvo. Que vergonha para a minha Lusitânia! Só discordo de uma coisa. Você sabe que não é verdade isso de os brasileiros lá na pátria serem tão apreciados quanto os percevejos. Você sabe bem que há muita, muita gente que realmente gosta do Brasil, para não falar dos “grandes brasileiros”. Vai, daqui do Norte da sua América, que agora é também minha, o açorianíssimo abraço de um grande fã do Brasil. Viva o Povo Brasileiro! Onésimo.» Não pude esconder a pena daquele sentir relativamente à minha amada Lusitânia; impunha-se-me um amigo desagravo. A diáspora, tantas vezes o repito, tem razões que a mátria não entende. Como esse ficar-nos a pisar qualquer nicada porque, por mais que a gente bata nela, são sempre pancadinhas de amor, mas se os de fora lhe tocam a gente sente. Pior ainda se nos vem disfarçada nesse velho nome «Lusitânia», pois aí a mátria ganha estatuto de avó e toda a gente sabe como é com as avós. Ai de quem lhes tocar! Por isso, completamente a despropósito das edições brasileiras em Portugal, ou mesmo da suposta atitude lusa contra os percevejos que João Ubaldo refere, vou contar uma história onde entra a nossa colectiva avó Lusitânia. Estava-se em 1980. Numa paragem na auto-estrada 95, em Connecticut, eu comprava um café. Na fila de espera à minha frente, um sotaque inglês, estrangeiro, que eu não conseguia identificar. O moço parecia europeu, mas o seu inglês não. Tema de antiga curiosidade, quis resolver dúvidas e perguntei. «Da Pérsia», respondeu. Pensei rápido (rapidamente, para puristas). Aiatola Khomeini e os 400 reféns americanos no Irão haviam gerado uma péssima imagem daquele país. Percebi. Este estava a apostar na ignorância dos americanos sobre geografia e história estrangeira, escondendo-se num nome antigo. Deixei passar. Ao fim e ao cabo, tinha o direito de se proteger. Anos depois, a Leonor e eu frequentávamos uma casa de chá em Providence. Conhecíamos a dona. Parecia francesa mas o sotaque não jogava com o estilo. Meses de curtas conversa-delicadezas junto à caixa. Um dia arrisco: «De que país é?» E ela: «Da Pérsia.» Bingo, toma lá mais essa Onésimo, e cala-te! Mas a persa foi mais longe: «E o senhor?» «Da Lusitânia.» O silêncio neste caso ficou no lado dela.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
O universo dos livros é semelhante ao das igrejas, com os seus Papas e devotos, as suas Bíblias, Tábuas da Lei, procissões e autos-de-fé. Um universo curiosamente imune à exponencial dessacralização das artes que marca este início do século XXI. Enquanto os territórios da música, do cinema, do teatro, da dança, da pintura e da escultura entram num processo de descontracção e inclusão, o território dos livros contrai-se e exclui. O mercado editorial e livreiro assemelha-se muito ao mercado dos bares e discotecas, com os seus porteiros inexpugnáveis decretando quem pode e não pode entrar, de acordo com o trajo, os hábitos e as relações sociais. A razão desta atitude de defesa é simples, no caso dos bares: só sobrevivem se souberem definir um território e uma tribo. As pessoas que os frequentam esperam encontrar ali os seus iguais, divertir-se no conforto da reafirmação da sua identidade e no orgulho da sua diferença. Já os livros nascem do impulso contrário; com tiragens potencialmente infinitas, portáteis, leves, imediatamente disponíveis em qualquer tempo ou lugar (ao contrário de todas as outras obras de arte), são o instrumento por excelência de democratização do saber e de livre entrada no mundo da cultura. Essa democratização parece hoje incomodar os leitores e criadores de literatura, acossados pelo crescimento de uma indústria editorial que torna vacilante a própria definição de literatura. Mas o que temem esses criadores e leitores? O valor de James Joyce terá diminuído pelo facto de Ulisses ter sido um best-seller em Portugal? Que prejuízo advém para a literatura da popularidade (ilusória ou real, mas, em todo o caso, financeiramente concreta) desta obra literária? Vanguardista, arrojado, difícil a não iniciados, Ulisses antecipa, na sua estrutura aberta e no seu cruzamento de estilos e géneros, a contaminação de modos de criação estética a que assistimos hoje. A reprodutibilidade do livro tem como principal inimigo a exiguidade do espaço dos seus pontos de venda. Quanto mais livros se produzem, menos tempo de exposição tem cada livro nas livrarias, o que reduz a possibilidade de impacto de um livro novo – e quanto mais literário (perturbador, diferente, exigente em relação ao leitor), mais difícil será dá-lo a ver. Se um romance dito histórico faz sucesso, mil outros serão publicados – precisamente porque é fácil copiar uma fórmula predefinida, o que é o contrário da literatura. E depois não há espaço para os livros que se estranham antes de se entranharem. Por isso é de saudar e apoiar o aparecimento de livrarias dedicadas à literatura, e imunes à pressão dos livros feitos para consumir e deitar fora. Mas há pedras travando esta engrenagem. A maior delas é a do temor dos autores em relação aos números de vendas: querem ser reconhecidos, e temem que, se forem demasiado conhecidos, isso lhes prejudique a apreciação crítica. É uma ideia que a realidade demasiadas vezes tem confirmado. Pensa-se que se a maioria dos livros mais vendidos são muito maus, isso significa que só minorias serão capazes de ler livros bons. Esse preconceito tem sido cultivado e acarinhado – porque reduz o investimento e o esforço – com efeitos desastrosos. Na inauguração da livraria da Alêtheia Zita Seabra proclama, orgulhosamente, veto de entrada a Paulo Coelho – embora não a Paula Bobone, como anotou judiciosamente Eduardo Pitta, o que demonstra a que ponto a política editorial e livreira é ainda moldada pelo conceito marxista de classe social. Na abertura da nova livraria Ler Devagar, o seu responsável disse que ainda estava a pensar se haveria lugar naquela livraria para António Lobo Antunes, porque nessa livraria os excomungados são todos os best-sellers – o que sinaliza, pelo menos, um critério claro de exclusão. Entretanto, fez-se grande e amável alarido na imprensa por mor da exclusão de um livro do escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro de uma cadeia de supermercados, mas ninguém parece questionar a exclusão, nos supermercados, dos livros de Antonio Cicero ou Eucanaã Ferraz, dois nomes maiores do ensaio e da poesia do Brasil. E, ao contrário da ficção, o ensaio e a poesia precisam de ser defendidos, sob pena de deixarem de ser publicados.