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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

«Diga a esses portugueses que Portugal também é meu... por mais que eles queiram o contrário»

João Ubaldo Ribeiro aqui reagindo a esta notícia. No blogue das Edições Nelson de Matos é ainda possível ler a mensagem do Prémio Camões 2008 dirigida a Ancelmo Góis, cronista do jornal O Globo:

 

Querido Ancelmo,
Só para mostrar como este mundo é curioso. No mesmo dia em que eu recebia a notícia de estar sendo mais uma vez censurado em Portugal, assinei contrato para a publicação em inglês do mesmíssimo livro, em tradução de Clifford Landers (que também traduziu
O Sorriso do Lagarto), com o título de The House of the Fortunate Buddhas. A prestigiosíssima editora, conhecida pela suas edições de clássicos universais, se chama Dalkey Archive Press e é vinculada à também prestigiosa Universidade de Illinois. Enquanto isso, na brava Lusitânia, onde no geral os brasileiros são tão apreciados quanto percevejos, entro na galeria dos pornógrafos proscritos e o Viva o Povo Brasileiro ainda está sendo examinado para ver se pode ser vendido na rigorosa rede. Pôde ser adotado duas vezes (o máximo que a lei permite) pelo Ministério da Educação da França como o livro-texto para o Exame de Agregação de língua portuguesa, mas tem que ser examinado por vendedores de supermercado, para ver se é leitura permissível aos portugueses. Abraços moralizados do velho
João Ubaldo, 28.04.2009

John Dos Passos reeditado

Publicado pela primeira vez em 1925, Manhattan Transfer, de John Dos Passos (1896-1970), é um dos clássicos da literatura norte-americana do século XX que a Presença acaba de lançar nas livrarias, com introdução (disponível aqui) de Maria do Carmo da Cunha Santos, coordenadora do Centro Cultural John dos Passos, na Vila da Ponta do Sol, Madeira: «John Dos Passos é de origem portuguesa. O seu avô paterno, Manuel Joaquim Dos Passos, deixou a ilha da Madeira rumo aos Estados Unidos da América em 1830.»

Abstinência, disse ele

Abstinência. Esta palavra provoca erosão mental acentuada, tosse convulsa, aftas e engarrafamentos. O Papa deu o flanco ao associá-la à ineficácia do preservativo, o que possibilitou os sintomas descritos. Pois bem, falemos dela sem falar de sida. Só por falar.
Um dos mandamentos inquestionáveis dos nossos dias reza que só somos felizes e dignos se todas as bocas, pilas, pipis, rabos e mamas se relacionarem sem constragimentos de espécie alguma. Pode o Planeta sobreaquecer, podem os irmãos Castro continuar a prender poetas e jornalistas, pode o tigre da Sibéria desaparecer, pode tudo. O que não pode deixar de correr é o sexo livre. As crianças, em princípio, ainda são intocáveis, tudo o resto vai para a tosta mista.

Se esse mandamento está correcto, a abstinência sexual é uma coisa altamente perigosa, assim ao nível do penálti à Panenka. Claro que há quem diga que as doses elefantinas de antidepressivos e ansiolíticos que os povos sexualmente mais liberais engolem – os escandinavos, por exemplo – não são propriamente compagináveis  (como dizem os parolos) com a suposta felicidade orgástica alcançada à custa da supressão da abstinência. Talvez seja do frio. Ou do excesso de bacalhau fresco.
Nos hindus, a brahmacharya (castidade absoluta) é uma salada que liga a abstinência sexual à autodisciplina e à salvação. No Kangra, região do Himachal Pradesh e terra dos gaddis, é habitual ver uma ou duas mulheres – por aldeia – vestidas como homens. Usam roupas masculinas e cortam o cabelo rente. São as sadhins, forma feminina do masculino sadhi – asceta. Recusam o sexo. Assim só. E, imaginem, não é por ordem do Papa nem vivem em conventos. E, imaginem, sobrevivem.
Na louca Madrid, na movimentada Londres, ou na cosmopolita Fervença, travar a aptidão sexual será assim tão pecaminoso? Que filmes perdemos quando não atingimos os 10 parceiros mensais? Paga-se mais IRS?
Os nossos irmãos muçulmanos entendem que nos portamos como bonobos (ou pelo menos um primatologista muçulmano entende isso). Os nossos irmãos muçulmanos são um bocado chimpanzés: grande agressividade macho-macho e intensa dominação masculina sobre as fêmeas. Nós já fomos assim. Agora somos mais neuróticos: nem as crianças escapam.
Voltando à vaca fria: se um homem  desistir de ir  para a cama com a quinta parceira da semana é menos homem por isso? Se uma estudante alemã decidir que para o ano só chupará duas pilas diferentes, a sua condição político-social sofrerá barbaridades?
Os mazatecas dizem que «ficar limpo» (tsjé) dá sorte às colheitas de milho. É uma perpectiva.  E parece que essa mania é pré-colombiana, portanto anterior à cristianização. Não há milho em Londres nem em Madrid (em Fervença não digo nada) e nada me diz que o euromilhões beneficia os que disciplinam os genitais. Deve haver outra saída.
O velho Reich julgava ter descoberto a energia vital do Universo: a orgone. Essa coisa – é um bocadinho doloroso de explicar – seria libertada pela tensão orgástica; seria azul e seria a fonte da vida. Reich queria toda a gente a foder. Antes assim. Ao menos um bom motivo.
Infelizmente, do meu ponto de observação – a terceira prateleira da despensa – as coisas são mais simples. Abstermo-nos de fazer sexo sempre que nos apetece não é nem terapêutico nem moralmente elevado. É apenas normal. Passo a explicar: exceptuando os fanáticos religiosos, todos entendemos que evoluímos a partir dos macacos. Passámos a falar, a escrever, a ver cinema, a sofrer pelo Benfica; deixámos de limpar o rabo com os dedos e começámos a desenvolver teorias que justificam o assassínio em massa. Naturalmente que nos libertámos do esconso hábito de saltar para cima da nossa avó apenas porque está calor.
Resumindo: seja porque são muçulmanos, seja porque são católicos, seja porque não acreditam no Reich, seja porque não querem ficar viciados em comprimidos, descubram as vantagens de uma vida livre da publicidade a chocolates associada a mulheres nuas.
Se tal não vos bastar, pensem nisto: os gorilas são feios.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

