O 'Reduto' de Dinis Machado
Depois de O Que Diz Molero, a Quetzal reedita agora o volume Reduto quase Final seguido de Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, com prefácio de Clara Ferreira Alves e ilustração de António Jorge Gonçalves. Sexta-feira nas livrarias.
Chega de Camus — e das minhas horas de testa franzida pela narração do espectáculo de viver de Clamence (também estou no livro, pois claro, na condição de leitor e de duplo). De resto, o que depõe a favor deste escritor em relação a muitos outros, é ter sido guarda-redes de futebol. Levámos sempre em conta (o meu grupo de leituras, na juventude) essa tão singular posição do homem que não tem ninguém atrás de si. Lugar ingrato. O golo sofrido divide-se sempre pela equipa. Qualquer apóstolo da fraternidade dirá isto em local aberto.
Mas deixemos, por agora, as coisas literárias que, com as experiências, as fadigas e as rugas, se fazem nossa bagagem. Não tenho coração pequeno, como um avarento que eu conheço, nem tenho a cabeça enorme do simpático miúdo da anedota, a quem a mãe disse para trazer cinco quilos de batatas na boina. Tenho algumas coisas, poucas coisas — e muito do que não tenho foi porque não quis. Outras perdi-as — até sem ser ao jogo.
Quando o Góis imitava o Clark Gable e me chamava Humphrey Bogart (saindo da leitaria como quem entra em E tudo o Vento Levou), eu quase estava à espera que aparecesse um enviado do Walsh com um contrato para eu fazer High Sierra. O actor andava-me no fato, na maneira como puxava pelo cigarro, numa certa tensão palavrosa em que me supunha magnético, faltando-me contudo os dentes saídos e a cabana do fugitivo, os sinais do esgotamento e a face cavada, a Ida Lupino, o candeeiro de petróleo e o cerco. Também não tinha a publicidade, os dólares, o uísque aos litros, nem a estatueta de ouro que me caberia na vitória. Mas tinha (como o Góis) a imitação do destino, o prazer supremo de a assegurar, acima de qualquer tristeza e das horas mais lentas e fechadas.
O cabelo já me começava a cair (a ele também), mas éramos mais novos e resistentes do que essa pequena desgraça. Tínhamos as mãos desocupadas de crime e de maldade (pelo menos, em proporções calamitosas, o que de resto suponho que nunca aconteceu) e cheias de contornos amorosos, em escadas escuras de namoradas fugidias. Seria chato se morrêssemos no escritório, ou numa cama, com gripe — e não morrêssemos numa viagem ao Árctico, num bordel com direito a champanhe, ou numa tempestade de sentimentos onde a vida se jogasse da cabeça aos pés (as minhas leituras de Conrad ou Jack London entravam, naturalmente, no improviso). Na folga entardecida das grandes aventuras, todos os dias adiadas, tínhamos esse jeito de estarmos encostados à esquina que nos transformava, sem que nada ficasse, em estampas para todo o sempre. As mulheres da nossa faina juvenil que decorassem, então, esses retratos perdidos, emanações de actores em estado sólido, matéria do fingimento mais fugaz, em ruas apertadas e percorridas de sonho — quando já cá não estivéssemos para amarmos e sermos amados. O que, indiscutivelmente, merecíamos, não só por sermos um pouco idiotas e simpáticos, o que é natural, mas por sabermos assegurar, com a liberdade mais poética, um projecto de sedução que se comprava em bilheteira barata, pleno de doação sentimental — e que se estendia a tudo o que era (para além do cinema real que nos carimbava de multidão e de rotina), a vocação romântica do mundo.
Vejo isso agora. As dioptrias ajudam.