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Tens pesadelos de vez em quando? Ainda bem, assim a vida parecer-te-á mais agradável. Senta-te bem na cama e ouve. Sonhas muito com monstros e com animais ferozes? Eu também. Os adultos é que não. Os pesadelos dos crescidos nadam noutras águas. A prestação da casa que quadriplicou, o FCP que ganhou outro campeonato, os macacos a mandar no mundo. Os pesadelos são treinos como o minimat ou os ensaios de ballet de que tanto gostas. Deitados e a dormir enfrentamos mais perigos do que Hércules, cujas aventuras tantas vezes te contei (a minha preferida é a do javali gigante). Se nós, as crianças, temos pesadelos com monstros e animais, é porque de noite voltamos a ser animais. Quando fores mais velha perceberás isso, embora nessa altura talvez já não haja grande distinção. Os bichos que nos comem. É normal que tenhamos medo de acabar na barriga de um desses, afinal viemos de dentro da barriga de um desses. Houve uma altura, dentro da barriga da tua mãe, que tu foste igual a um tubarão. Imagina a tua mãe com um tubarão na barriga. Voltemos à vaca fria. Imagina uma noite a trepar as escarpas de Bundibuygo, no sopé das montanhas da Lua, no Quénia, há quase cem anos. Sem telemóveis, sem GPS, sem nada. Imagina acampar à noite, sem luz, sem fogueira, porque chove torrencialmente. A escuridão é tal que nem topas a long grass que te rodeia. Mas eles estão lá. Tu sabes. O personagem desta história é o princípe de Gales e a data é 1930. Quem está a ajudar o príncipe é o barão Bror Blixen, que aparece no África Minha, um filme de que as meninas gostam muito porque é o Robert Redford que faz de Finch Hatton (também caçador e que na vida real era careca). O guia do príncipe desorientou-se e, assim, acabou a comitiva, sentada na selva, às escuras e à chuva com os leões a rugir a poucos metros. Um bom pesadelo, não achas? O que salvou a situação, conta Brian Herne (escritor e sobrinho de um famoso caçador), foi uma garrafa de whiskey que o príncipe tinha insistido em trazer, apesar de o guia lhe ter dito que não era necessário, que Fort Portal era já ali pertinho. A garrafa passou de mão em mão e a noite passou-se melhor. O medo permaneceu. Pedes-me sempre para te tirar os pesadelos e às vezes isso funciona. Um senhor, que te darei a ler quando fores mais velha, Primo Levi, viveu metade da vida com pesadelos terríveis. Eram terríveis porque ele tinha-os acordado, e não a dormir, como tu. E eram terríveis porque, em vez de leões, ele esteve frente a frente com monstros humanos. Um leão só distingue o que é para comer e o que não é. Os monstros humanos de Levi faziam distinções diabólicas. Matavam consoante o tipo de sangue, a língua que as presas falavam, ou aquilo em que as vítimas acreditavam. Com monstros desses não se pode adormecer, é preciso estar sempre bem acordado. Levi cansou-se, coitado. Não aguentou. Tu não sabes, mas quando te passo a mão na testa e te tiro os pesadelos, também tiro os meus. Ou pelo menos tento. Um senhor muito famoso, o Dr. Freud, não tinha os sonhos das crianças em grande conta. Dizia que os teus sonhos são simples, porque sonhas com o que te acontece. O Dr. Freud conta o caso de uma menina que tinha sido proibida de comer framboesas e que de noite falava nelas; também conta o sonho de uma menina que tinha ido passear de barco num lago e tinha ficado triste porque o passeio tinha sido curto. No dia seguinte contou que tinha sonhado com uma grande viagem de barco num lago. O Dr. Freud também achava que a maior parte dos sonhos das crianças – e de alguns adultos – eram bekemlichkeistraume: «sonhos de comodidade». Por exemplo, se tivermos sede de noite sonhamos que estamos a beber; a sede desaparece e assim evitamos acordar. O Dr. Freud estava enganado. Os pesadelos das crianças não têm necessariamente a ver com o quotidiano nem têm de ser bekemlichkeistraume. Quando sonhas que os leões estão ao teu redor, numa noite como a de Bror Blixen e do príncipe de Gales, sonhas com o quê? O medo não precisa de framboesas ou de passeios no lago. O medo está alojado numa parte do nosso cérebro, numa parte pequenina. Vem de um tempo em que lutávamos para sobreviver. Nós, as crianças, sabemos isso. Alguns adultos, como os monstros de Levi, também.