As invenções de Morell

Livros de fotografia há muitos. Fotografias de livros há ainda mais. Já livros com fotografias de livros (isto é, livros preenchidos exclusivamente por imagens de lombadas e texturas de papel coberto de signos negros, obsessões de fotógrafo bibliófilo) não serão tantos assim. Eu, pela minha parte, só conheço um: o magnífico A Book of Books, de Aberlardo Morell (Bulfinch Press, 2006; versão reduzida do volume original, em grande formato, de 2002). São 52 imagens a preto-e-branco, irrepreensivelmente enquadradas, que funcionam como uma declaração de amor aos livros e à sua natureza física, à sua robustez e à sua precariedade, ao seu poder e ao seu mistério, sublinhada a espaços por citações de escritores (Emily Dickinson, Nathaniel Hawthorne, Jane Austen, Jean Cocteau, Stéphane Mallarmé, entre outros) que glorificam o lugar do livro no mundo.
Curiosamente, a epígrafe de A Book of Books é uma frase célebre de Jorge Luis Borges («I have always imagined that Paradise will be a kind of library», em inglês), frase cuja tradução desastrada fez com que a Byblos ostentasse durante a sua curta vida, numa das paredes, a ideia de que o Paraíso, para Borges, seria semelhante a uma «livraria». Talvez estivesse desde logo neste lapsus linguae, nesta confusão entre venda de livros e partilha de livros (a biblioteca em que pensava o autor de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius), o prenúncio do desastre em que a Byblos, menos de um ano após abrir as portas, se tornou.
Se viesse a Lisboa hoje, Morell encontraria decerto, nos três mil metros quadrados da que chegou a ser a maior livraria portuguesa (neste momento a ganhar pó enquanto se aguarda o desfecho de um complexo processo de insolvência), o tipo de material que mais gosta de fotografar. Refiro-me aos livros que exibem, como cicatrizes ou tatuagens, as marcas da violência que os meios hostis lhes provocam. Volumes em que as manchas de humidade parecem veios no mármore, livros carcomidos, molhados ou sujos de lama, encadernações antigas transformadas em ruínas. Muitas vezes, a câmara de Morell parece um olho que deambula pelo que sobrou de um naufrágio. E o fim da Byblos foi isso mesmo: um naufrágio. Um naufrágio cujos restos podem ser entrevistos, nas Amoreiras, pelas janelas e montras da loja nunca desfeita.
Se quisermos resumir tudo numa palavra, é a materialidade dos livros que fascina Morell. Além da visão, estas imagens convocam essencialmente o sentido do tacto. Apetece tocar nas palavras em relevo de um livro de provérbios para cegos, editado em 1841 (antes da adopção oficial do Braille). Ou seguir com a ponta do dedo as circunvoluções de um livro com páginas tão onduladas que parecem um perfil estratigráfico. Noutros casos, a fisicalidade é mais subtil ou irónica: veja-se o abraço entre os livros de Charles Dickens e Ellen Ternan (amantes na vida real).
De uma forma ou de outra, há sempre um grau de encenação nestas imagens. Na fotografia intitulada Dois livros de astronomia, por exemplo, o telescópio da gravura de um deles observa a galáxia representada no outro. Junto a uns versos de Samuel Butler, que falam dos livros como «almas aprisionadas», à espera de que alguém as retire da prateleira e as liberte, vemos um retrato feito por Raphael, de um homem que espreita, nas páginas ligeiramente entreabertas, como de uma cela. E numa página qualquer de O Adeus às Armas, de Hemingway, o foco da máquina resgata apenas algumas palavras («inside», «felt», «my hand», «went», «my», «very», «afraid», «however»), lembrando a existência dessas palavras por si mesmas, independentemente da sua função utilitária no interior do texto.
Há também a solidão dos livros, evocada por Nicholson Baker no prefácio: «A maior parte das vezes, as páginas vivem as suas longas vidas na escuridão, mantendo escondidos os fardos de tinta que cada uma delas carrega, muito apertadas umas contra as outras, não comunicando seja o que for, até que de repente, como a lâmpada do frigorífico que parece estar sempre ligada mas quase nunca está, a uma delas é dada a oportunidade de falar. E ela fala.» É esse momento em que a página se acende que Morell capta, com a delicadeza própria dos amantes.
 