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Em Abril, o portal Casa da Leitura pediu-me que escolhesse 10 «livros da minha infância» e explicasse, a curto prazo. Não dei a resposta de Bartleby («I would prefer not to») mas pensei: «Por que é que não me perguntam coisas que eu saiba?». Mas se alguém queria saber isso, talvez eu próprio devesse sabê-lo. Respondi mal. A minha infância foi há muito, nem sei quando acabou. Vasculhando no armário grande do passado (mapas, história e arqueologia interessam-me desde criança) esqueci os 10 livros, e de repente a lista enorme embaraçou-me pela impressão do «snob a mostrar o que leu»; sei que na Web escapamos à ditadura dos caracteres, mas outros limitavam-se a 10 livros ou menos, justificando laconicamente. E porquê dez? Até aos 15 anos, convencionando que a infância acaba aí, não há um top ten, mas 10 livros não era muito para a minha geração liceal e as contíguas. Para complicar, os livros da infância incluíam vários de que não gostara ou esquecera. Aceito que um inquérito dê um número indicativo e respeite uma noção pessoal de infância. Mas a resposta foi difícil. Não li «os Cinco» nem «os Sete», não quis uma lista canónica, com A Ilha do Tesouro, Salgari, O Romance da Raposa, O Principezinho, Robinson, Gulliver e outros estimáveis. Lera Os Três Mosqueteiros (e vira o filme), mas preferia O Conde de Monte Cristo (e vi o filme). O trauma de no liceu termos tido de resumir cada capítulo d’A Morgadinha dos Canaviais e d’As Pupilas do Senhor Reitor, arredara Júlio Dinis, e não apreciara os trabalhos forçados n’Os Lusíadas. Tinha de excluir Horizonte Perdido de James Hilton e Shane de Jack Schaefer (por sorte lidos antes de ver os filmes, e embora não se deva comparar filmes com livros, o certo é que estes eram bem melhores), e livros de Maugham, pois lera-os durante o secundário mas após a infância, o mesmo acontecendo com O Conde de Abranhos e Os Maias. Só conheci Astérix e Corto Maltese no fim da adolescência. E muitos «livros» da infância, precoce ou tardia, tinham sido revistas de BD como o Cavaleiro Andante e séries de aventuras como O Coyote, de J. Mallorquí. A minha infância e adolescência foram alheias à ideia de dever ler isto e não aquilo, ou primeiro isto e só depois aquilo. Não segui um plano de leitura. Segui a curiosidade, as sugestões e a aparente desordem pela qual o meu pai arrumara numerosos livros, alguns em locais fixos e nem sequer na mesma sala: obras de Verne, as colecções «Vampiro» e «Miniatura» até quase ao nº 100, Eça de Queirós ou a História de Portugal «de Barcelos», ocupavam estantes distanciadas. As obras de Maurice Leblanc, que preferíamos a Conan Doyle, estavam reunidas até começarem a desaparecer, passando eu a comprar as que vi em Lisboa. Para os policiais não fora necessário incitamento. Sem qualquer insistência, os meus pais convenceram-me a ler Os Maias (de Eça líamos no liceu A Cidade e as Serras; de Pessoa a Mensagem). Antes disso, o meu pai aliciara-me para livros de Verne, para Deuses, Túmulos e Sábios de Ceram e outros que li por gosto; aos 16 ou 17 anos deu-me uma biografia em francês, Mussolini, de Max Gallo. O Dr. Francisco Burgos, professor de Literatura Portuguesa, conseguiu que eu e outros gostássemos das cantigas de amor e de amigo (cujo estudo era árduo) e do Pessoa ortónimo, do qual passámos espontaneamente a Álvaro de Campos e Manuel Bandeira, seguindo-se Drummond e João Cabral. Já em Lisboa para estudar (pouco) Direito, li o resto do Pessoa disponível, a Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa encontrada na Bertrand em fins de 1965, etc. As leituras de então eram decididas por mim (salvo quanto a parte dos livros de Direito) mais do que pela família ou o ensino. Li Mau Tempo no Canal por causa de uma açoriana. Li Notas Contemporâneas porque um colega me lera passagens da correspondência de Eça com Pinheiro Chagas, interrompendo o nosso estudo de uma sebenta jurídica; A Estrada do Tabaco porque o meu cunhado mo sugeriu; Scott Fitzgerald (O Grande Gatsby, Terna É a Noite, Belos e Malditos) porque a minha irmã trabalhava numa tese sobre ele. Encontrei Borges e outros n’O Despertar dos Mágicos de Pauwels e Bergier. Por que li esse já não sei, mas fui feliz nas primeiras leituras (em 1968 devo ter entrado nas segundas) e, até hoje, nunca saí inteiramente delas.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
A Quetzal acaba de lançar em Portugal o primeiro dos meus romances póstumos – A Ninfa Inconstante (bela capa e tradução rigorosa de Salvato Telles de Menezes). Virão depois Corpos Divinos e Mapa. Sou um daqueles escritores, raros, que se tornou mais prolífico depois de morto. Em vida, como se sabe, publiquei apenas dois romances: Três Tristes Tigres (1965) e Havana para Um Infante Defunto (1980). Quando esta crónica surgir a público já deverá ser possível comprar nas livrarias espanholas o novo livro de Cortázar, Papeles Inesperados (Alfaguara), reunindo contos, poemas e auto-entrevistas do escritor argentino. Na noite em que aqui cheguei, ao Hotel Paraíso, já cá o encontrei – chegou em 1984 – meio morto de tédio, a vomitar coelhos brancos. Em Novembro próximo deverá vir a lume um novo romance de Vladimir Nabokov: The Original of Laura. Recordo que o meu querido colega russo-americano deixou instruções para que o referido romance fosse destruído após a sua morte. Nabokov morreu em 1977, e o The Original of Laura dormiu durante mais de 30 anos no cofre apertado de um banco suíço, até que Dmitri, o filho de Nabokov, decidiu publicá-lo. Murmura-se que a Penguin terá oferecido mais de um milhão de dólares para convencer Dmitri. Em sua defesa, Dmitri recordou que o pai também pretendeu destruir o original de Lolita, e que só acedeu a publicá-lo por insistência da mãe. Quanto a mim não tenho nada contra os livros póstumos, muito pelo contrário. Acho mesmo que nenhum autor deveria ser autorizado a publicar um livro antes de soltar o derradeiro suspiro. Num regime deste tipo a literatura deixaria de estar associada à vaidade, à vacuidade, à promiscuidade, e ao consumo. A torrente de títulos que todos os dias desagua, lama impura, nas livrarias do mundo inteiro, sossegaria um pouco. Editores, distribuidores e livreiros procurariam empregos mais respeitáveis e lucrativos, e os leitores poderiam escolher com melhor