Crónica publicada na edição nº 80 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Descasca os teus abacaxis

Lauro Trevisan é o guru do pensamento positivo. Se me perguntarem quais são as duas convicções mais implausíveis que conheço, eu diria que são a ideia de pensamento positivo e o conceito de «duas sem tirar». Talvez não por esta ordem. Sem Pensamento Positivo Não Há Solução (Dinalivro, 2008), garante Trevisan, e eu acho isto refrescante, quando anda toda a gente a dizer que sem políticas keynesianas é que não há solução. A hipótese espiritual parece francamente mais patusca.
O nosso filósofo de bermudas tem uma receita simples: «Deixa de lado o pessimismo, o desespero, a frustração, a vontade de morrer, isso não leva a nada.» A frustração e o desespero «levaram» a metade da grande arte ocidental, mas deixemos as picuinhices. Trevisan propõe que a gente acredite: «Acredita que és uma pessoa agradável, calma, alegre, feliz, inteligente, positiva, atraente, fascinante e bem-sucedida.» Acredito que nem o George Clooney acredita em tantas coisas juntas na mijinha matinal, mas a minha dúvida é outra. É que a convicção é uma realidade sentida, enquanto o «pensamento positivo» não passa de um exercício de autopersuasão. Como Trevisan não explica como funciona o tal pensamento (em termos químicos e cósmicos) eu continuo mais convencido com métodos antigos, como o de Tom Waits, que ao «power of positive thinking» opunha o mais eficaz «power of positive drinking».
Por falar em bêbedos: é notável que em Trevisan o tom esteja algures entre um grande chefe dacota e um gajo extremamente bêbedo ao balcão: «Terá a minúscula semente de eucalipto o poder de produzir a gigantesca árvore do eucalipto ou é Deus que vem pessoalmente fazer crescer a planta do tamanho que ele quiser? A semente do eucalipto contém o eucalipto? É possível que a semente de eucalipto produza uma laranjeira?.» Chega de Jamesons para este cliente.
A especialidade «positiva» de Trevisan é elogiar o leitor. Quantos livros começam com a garantia: «Sei que és muito inteligente?» E quantos terminam dizendo: «Gostei. Palmas para ti. Mil beijinhos»? Trevisan acumula historietas e citações, que vão de Confúcio a piadas secas de tia velha. O livro foi «aportuguesado» nesta edição, e tem passagens que eu não garanto que não tenham sido escritas de propósito: «Lembra-te que a crise é um estado mental.» E: «Não existe crise para quem não pensa em crise, não vê crise e não fala em crise.» Não vai ser o Obama que vai salvar o mundo, vai ser o Trevisan.
Tudo o que corre mal, explica ele, é imaginação nossa: «Já imaginaste a vida bonita que perdes com esse desânimo e com essa depressão idiota? Não te estou a chamar de idiota, mas sim à tua depressão.» Depois de cada sessão com os apaniguados ele deve ir para casa a pensar «Que bando de idiotas», mas depois lembra-se que não vai vender nada se não regressar aos miminhos. E então garante que temos de saber aquilo que queremos. «Se entras numa loja e pedes um par de chinelos, esperas que te entreguem um par de sapatos de camurça?», pergunta Trevisan, e eu pessoalmente acho comovente que uma alegoria poética contenha a palavra «chinelos».
Saí de Sem Pensamento Positivo Não Há Solução sem solução (e com um par de chinelos). Por mais que me mentalizasse de coisas bacanas, à minha volta continuavam a fechar empresas e eu continuava o último cronista a entregar a crónica no dia de fecho. Há no entanto uma passagem que eu copiei para um caderninho, como uma adolescente apaixonada. Nós estamos demasiado habituados a enfrentar as agruras da vida com conceitos complexos, em alemão, ou com exigências excessivas, em latim. É bom pensar que a nossa vida pode mudar com imagens mais plácidas e comezinhas. Como esta imagem: «Comer abacaxi com casca é terrível, mas, uma vez descascado, torna-se uma fruta saborosa, ainda mais se transformada em sobremesa. / Descasca os teus abacaxis.» Nem conhece-te a ti mesmo, nem penso logo existo, nem amar o próximo como a ti mesmo, nem acabar com a exploração do homem pelo homem, nem deixem jogar o Mantorras; não, uma coisa muito mais simples: «Descasca os teus abacaxis.» Isto, meus amigos, é filosofia e da boa.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Rui Knopfli fala das raízes

Nasci moçambicano, em Inhambane, e morri em Lisboa – mas não lisboeta. Fui a vida inteira português, pois nunca tive outro passaporte, e no entanto pouco me interessei por Portugal. Raízes? O que são raízes para um escritor? As raízes de um escritor afundam-se em terrenos que ele, eventualmente, nunca pisou. Versos lidos há muito tempo, de um velho poeta javanês (é só um exemplo), podem ressurgir décadas depois, delidos, ténues, e alimentar outros poemas. Um dos meus detractores sistemáticos há-de acusar-me, lendo-os, de não ter sido eu suficientemente afri­cano, ou de não ter sido suficientemente português – e estará certo. Nunca fui suficientemente nem uma coisa nem outra, ou outra ainda, porque aos poetas, aos romancistas, calha bem ser todos os homens e de todas as nações, às ­vezes simultaneamente. Um escritor exercita-se a vida inteira para conseguir tornar-se fluente em múltiplas nacionalidades, personalidades, etc. Uns poucos conseguem-no.
Sei, não obstante, que me senti sempre mais africano do que europeu e deixei disso testemunho num poema, um tanto ingénuo, mas de maior circulação do que os restantes, talvez por haver muitos leitores que nele se reconhecem. Também para isso servem os poetas – para aju­darem os outros a expressarem-se: «Europeu, me dizem. / Eivam-me de literatura e doutrina / europeias / e europeu me chamam. // Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum // pensamento europeu. / É provável... Não, é certo, / mas africano sou. / Pulsa-me o coração ao ritmo dolente / / desta luz e deste quebranto. / Trago no sangue uma amplidão / de coordenadas geográficas e mar Índico. / Rosas não me dizem nada, / caso-me mais à agrura das micaias / ao silêncio longo e roxo das tardes / com gritos de aves estranhas. // Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. / Mas dentro de mim há savanas de aridez / e planuras sem fim / com rios langues e sinuosos, / uma fita de fumo ver­tical, / um negro e uma viola esta­lando.»
Os sul-africanos zangaram-se com J.M. Coetzee por este ter abandonado o país, radicando-se na Austrália. Pior: Coetzee deixou a África do Sul após o fim do apartheid e a transição para um regime democrático e não racial, requerendo e obtendo a nacionalidade australiana. Tivesse feito o mesmo, mas cinco anos antes de Mandela irromper, como um deus magnânimo, de Robben Island, e ninguém teria reparado. Assim foi um escândalo, quase uma declaração de guerra contra o país do arco-íris. Também Mario Vargas Llosa – que os peruanos não quiseram como Presidente, preferindo ­votar em Fujimori – abandonou o país, após a vitória do adversário, requerendo a nacionalidade espanhola. Todavia, Coetzee, cidadão australiano, continuou a escrever como Coetzee, escritor sul-africano, embora acrescentando à galeria dos seus austeros personagens uma escritora australiana, Elizabeth Costello, que se assemelha ao próprio Coetzee na fúria (elegante) com que defende o vegetarianismo, e em mais umas poucas opiniões menos convencionais. Mario Vargas Llosa, cidadão espanhol, não deixou nunca de ser Mario Vargas Llosa, escritor peruano (aliás, quase tudo é Peru em Vargas Llosa).
São raros os escritores que ao mudar de passaporte transitaram também para uma nova nacionalidade literária. Talvez Nabokov, ou nem ele, pois o autor de Lolita recebeu desde o berço uma educação cosmopolita, e além disso qualquer um consegue ser americano (já o somos todos). Ser um escritor australiano também não me parece difícil. Canadiano parece-me ser ainda mais fácil. Neste último caso exige-se apenas uma absoluta indiferença, ou desprezo, como quiserem, em relação a raízes, países, narizes, e todas as armadilhas semelhantes; basta ser de toda a parte, e de nenhuma, como muito bem tem vindo a fazer Michael Ondaatje.
Pagaria, isso sim, e pagaria bem, para ver Nabokov, ou Coetzee, ou Ondaajte a transformarem-se em escritores japoneses.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

O Bem e o Mal: Mark e o Lobo

BEM

Amigo amigo informou-me da existência do livro. Amigo que é amigo tem como função oferecer felicidade em pequenas porções, a maior parte das vezes através de um «já leste», «já viste» ou «já ouviste». Amigo amigo falou-me de The Philosopher and the Wolf de Mark Rowlands.
E eu aproveitei a deixa para ler o livro em inglês, coisa que me traz muita respeitabilidade. Como se trabalhasse, pensando se o deveria ou não comprar para edição portuguesa daqui a uns meses.
Comprar, eis um termo interessante e que merece aqui um bocadinho de reflexão: amigo que é amigo não empresta os seus livros e obriga o amigo a comprar. Não por avareza, mas exactamente porque livros bons merecem existir em casa de quem deles gosta.
Ou comprar: 14,62 euros, dois dias depois a Amazon tinha providenciado o livro em cima da minha secretária. A globalização também trouxe coisas boas.
E o livro? Amigo amigo sabia do que falava. A partir de uma experiência insana, um filósofo que, como se repara, já não seria muito são, deambula sobre as rotinas e a felicidade. Um lobo, um professor com a mania de que os cães é que vão salvar a Humanidade, uma vida cheia de peripécias e ensinamentos. Ou acham normal que em Tuscaloosa um professor de Filosofia para quem a «life was good» se lembre de, em vez de ir ao canil, comprar um lobo?
A minha tese: isto foi tudo pensado para dar um livro. Um óptimo livro, por sinal.
A felicidade está nas rotinas – nomeadamente na de lermos bons livros. Amigo que é amigo sabe do que gostamos.

MAL
De quando em vez compro livros em inglês para passear por entre as gentes como no poema do Cesariny. Feito herói. Eu é que leio livros em estrangeiro, diria. E ainda para mais na língua do mundo, nada disso do francês antigo que já morreu.
Assim o fiz por estes dias. Amigo brincalhão sabe desta minha necessidade e disse: «Ora vê lá este.» Fui ver. E chegou-me por 14,62 euros um livro de capa dura à secretária, em dois dias. Escusado será dizer que achei mal: 260 páginas e 14 euros já com portes? Habituem os leitores assim e verão onde vai parar a edição portuguesa.
Li o livro The Philosopher and the Wolf de Mark Rowlands pensando que iria aprender alguma coisa. Ou pelo menos passar um bom bocado mesmo sem aprender nada. Mas nem uma coisa nem outra. O livro é fantástico como manual de auto-ajuda, não há dúvida: naturalmente nem nos encanta nem nos ensina.
A premissa é logo interessante: o Mark decide comprar um lobo como animal de estimação. Depois de passar os anos de infância em cima de um cão enorme, esperar que o pai o chamasse (ao cão) e a cair aos trambolhões perante as gargalhadas do progenitor (o pai), não se poderia esperar outra coisa. Lá comprou o lobo e lá – ou em muitos lugares – viveu com ele uns anos.
Eu diria: tudo por um livro. A ideia até seria boa, os ensinamentos de um lobo como necessários para um professor de Filosofia que já sabia tudo. Mas não: é só uma soma de lugares-comuns, cheios de nada ou de coisa nenhuma. Amigo brincalhão quis que eu me risse, só pode. Mas para isso temos o João César das Neves, não os livros.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER.