critério. Por outro lado, livres da opressão do tempo, e do momento, sabendo-se além do amor e do rancor, de toda a paixão e fúria, a salvo de qualquer ameaça, insulto ou pedrada – mesmo fátua –, os escritores poderiam mergulhar sem receio nos abismos mais profundos da alma humana, espreitar os desvãos interditos da sua história familiar, os podres odres da pátria, cutucar com vara curta Deus e o Diabo, enfim, derrubar ideias feitas a golpes de ideias um pouco menos imperfeitas. O que terá levado Vladimir Nabokov a pedir ao filho para destruir o manuscrito de The Original of Laura, ao invés de o fazer ele mesmo? Martirizar o pobre Dmitri? Aumentar o preço do manuscrito, e assim beneficiar a descendência? A verdade é que se Dmitri tivesse obedecido ao severo desejo paterno, 30 anos atrás, ninguém teria ganho nada com isso. Com a publicação de The Original of Laura todos lucram. Se o romance for muito mau, paciência. Nabokov não perde. Já nada o afecta. Se for bom, ou sofrível, ou se simplesmente permitir lançar uma vaga luz sobre a restante obra, ganham os leitores, ganham os académicos, ganha Dmitri, ganha a editora, ganham os distribuidores e os livreiros, e, finalmente, ganha Vladimir Nabokov. Sábio foi Fernando Pessoa. Todo ele – ou quase todo – póstumo. O poeta português foi tão clarividente que não só deixou quase toda a sua imensa obra por publicar, como confiou aos vindouros a tarefa de o construírem, enquanto poeta, conforme as exigências da época e as convicções de cada um (o caso da sua divulgação em Itália é exemplar). Pessoa teria conseguido ser o poeta que é hoje caso tivesse publicado metade do material que deixou inédito? Isto é: teria conseguido escrever a outra metade – afadigado em responder a críticos e detractores, em fazer-se entender, em não magoar os amigos? O que seria O Livro do Desassossego se Fernando Pessoa o tivesse publicado em vida? Uma obra de génio, sem dúvida, mas nunca esse jogo interminável, esquivo e fascinante em que se transformou. Não devemos recear as obras póstumas – e sim os leitores póstumos, como eu.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
O prejuízo dos maus livros é darem fraca noção da literatura. Falo dos livros literários, já se vê. Aviltam a própria ideia de literatura. E depois deduz-se que inepto não é o autor, mas a literatura, incapaz de se proteger dos ineptos. Isso é verdade. Não assim com o resto. Um mau livro de física é apenas um mau livro de física; esta em si mesma persiste incólume. No caso da literatura, o mau livro corrói a própria literatura, a havida, que o deixou surgir, e a por vir, que vai por sua vez afectar. Esse, aliás, o único critério: o mau livro é justamente o que deixa a literatura em mau estado. O que a deixa ficar mal: «Que raio há-de ser a literatura para que este sujeito considere isto literatura?» Depois desse critério fundamental admite-se alguma diversidade a respeito da descrição válida de «mau estado» ou do que significa «deixar ficar mal». Mas não tanta como se presume. Aqui há uns anos, por exemplo, andou em circulação esta má ideia de literatura: um bom livro é o que conta uma boa história bem contada. Havia romancistas que declaravam isto com ímpeto de evangelista. A pior consequência foi outros se deixarem crucificar depois de se convencerem de que o facto de militarem no campo oposto os tornava estrénuos defensores da verdadeira literatura. Morreram em vão e sem glória, estavam errados. A seguir vieram outras ideias de literatura, e afinal provaram ser as mesmas, logo seguidas de outras não menos mesmas. Mas eram ideias, sempre eram ideias irredutíveis aos livros e provando que lhes sobreviviam, as mesmas ou ainda modificadas. Estão a ver aonde quero chegar: cada livrinho individual só é possível por trazer em si, não o palerma do autor, mas uma ideia do que são em geral os livros de literatura. E há mais ideias dessas do que seria talvez aconselhável. Mas o pior é que nenhuma barra o caminho aos livros gerados por ideias rivais; e o verdadeiramente péssimo é que qualquer delas é incapaz de abortar os livros que gerou mas nunca crescerão a ponto de a substituírem, ainda menos destruírem. Estão a ver aonde quero chegar: as ideias sobrevivem aos livros mas os livros abastardam as ideias. A solução? Mais do que profilaxia impraticável dada a natureza da actividade em apreço, precisamos de cultivar as ideias e abandonar os livros que as rebaixam. O único prejuízo das ideias de literatura são os maus acessos. Quero dizer, os acessos em mau estado. Demora-se que tempos, sobressaltos, riscos diversos, salteadores. Algumas pessoas queixam-se de se perderem… oops! descai-me o teclado para o alegórico. Voltando ao ponto, precisávamos de acessos em bom estado… que são – nem mais! – outros livros, os elevados, aqueles onde essas ideias de literatura chegaram e se abrigaram, determinadas a não ir dali a mais nenhum lado. Numa palavra, precisamos de clássicos. Poe, por exemplo; Stendhal; ou Diderot, que não sei se é clássico (deve ser). O único prejuízo dos clássicos é serem absolutamente incapazes de se defender dos ineptos e dos arrivistas. Duradouros, mas molengas. Alguns, até frouxos. Não se protegem. Deixam-se ficar, quase melancólicos. Reconheço que se trata de aparência enganadora, mas ainda assim, ainda assim… Confiam na inteligência do leitor – valha-nos Deus! –, no discernimento da posteridade, e coisas dessas, que todos sabemos não existirem senão nas entrelinhas de uns quantos clássicos em vários volumes extensos. Proust, ou assim. Mas nunca aviltam a ideia de literatura, justiça lhes seja feita. Nunca pedem desculpa pelos próprios erros, nessa humildade palerma que por vezes cai bem entre os leitores. Nisso não são frouxos, justiça lhes seja feita. E também não se queixam, nem são invejosos, justiça lhes seja feita. Nem se gabam dos muitos milhares de exemplares que já venderam por todo o mundo, justiça lhes seja feita. Não, nada disso, os clássicos nunca deixam a literatura ficar mal, são bons para as pessoas, e as pessoas boas deviam ser boas para eles e só deviam lê-los a eles. Não sei, aliás, se não é já isso que fazem, perdão, se não é já essa a ideia que define, que distingue uma pessoa boa. Deve ser. As pessoas distintas só lêem os clássicos, perdão, as pessoas distintas só frequentam os clássicos. Assim está melhor. É assim que deve ser.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