Rita Vanessa

Pode uma criança de nove anos escrever as biografias de Mozart e Napoleão? A avaliar por Thomas Kennerly Wolfe, pode. Mas quem é Thomas Kennerly Wolfe? É aquele cavalheiro de fato branco, mais conhecido por Tom Wolfe, que frequentou a Casa Branca na Era W. Muita gente rangeu os dentes. Em querendo ser justos, devemos notar que Tom Wolfe fez do new journalism um género literário. O new journalism mistura realidade e ficção, sim senhor, mas não, não é aquilo que alimenta a imprensa tablóide. Tom Wolfe crismou-o em 1973, quando Joan Didion, Hunter S. Thompson, Truman Capote, Norman Mailer e outros gurus menores garantiam a excelência do género. Acrescentar que escreveu quatro romances memoráveis, e uma dúzia de colectâneas de ensaios sobre o modo de vida e a cultura americanos, sendo as minhas preferidas Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers (1970) e Hooking Up (2000). Absolutamente incontornável.
Vem isto a propósito da tradução do penúltimo romance, I Am Charlotte Simmons (2004), que a Dom Quixote juntou agora ao catálogo. A gente lê e percebe o óbvio. Certas coisas só podem ser escritas na América. Assim mesmo, na América, como dantes se dizia, como ouvi gritar aos emigrantes de Elia Kazan.
Charlotte Simmons podia ser Rita Vanessa, moça de Lanhelas que um dia se viu na Universidade Católica de Lisboa rodeada de betos com excesso de testosterona. Evidência: a Católica está longe de ser, como pretende a Dupont do livro, um mix da Duke e de Stanford, mas para o caso tanto faz. Também admito que na Palma de Cima se pratique sexo morigerado, por oposição ao historial de Dupont. Seja como for, é fácil extrapolar.
Com mais ou menos ajuste, a história decalca-se. Difícil é transpor o Vos Saluto para os nossos hábitos. Vejamos: Tom Wolfe agradece a professores, actuais e antigos alunos, atletas, treinadores, viajantes e cidadãos indiferenciados. Nada de novo. Mas não estou a ver nenhum escritor português a agradecer ao Sr. Silva uma digressão pelas casas de leitão da Bairrada (Wolfe agradece penhorado a quem lhe mostrou «os espantosos viveiros de árvores de Natal») e, em simultâneo, à Cotinha Morais, do Instituto de Literatura Comparada, o zelo aplicado em madrugadas de estúrdia na 24 de Julho (Wolfe identifica e agradece a quem o levou «a infiltrar-se na vida nocturna estudantil, coisa que os homens sensatos nunca fazem»), tão palpitantes quanto os segredos ocultos sob as bancadas de um estádio universitário de futebol. Alguém imagina um escritor português a agradecer à Zizi Bouza, bibliotecária especializada em exegeses ne varietur, a revelação do Lado Negro do campus?
Nós por cá não agradecemos, salvo, em casos especiais, a bolsa de investigação. A tradição anglo-americana de agradecer ao editor, ao revisor, ao bichano, à família, aos amigos, a colegas de ofício, a quantos leram o original, etc., desobrigando o vasto mundo de ocasionais erros ou imprecisões, essa boa prática inexiste.
Tom Wolfe vai mais longe. Precede o Vos Saluto de outro agradecimento: «Aos meus dois estudantes universitários», ou seja, os filhos Alexandra e Tommy. Diz ele: «Graças ao vosso poder de abstracção, o vosso pai teve apenas de trabalhar o material que tinha acumulado das visitas aos vários campus universitários em todo o país.» Os rebentos corrigiram o jargão de modo a torná-lo plausível na boca dos personagens. O autor vem do tempo bestial, os filhos estão no altamente.
Isto para dizer que é indiferente vermos como Rita Vanessa, a provinciana, perdão, Charlotte Simmons, idem, se desenrasca em comboios de sexo oral. A marca de um grande autor antecipa sempre a escrita. As orgias de Dupont e os episódios de violação colectiva que marcam a vida das Fraternidades mais elitistas (casos houve que chegaram a tribunal), servem de pretexto para questionar o sistema americano de ensino. Tom Wolfe é exemplar.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

O Vermelho e o Negro

O primeiro casino em que entrei na minha vida foi o Gala Maybury, em Edimburgo. Como muitas primeiras vezes, a experiência foi curta, indelével e acabou na casa de banho. Na verdade, a não ser que as instalações tenham sido alvo de uma remodelação radical, o meu desabafo lusitano ainda lá deve estar, escrito com uma Bic azul na porta de um dos cubículos: «Só mais três apostas, depois reformo-me. 14/05/03. R. Casanova.»
A confiança foi manifestamente precipitada. Ganhei 700 libras nessa primeira noite (ao câmbio da altura, pouco mais de mil euros); nas semanas seguintes viria a perder o triplo. Emagreci sete quilos. Foi um ano em grande.
O Gala Maybury fica numa das poucas áreas de Edimburgo que parece ter sido transplantada de Beirute, uma espécie de estuário urbano longe do centro histórico e da universidade, onde desaguam todos os sinais de decadência que o resto da cidade dissolve: cabines telefónicas vandalizadas, parques de estacionamento desertos, armazéns abandonados. Do outro lado da rua, num toque inspirado, está um discreta loja de penhores, aberta até à meia-noite, onde podemos trocar o anel de noivado da avó por um punhado de fichas amarelas.
A franchise Gala começou modestamente em 1997. Em 2003 já valiam mais de um bilião de libras. O interior do casino, contudo, é um buraco negro de prosperidade. Quaisquer indicadores de que estamos perante o negócio mais lucrativo do mundo foram sugados para coordenadas distantes – alfaiates de Saville Row, instrutores de mergulho das Baamas, gerentes de conta em Zurique. O bar e os dois salões principais parecem ter sido decorados por um sociopata daltónico, a trabalhar com o salário mínimo albanês. Com o tempo fui percebendo que cada escolha fazia parte de um delicado feng-shui psíquico, meticulosamente planeado. Não é necessário, ou sequer aconselhável, pejar o interior de um casino com o espólio barroco de quem lá foi ser depenado. O casino é essencialmente uma máquina destinada a acelerar a geologia emocional – a condensar em fracções de segundo os choques, descargas e ressacas normalmente dispersos numa órbita de décadas. Para isso é imperativo estabelecer uma realidade paralela e atemporal, e expurgar quaisquer vestígios de paródia, ironia, autodepreciação – todos os mecanismos civilizacionais que servem para evitar débacles da Razão. A mensagem implícita é: isto é tudo muito sério, e não há problema em ficarmos aqui para sempre. No Gala Maybury não havia jornais, nem janelas, nem relógios nas paredes. As saídas de emergência estavam ladeadas por caixas multibanco. O bar tinha uma televisão, mas nunca a vi a passar noticiários; estava permanentemente sintonizada num obscuro canal de desporto dedicado a reproduzir todos os momentos tensos e decisivos da história de cada modalidade. Não havia qualquer hipótese de escoar adrenalina, estava-se sempre cercado.
Nessas circunstâncias, o que um caloiro mais precisa é de um mentor; uma figura paterna, experiente e sensata, que nos diga todas as coisas que só se tornarão óbvias com o tempo. Por azar, o meu mentor foi um impulsivo electricista chinês chamado Liang, obcecado com jurássicas fantasias de emancipação profissional, e que evangelizava o «sistema Martingale» com o zelo dos convertidos.
O Martingale, como qualquer «sistema» de jogo, é puro vudu probabilístico. Implica seleccionar uma aposta de antítese (na roleta: vermelho/preto, par/ímpar, ou altos/baixos) e dobrar a quantia em cada ronda. O incremento permite supostamente recuperar quaisquer perdas a longo prazo. Sob inspecção racional, isto revela-se tão sólido como a filosofia monetária de Ezra Pound.
Evidentemente, rejeitei o misticismo do Martingale em favor do meu próprio sistema, que consistia em deixar sempre os cartões em casa, chegar ao casino com uma quantia fixa de 300 libras para jogo (mais oito para o táxi), e escravizar-me à superstição da rotina, fazendo sempre a mesma aposta: 50 libras na cor vermelha, vinte e cinco no par «9/12», vinte e cinco no par «18/21» e cinquenta numa aposta de coluna (a que vai do «3» ao «36»). Nas noites más (houve muitas), isso dava para duas rondas. Nas noites boas (houve poucas), o objectivo era desistir quando passasse a fasquia do milhar (só aconteceu uma vez).
Na mesa do lado, Liang movia-se em cordilheiras diferentes. Nunca o vi a divertir-se. Nutria um desprezo rancoroso pela fauna do Maybury: os «turistas» de ocasião, que lá iam divertir-se, perder, ganhar, quebrar protocolos e deformar a ecologia. Uma das ideias feitas sobre a ludopatia é a de que um jogador inveterado deseja realmente perder. Mas um jogador não deseja realmente perder. Um jogador também não deseja realmente ganhar – poucos levam a sério a patologia utilitária do atalho fácil para o primeiro milhão. O que um jogador deseja realmente é continuar a jogar. A relação de Liang com o dinheiro tornou-se abstracta; a realidade das quantias que ganhava ou perdia era obliterada pelo excesso. Era frequente terminar a noite a ranger os dentes em silêncio, com os recursos esgotados e os dedos moldados a um cilindro invisível de fichas, afagando nervosamente o seu orçamento-fantasma.
A submissão de Liang ao Martingale durou três meses. O meu próprio sistema durou até me cansar daquela rotina de órfão dickensiano: almoçar pão de forma e jantar feijões da Heinz. O único sistema realmente válido na roleta é o «zero» – o funil aritmético que dá à casa uma vantagem permanente de 5,6 por cento. A longo prazo, na estéril procissão do vermelho e do negro, o nosso dinheiro é sempre o dinheiro deles, e temos todos de arranjar um emprego.
 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER.