José Pacheco Pereira apresenta na próxima quarta-feira este Portugal dos Pequeninos (Bertrand), selecção de textos publicados nos últimos anos no blogue de João Gonçalves. Às 18h30, na Bertrand do Chiado, em Lisboa. O livro chega às livrarias dois dias depois. Publicamos aqui um dos posts:
A LEGISLATURA PERDIDA Tenho aqui dedicado algum espaço à cultura enquanto, chamemos-lhe assim, função do Estado. Quando o blogue começou, tinha saído da direcção do São Carlos e afligia-me a progressiva degradação a que o sector vinha sendo sujeito desde que Carrilho fora substituído respectivamente por José Sasportes, Santos Silva (a vedeta socrática para a agitprop, quem diria), Pedro Roseta, Maria João Bustorff, Isabel Pires de Lima e o impensável incumbente, o advogado Pinto Ribeiro. Tudo junto, e salvo o curto interregno da direita, o PS «manda» na cultura desde os finais de 1995. Nos primeiros tempos, Carrilho — com o apoio de todo o governo a começar no então ministro das Finanças Sousa Franco — resolveu problemas, limitou estagnações e colocou (a expressão é dele) a cultura no coração da política. Houve quem chamasse a isso «dirigismo cultural», «Lang à portuguesa» ou «obsessão malrauxssiana». Todavia, as coisas faziam (e fizeram) sentido. Porquê? Porque a tudo presidiu — enquanto o primeiro-ministro de então assim o entendeu — um desígnio minimamente pensado e estruturado que, permita-se o trocadilho, colocou a política no coração da cultura. A cultura não era resto. Era razão. Sabe-se como acabou. Carrilho demitiu-se e Guterres refugiou-se na sua pusilanimidade para não fazer mais nada. A direita não interessa porque não usou a razão mas antes a velha «razão» da contabilidade. O PS de Sócrates, nestes quatro anos («uma legislatura perdida» como lhe chama Carrilho num documento divulgado pelo Expresso) votou o sector ao mais ignóbil desprezo a ponto de me questionar se vale a pena manter uma tutela autónoma com a designação de Ministério da Cultura. Isabel Pires de Lima ficou refém da sua inabilidade, da intriga, de Joe Berardo e de Mário Vieira de Carvalho. Os poucos actos que lhe são assacados tiveram a pronta intervenção do líder que a removeu assim que pôde. Veio Pinto Ribeiro — uma metáfora nula alimentada por cumplicidades várias nos jornais e nas televisões — e Sócrates chega às eleições deste ano com um redondo zero (ou menos do que isso) como balanço de um sector que Ribeiro oportunisticamente aceitou sem saber o que fazer com ele. No tal documento, Carrilho, com manifesta benevolência, fala de uma política cultural que classifica como «invisível, ilegível e incompreensível» como se tivesse existido uma. Fora Carrilho e duas ou três almas do sector ligadas ao PS, não vi mais ninguém — designadamente gente que durante dois mandatos presidenciais distintos teve responsabilidades de assessoria nesta área e que agora, sentada no conforto de um bom retiro fundacional, só derrama frivolidades em jornais — apontar o dedo ao admirável líder e à sua imperdoável omissão. Como escreve Carrilho, é fundamental, num país periférico e pobre que pouco mais tem, valorizar o contributo da cultura e da criação «no PIB, no emprego, na coesão, na competitividade» e que «não reconhecer isto é, hoje, de uma cegueira tragicamente irresponsável.» Sócrates, ao contrário do que ele imagina e a propaganda expele, deixa um país mais burgesso embotado em anúncios tecnológicos que não resolvem um átomo do problema da qualificação com que finge preocupar-se. Pinto Ribeiro não conta apesar de se esforçar tanto para a sua imensa vaidade aparecer na fotografia. A «legislatura perdida» tem, por isso, apenas um rosto. O rosto de Sócrates, o verdadeiro ministro da Cultura destes quatro anos remetidos para o velho pântano de 2001.
Primeiras edições de obras de Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, António Nobre ou Antero de Quental estão entre os 1055 lotes que vão a leilão no Palácio do Correio Velho, em Lisboa, entre quarta e sexta-feira. Exposição de todos os lotes até amanhã.
Luis Fernando Verissimo está a dois capítulos apenas de terminar o seu novo romance, Espiões. «É a história de um homem que trabalha numa editora, lendo originais, que recebe um manuscrito de uma moça, pela qual se apaixona. E vai investigar se o que ela está escrevendo é romance ou não, se é uma confissão ou não», afirmou o escritor brasileiro à revista Pública.
Nada como começar uma crónica com duas palavras estrangeiras. Dão azo a comentários como «Ah! este cronista sabe falar estrangeiro», ou «Ah! este cronista tem a mania que é inteligente», coisa que é sempre boa coisa: fazem-se comentários.
Sou um rapaz pacato mas atento. Leio a LER de fio a pavio, desde todas as letrinhas da capa até ao ponto final da publicidade da contra capa. E, nessa leitura intensa, encontro várias razões para a crónica seguinte. Tento não ser tentado por elas, percorrendo as livrarias à procura de assunto, mas na última LER vi, li e decidi: chega! Isto é extremo!
Um extremo manifestado pelo Paulo Ferreira e pelo Nuno Seabra Lopes no seu «Booktailoring». Falam do que sabem, os rapazes. Das coisas dos livros, seus negócios e termos estrangeiros. E, sabedores, apresentaram sem aviso o extreme publishing.
Quem leu sabe do que falo. Quem não leu não merece que explique porque até parece que não comprou a LER. Mas eu explico. Em poucas palavras, mais portuguesas: short best-sellers. Não confortáveis com a bestsellerização, eis que nos chega a shortbestesellerização. Enfim, coisa mais pequena mas mesmo assim muito importante.
São os livros escritos como peças jornalistícas, apresentados para, num termo científico, «fazer render o peixe» de um assunto actual. E cobrem as livrarias, escondendo o que interessa ler. Enfim, são no fundo o 24 Horas em formato de livro.
Nada contra. Ou melhor, tudo. É que este papel de jornal tira espaço nas livrarias a outras coisas. Tipo... livros.
MAL
Gosto de ler a LER. Principalmente uma crónica chamada «O Bem e o Mal», escrita por um jovem talento que, nitidamente, vai longe na vida. Acabo por, depois da trigésima quarta leitura desse naco de saber, ler o resto da revista sem enfado. Mesmo que, e me perdoem os restantes colaboradores, todos fiquem aquém.
No mês passado li com quase tanto agrado o «Booktailoring», do Paulo Ferreira e do Nuno Seabra Lopes. Falavam-se de coisas com nomes estrangeiros e eu, que necessito de aprender qualquer coisa de línguas para os curso de Novas Oportunidades lá do liceu, tomei várias notas. Extreme publishing. Short best-sellers. Enfim, um manancial de termos estrangeiros que nos fazem sempre falta para uma conversa de café:
– Então e o Benfica ontem, hein? Levou três do Nacional e nem piou.
– Ó Joaquim, isso comparado com o extreme publishing não traz mal nenhum ao pessoal nacional.
Editar sem que houvesse amanhã, em português. Mas, como certamente reparam, colocar essa frase no diálogo em cima não tem mesmo o mesmo efeito.
Eu acho bem. Acho que se deve sempre editar para o público de agora e sem concessões. Porque um editor que se preocupa com o futuro costuma preocupar-se mais ainda com outra coisa: as devoluções da mercadoria das livrarias. Porque é disso que se trata, meu caros: mercadoria. O Fernando Pessoa dizia que livros são papéis pintados com tinta. Com toda a certeza. A literatura está muito sobrevalorizada e eu não me chamo António Guerreiro para me andar sempre a queixar do estado a que chegou o estado das livrarias.
São cinco da tarde e eu releio, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. É sobre dois mundos que de repente se tocam e quebram, não sabemos bem como, uma barreira. No início, o protagonista retoma a leitura de um romance que encetara uns dias antes. No regresso à sua quinta, de comboio, após resolver assuntos urgentes, começa a «interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho das personagens». Logo que pode, fecha-se no escritório. Não está para ninguém. Afundado na sua poltrona preferida, enquanto a mão esquerda acaricia «uma e outra vez o veludo verde» do cadeirão, mergulha nos últimos capítulos do livro. Mergulhar é o verbo certo para descrever o que se passa. Embora ainda esteja consciente da suavidade do veludo e dos cigarros ali por perto, ele experimenta um «prazer quase perverso»: o de sentir que a realidade à sua volta se afasta (ou dissolve) gradualmente. Linha a linha, palavra a palavra, ele está cada vez menos no escritório e cada vez mais dentro da história, «deixando-se ir de encontro às imagens que se concertavam e adquiriam cor e movimento». Dentro da história, há uma mulher e o seu amante, determinados a viverem até às últimas consequências uma paixão que as circunstâncias mantiveram em segredo. As circunstâncias resumem-se a um obstáculo: o marido dela. Escondidos numa cabana, os amantes discutem. A mulher tenta evitar o crime (há um punhal escondido que espera a sua hora), procura enredar o amante com os gestos do amor, mas essas carícias apenas desenham «abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir». O destino está traçado; tanto o deles como o da vítima. Ajustam-se os pormenores, planeia-se cada acto, previnem-se os acasos. À porta da cabana, despedem-se e separam-se. Ela segue por um caminho, ele pelo caminho oposto, correndo através dos bosques até distinguir, na bruma do crepúsculo, a alameda que leva à casa. Tudo acontece como previsto: os cães não ladram, o mordomo está ausente. Ele entra em casa e segue as instruções. Atravessa a sala azul, a galeria. Sobe uma escada. Lá em cima, no primeiro andar, uma porta aberta. Punhal na mão, ele apercebe-se da luz que entra pelas janelas, vê um cadeirão de veludo verde e sentado, de costas, infinitamente vulnerável, o homem que lê, absorto, um romance. O marido. O leitor. A dupla vítima. São cinco e picos da tarde. Acabei de reler, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. Estou sentado numa cadeira de plástico cor-de-laranja, diante de uma mesa de plástico cor-de-laranja, num dos topos da Feira do Livro de Lisboa. Na mesa, duas pilhas de livros de capa preta. Tenho a esferográfica a postos, à espera dos meus leitores (essa vaga categoria). Será que aquela rapariga de óculos? Não. O rapaz com o suplemento cultural debaixo do braço? Não. Aquela senhora com cara de quem vai à Gulbenkian todas as semanas? Também não. As pessoas passam, espreitam, seguem. Os adolescentes, carregando grossos volumes de Stephenie Meyer que devem fazer mal à coluna (fora o resto), nem olham. A poucos metros, António Lobo Antunes e uma fila gigantesca dos seus fiéis leitores (uma categoria nada vaga). O céu ameaça chuva, mas não cumpre. De mesa para mesa, os autores que não se chamam Lobo Antunes trocam piadas. Sempre se passa o tempo. Nos seus campeonatos particulares de autógrafos, o resultado final é sempre 1-0, 1-1 ou 0-0. Antes do meu golo de honra, antes do meu prémio de consolação, penso no conto de Cortázar. A continuidade dos parques. A ficção que entra na realidade porque a realidade está já dentro da ficção. No Parque Eduardo VII, ponho-me a escrever mentalmente um texto: é sobre alguém que está numa sessão de autógrafos, sem dar uso à caneta, e esboça uma crónica em que um leitor, como o assassino de Cortázar, atravessa Lisboa e vai ter com ele, ao exacto local onde os Parques (o verdadeiro e o imaginado) se tocam. Contra todas as evidências, o leitor aparece mesmo. E o texto, a crónica real sobre a crónica inventada, também.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Como é que se faz uma grande revista? Uma grande revista, como uma obra-prima literária, costuma ser um acidente - um fruto não tanto de ambição e arrogância como de sorte, talento e inconsciência. Tentar fazer uma grande revista faz tanto sentido como decidir escrever o Ulisses - meio caminho andado para a depressão, para a falência técnica, ou para Finnegans Wake.