Passeio à Terra do Nunca

O território português dá poesia e ficção mas não dá ensaio – os poucos ensaístas que tivemos ou temos são, em verdade ou consequência, expatriados. Como se aqui dentro do nosso pequeno, respeitador e burocrático jardim no extremo da Europa o pensamento tivesse, ainda hoje, dificuldade em respirar. Mais raro ainda é o ensaio literário exterior aos códigos e currículos académicos, escrito por leitores incomuns (porque vorazes) para leitores comuns, capaz de correr o risco de pensar por si mesmo, para lá das exegeses, apenas a partir dos textos e das suas conexões. A Infância é Um Território Desconhecido, de Helena Vasconcelos, agora publicado pela Quetzal, numa colecção intitulada «Textos Breves» – o que pareceria irónico, dado que o livro tem mais de 300 páginas, se não fosse a extrema legibilidade do volume –, é esse tipo de ensaio.
Em primeiro lugar, parte de uma ideia excelente: analisar os personagens infantis dos romances (para crianças ou para adultos) que marcaram o nosso imaginário. Essa ideia desemboca imediatamente noutra, presente no livro de forma sorrateira, implícita, mas não menos marcante: a ideia de escangalhar os mecanismos da imaginação, para ver como ela nasce e se desenvolve. Nos capítulos temáticos, elaborados de forma cronológica, que fazem o corpo principal do livro, é disso sobretudo que se trata: de ver como determinada sociedade molda um determinado tipo de fantasia – e, mais do que isso, de confrontar a biografia de cada escritor com as histórias que ele, supostamente, inventou –; verificaremos a que ponto a inspiração é um compósito de pessoalíssimas questões que o autor tem consigo próprio. Depois de, das décadas de 60 a 90 do século passado, termos seguido a cartilha estruturalista que declarava a morte do autor e o autismo espaciotemporal dos textos, é refrescante, pelo menos para mim, poder voltar a encontrar um rosto humano, verdadeiramente humano, marcado pelos desastres e alegrias de um tempo e um mundo, atrás dos textos. Helena Vasconcelos analisa em detalhe, através de uma prosa comunicante e límpida, as vidas e obras de Charles Dickens, J.M. Barrie (o criador do imortal Peter Pan), Lewis Carroll, Mark Twain, Louise May Alcott (a progenitora das Mulherezinhas que marcaram sucessivas gerações de raparigas), Thomas Mann (por causa de Morte em Veneza), Nabokov (por causa da eterna Lolita), William Golding (o autor de O Deus das Moscas) e Ian McEwan. Nessa análise interferem, em doses iguais, os conhecimentos da autora sobre História, Psicologia e Psicanálise, a sua experiência de leitora compulsiva e a sua experiência de vida. Helena implica-se no que escreve, e a sua análise interpela-nos. O que significa tomar-se por heroína Alice no País das Maravilhas? Ou Peter Pan? A comparação feita pela autora entre essas duas figuras maiores do reino da infância põe o dedo na ferida dos conceitos de «masculinidade» e «feminilidade»: «Alice, mesmo no País das Maravilhas, é uma pessoa bastante real; Peter Pan, num universo quase “real” é apenas uma espécie de elfo; Alice é corajosa porque pensa; Peter Pan é corajoso porque não pensa» ( p. 112).
O extraordinário magma de informações, espírito crítico, experiência, bom senso e capacidade de comunicar torna o livro deliciosamente despenteado, livre, entusiasmante, lembrando A Louca da Casa de Rosa Montero. Um livro em que o amor aos livros se abre em inspiração reflexiva sobre os temas fundamentais da vida – porque falar sobre a infância é falar sobre a vida e a morte, o medo e o desejo, a inocência e o pecado, o poder e a submissão.
Acresce que, mais do que um livro sobre livros, este ensaio é também uma História da Infância. O primeiro, e extenso, capítulo, recorda-nos que a infância, tal como a vivemos hoje, nesta Era em que a Ditadura dos Novos se impõe, é muito recente. O último capítulo é uma dissertação sobre a presença fascinadora do terror, do Capuchinho Vermelho a Harry Potter, e sobre a importância que o medo tem para a formação da coragem e o crescimento do desejo. Descobri que a menina apaixonada pelo Peter Pan continuava a morar em mim – e que, afinal de contas, isso é bom.

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Enfim, coisas de professores

Não se imagina uma manifestação de professores universitários. Quando muito, vão alguns, poucos, a manifestações de outros, ou com outros, debaixo de bandeiras mais amplas. Não é que estejam satisfeitos, sem reivindicações: sabe Deus que se fartam, perdão, nos fartamos de protestar, melhor diria de queixar, que o queixume não aglomera, individualiza, etc. Será então por causa de algo que distinga os universitários, tornando-os inábeis para a luta política? Stanley Fish, no seu último livro, Save the World in Your Own Time, diz a dado passo que, contra o que os ameaça, os académicos se defendem com armas próprias, o raciocínio, os argumentos, a crítica… Louvável. Note-se porém que o diz em contexto muito particular e a inferir que isso justamente torna tal defesa ineficaz perante poderes mais fortes, como os governantes que distribuem o dinheiro. A explicação, por outro lado, talvez resida noutra coisa, que aliás constitui o alvo do dito livro de Fish: certa tendência dos professores para considerarem que se manifestam na sala de aula. Não me refiro àquela ideia convencional da pureza da ciência e do conhecimento, mas à contrária, a de que a actividade dum professor universitário é eminentemente política e portanto… e portanto forma mais nobre de luta política, de eficácia mais duradoura. Uma tendência, repito, que pode não passar de sintoma da incapacidade dos académicos de dispensarem a legitimação política daquilo que fazem, havendo-as disponíveis em todo o espectro ideológico. Se uns se julgam a modelar cidadãos responsáveis e outros promotores de ideias justas, quase todos se representam a contribuir para ao progresso da nação, preservando o saber e levando as luzes adiante. Isto é política da mais alta!
Stanley Fish acha que não, e define assim a finalidade do desempenho profissional dos professores universitários: iniciar os estudantes em corpos e conhecimento e tradições de pesquisa que desconheciam antes da entrada na universidade, e dotá-los dos apetrechos analíticos necessários para que prossigam pesquisas autónomas. Expor nas aulas ideias políticas com o propósito de levar os estudantes a tomar o partido de alguma seria ou é perversão. E quem diz ideias políticas diz convicções ideológicas, crenças religiosas ou similares, atitudes morais, e por aí fora. A ideia de Fish é que há muito por onde devanear quando não se faz o que se deve fazer.
Não será evidente, mas é irrecusável. Bem ponderado, no entanto, o livro é intelectualmente decepcionante; mais polémico do que analítico, e nisso mais defensivo do que se imagina. E embora chegue a justificar-se a esse respeito, transforma em postulado uma ideia de universidade afinal em causa quando o assunto do desempenho dos professores é examinado. O que um professor faz na sala de aula não é independente do que julga ser uma universidade; de modo que muita perversão do desempenho docente decorre ou é sintoma da degradação da ideia de universidade.
Que essa ideia reclama defesa urgente, ninguém mo há-de negar; qual ela seja, é mais difícil acertar. Pois há cinco páginas em que Fish parece distrair-se do próprio livro, embora as apresente como exemplo do tipo de trabalho académico que defende, e onde se pode surpreendê-la espreitando: Fish descreve com pormenor os seus esforços em benefício de certo estudante de Direito que, não obstante ter já feito 31 anos, não ainda tinha percebido cabalmente o que é uma frase. Conta então como tentou iniciá-lo começando com uma frase simples — «Jane baked cookies» —, conseguindo bons resultados em contra-sensos como «Even though I stayed up all night, I was tired». A descrição excede em muito o efeito exemplificador, aliás ocioso; vê-se, por outro lado, que Fish gosta daquilo. Certo que ensina uma disciplina parecida com o que cá se irreparavelmente se chamou «Técnicas de Expressão do Português», e portanto faz o que lhe compete. Mas esse o ponto. É isso que faz o professor: ensina, como se a salvação do mundo dependesse da diferença entre adjectivo e advérbio ou da distinção clara entre disinterested e uninterested. Ensina em vez de se queixar do aluno ou do «sistema» que o deixou chegar àquela idade ignorante de coisas básicas. Ensina, enquanto lá fora alguns, até muitos marcham de encontro ao poder, quando não ao encontro dele…