Há um problema adicional: as poucas pessoas que têm uma vaga noção de como fazer uma grande revista (e não se pode ter mais do que vagas noções) têm de convencer pessoas que não sabem como fazer uma grande revista a deixá-las fazer uma grande revista. Este processo tortuoso, vulgarmente designado como "financiamento", é um cruel e ciclópico circuito de obstáculos que faz com que as grandes revistas tenham a periodicidade de asteróides ou golos do Yannick Djaló. Até a New Yorker precisou de um bilionário maluco chamado Raoul Fleischmann que a sustentasse durante as catastróficas primeiras tiragens.
Portugal teve algumas boas revistas, mas só uma grande revista. Chamava-se Kapa. Não teve um Raoul Fleischmann. Nasceu, durou três anos e morreu. A constelação onomástica ainda hoje encandeia: Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, Carlos Quevedo, Leonardo Ferraz de Carvalho, Rui Henriques Coimbra, Edgar Pêra, Manuel Hermínio Monteiro, Agustina Bessa-Luís, Maria Filomena Molder - e isto é só o primeiro número. Não tendo provavelmente o mesmo valor geracional do Spectrum ou do Verão Azul, a Kapa queimou combustível emocional suficiente para ter deixado órfãos e impulsionado alguns ricochetes menores, como a blogosfera; é difícil encontrar um blogger que não tenha uns exemplares guardados - no armário ou na cabeça. Os blogues portugueses foram o produto de uma geração de amadores talentosos que se comportavam como se estivessem a ser pagos para aquilo. A Kapa foi o produto de uma congregação de profissionais talentosos que se comportavam como se estivessem a fazer aquilo de graça. O resto era atitude.
Se a Kapa parece um ícone pouco promissor para um exercício de revivalismo nostálgico, é porque a própria revista fazia esse tipo de exercícios melhor do que ninguém. Aliás, uma das razões para a revista ter envelhecido tão bem é seguramente o seu desprezo pelo presente, um desprezo camuflado pelas opções temáticas e pela perseguição editorial ao zeitgeist, mas evidente no estilo. E pode-se falar com alguma segurança num «estilo Kapa», como se fala no «estilo New Yorker» - um espírito tutelar a que cada colaborador aderia sem diluir a sua individualidade. Qualquer artigo da Kapa pode ser lido hoje como se tivesse sido escrito na semana passada ou nos anos quarenta. Mesmo os textos mais agrilhoados ao presente (a revista durou de 1990 a 1993) se assemelham aos tais exercícios revivalistas: lemos com prazer a paródia de uma análise académica ao fecho de emissão da RTP antes de nos lembrarmos que não estamos a ler uma evocação nostálgica, apelando à memória comum, mas sim um devaneio sobre o que era, na altura, uma ocorrência diária.
O que é que fazia da Kapa uma grande revista? A pergunta é mais fácil de responder a posteriori: basta pegar na ficha técnica e descrever o que lá está. Mas um dos ingredientes comuns de uma grande revista é o facto de parecerem especificamente desenhadas para irritar as revistas que, não sendo grandes, são muito boas. A Kapa, por ser atípica, não tinha rivais; mas tinha um antónimo espiritual na Grande Reportagem, uma boa revista que não conseguia ser grande. Uma das piadas recorrentes nos primeiros números da Kapa era a periódica referência pouco elogiosa a Miguel Sousa Tavares, que viria a ser entrevistado pela revista alguns meses depois, queixando-se amargamente de que «vocês não gostam de mim lá na Kapa», o que pode ser traduzido como «eu não gosto de vocês lá na GR». A amargura é compreensível. Numa altura em que o conceito canónico de jornalismo responsável implicava um cocktail de apartheid, Guerra Fria e Irão/Iraque, os repórteres da Kapa andavam a entrevistar porteiros do Kremlin (o outro), a comparar martinis, e a testar intrepidamente hotéis na Ericeira.
A pose dandinesca pode confundir-se com arrogância; afinal, deplorar o presente é o cúmulo da indolência. Mas a Kapa não deplorava o presente: limitava-se a tratá-lo como se fosse efémero, e como se o verdadeiramente efémero, o trivial, tivesse mais probabilidade de durar, ou pelo menos de conquistar uma afterlife pop. O número inaugural continha uma evisceração de Paulo Castilho assinada por Miguel Esteves Cardoso, ao nível, por exemplo, do que Mark Twain fez a James Fenimore Cooper. A vítima, no entanto, é esventrada com ternura, e com a consciência de que se trava uma batalha perdida. O romance Fora de Horas durou mais que o seu carrasco, o que acaba por validar a tareia.
Uma consulta aos primeiros doze números da revista devolve muitas situações semelhantes. Evidentemente, a sintaxe era imaculada, cada opção estilística era a melhor possível. Não havia erros. O que havia, em abundância, eram gralhas, algumas nos lugares mais ingratos. Um texto intitulado «Iniciações» (nº1) inclui uma chibatada perfeitamente gratuita de Vasco Pulido Valente a Baptista Bastos, contaminada com um estilhaço ortográfico: «Bêbê nessa altura não escervia [sic] e depois não conseguiu aprender.» Em qualquer outra publicação do mundo isto seria uma ignomínia: acusar alguém que não sabe escrever de não saber «escerver» é um hara-kiri para a história dos hara-kiris. Na Kapa é um flirt com a irrelevância. A negligência acaba por reforçar indirectamente o argumento: podemos trocar a ordem das letras e mesmo assim as nossas palavras são melhores que as vossas. E eram. Para todos os efeitos, não se voltou a escerver assim em Portugal.
Nem só de gente fútil vive a biblioteca fútil. Académicos sisudos, como Roger Keeran e Thomas Kenny, também produzem clássicos da futilidade. A obra do duo, de 2004, foi publicada em português pelas Edições Avante!, e já damos o devido desconto exclamativo. Um livro das Edições Avante! é sempre uma longa exclamação, em forma de eufemismo, apologia ou desconversa. O Socialismo Traído é como aqueles militantes comunistas que atacam o ex-militantes comunistas com palavrões e Kinder surpresa: estão chocados e indignados com a traição. O traidor desta história é Gorbatchov, o homem da mancha na testa. A União Soviética era uma sociedade progressiva e decente, onde havia a paz, o pão, saúde e habitação. Segundo Keeran e Kenny amorosamente informam, o nível de vida era alto, os trabalhadores possuíam bibliotecas e, por exemplo, na Quirguízia toda a gente foi alfabetizada. Não havia nenhuma «crise» na União Soviética, apenas «forças sombrias» que encontraram um «provinciano educado» que as representasse. Quem são essas forças sombrias? Empresários, gente que faz coisas para o seu «ganho pessoal» (que nojo) e que tinha instituído um Estado dentro do Estado: «Os problemas políticos do Partido Comunista estavam intimamente relacionados com a corrupção. Ainda que a causa e o efeito não fossem todos na mesma direcção, as normas partidárias baixas, a fraqueza ideológica, o formalismo, o cinismo e outras fraquezas políticas entrelaçavam-se com a corrupção. A corrupção deu a alguns funcionários do Partido Comunista e do Estado um interesse material na empresa privada. Estes funcionários podiam não estar directamente envolvidos no comércio ou na produção privada, mas de facto estavam envolvidos na sua própria forma de fazer dinheiro ilegalmente». Usando Gorbatchov, esta clique implodiu aos poucos os planos quinquenais, a proibição de partidos, a imprensa controlada ou as invasões de Estados soberanos, como o Afeganistão. É, como se vê, escumalha. Gorbatchov recuperou velhas ideias de Bukharin e outros, que tinham cometido «erros» no campo da «liberdade» económica, O Partido Comunista da União Soviética, convém que se diga, nunca foi monolítico, e sempre teve debates profícuos. Por exemplo, o debate que Bukharin teve foi tão profícuo que ele foi executado em 1938. Infelizmente, ninguém fez o mesmo a Gorbi. E deixou de haver esperança para todos aqueles que queriam um mundo com menos desigualdade, ganância, ignorância e injustiça. E também para aqueles que sonhavam com desenhos animados divertidos e com mulheres sem buço. Gorbatchov, esse grande mafioso, cedeu em toda a linha. Quando ele decidiu transmitir pela TV o Congresso do PCUS, houve (e fico comovido com esta nota) uma quebra de vinte por cento na produção dos proletários soviéticos, entretidos a ver a novela política em vez de laborarem alegremente no kolkhoze, sorrindo no alto dos seus corpos musculados, ladeados de raparigas louras com altas espigas de trigo. O Socialismo Traído é um maravilhoso livro fútil porque parece aqueles tios caturras que dizem que nunca ninguém chegou à Lua, e que foi tudo filmado em Hollywood. Ora vejam: «Qual foi a causa do colapso soviético? A nossa tese é a de que os problemas económicos, a pressão externa e a estagnação política e ideológica que a União Soviética enfrentava no início da década de 1980, isoladamente ou em conjunto, não provocaram o colapso soviético. Ao invés, este foi despoletado pelas políticas de reforma específicas de Gorbatchov e dos seus aliados. Em 1987 Gorbatchov voltou as costas à linha de reformas iniciadas por Iuri Andrópov, linha que o próprio Gorbatchov seguiu durante dois anos». Faz sentido. Que sistema é que entra em colapso por causa de problemas económicos, pressão externa, estagnação política e ideológica e, acrescente-se, uma derrota militar? Está-se mesmo a ver que a culpa é do manchinhas. Andávamos todos convencidos de que o «(…) socialismo soviético como sistema económico planificado não funcionava e não podia trazer abundância, porque fora um acidente, uma experiência nascida na violência e mantida pela coacção, uma aberração condenada ao fracasso pelo seu desdém da natureza humana e a sua incompatibilidade com a democracia». Mas, como vêem, não foi nada disso. A culpa foi do manchinhas. Somos uns fúteis.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Com dois títulos da vencedora do Man Booker Internacional Prize no seu catálogo (Fugas e O Amor de Uma Boa Mulher), a Relógio d'Água prepara-se para publicar mais dois: a tradução de The View From Castle Rock (início de Julho) e a última antologia de contos de Alice Munro, Too Much Happiness (Outubro).
Manuel Villaverde Cabral, Hermínio Martins, Philip Pomper, Theodore Porter e Paul Seabright são alguns dos conferencistas convidados para debater «Evolução - Darwin e as Ciênciais Sociais» durante dois dias (3 e 4 de Junho), no auditório Seda Nunes, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Programa completo aqui.