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Sâns… quê?

Ao leitor português devo parecer estranho por falar frequentemente dos meus alunos a elogiá-los. Um extraterrestre, imaginam-me. A minha salvação está em as experiências de que falo serem confirmadas por testemunhas que acontece aterrarem aqui. Seria, porém, menos suspeito – concordo – se fossem eles a fazer a narrativa.
Bom, mas vamos à estória. Um antigo aluno convidou-me para almoçar, no mais democrático estilo americano. Tive-o na aula ainda foi um dia destes, era ele caloiro, mas já anda no terceiro, que o tempo voa a jacto. Está a planear as cadeiras para o seu próximo e último ano e queria ouvir-me em conselho. Aqui seria preciso explicar como na Brown o currículo académico é extremamente flexível, permitindo aos alunos grande liberdade de escolha de cadeiras, por isso em 1500 licenciados cada ano nunca há dois com o mesmo elenco de disciplinas.
Perguntei ao Leo sobre os seus cursos deste semestre, qual o mais interessante.  «A leitura de poesia de Alcuíno», respondeu-me. Alcuíno?! Mas quem hoje com a cabeça no seu sítio se preocupa com as excogitações religiosas de um medieval, para mais silabadas em verso? Pelos vistos, o Leo. E disse-me do programa da cadeira e de como se inscrevera nela porque o professor era extraordinário a entusiasmar os alunos na descoberta dos labirintos complexos do mundo medievo. «Quantos na aula? Meia dúzia, não?» «De modo nenhum. Somos vinte e tantos.» Quase todos matriculados por causa do fenomenal Prof. Joseph Pucci.
Conversa engata noutra, livros mais leituras sobre isto e aquilo. O Leo, malgré o seu ar mais de desportista do que bookworm, prefere estudar nas bibliotecas e aninha-se acolá a meia colina do College Hill, no Athenaeum, mimoso espaço de uma associação cultural particular de antes de meados do século XIX aonde Edgar Allan Poe ia, vindo de Bóston, namorar uma tal Sarah Whitman, poetisa mesmo dali da Benefit Street, a rua de Providence que abre o filme Providence, de Alain Resnais. (Bom, o filme não tem a ver com Poe mas sim com H.P. Lovecraft, de quem Resnais era fã e cuja obra veio estudar na Brown com o meu colega Barton St. Armand).  Já que derivei um pouco, fique dito que a mãe da Sarah não ia na cantiga, achando que Poe, bêbedo profissional e na penúria, andava em cata do dinheiro da filha. Ou, mais especificamente, dos pais da filha. Sob pressão maternal, a pobre Sarah impôs-lhe o abandono da bebida se o namoro fosse para continuar. No entanto, Poe pelos vistos dispensava menos a pinga do que os encantos e versos dela.
Mas voltemos ao Leo. Aticei-o. Porque não fazia também umas cadeiras de Sânscrito, agora que temos na Brown uma sumidade mundial responsável por um programa de doutoramento nessa língua, e que por sinal tínhamos aprovado precisamente na véspera em reunião do Graduate Council. Ficou de ouvido afitado, o bichinho do interesse já a roer-lhe. Mas virei pragmático: «E o teu pai não te aconselha a fazer cursos mais práticos – Gestão, Medicina, Direito – que te possam garantir um emprego sólido?»
«Não. O meu pai também adora livros e na universidade procurou sempre uma formação clássica. Fez um bacharelato em Humanidades antes de ir para a Law School.»
Obviamente não pensa como o indivíduo citado num artigo recente do The Chronicler of Higher Education, precisamente sobre «The Humanities’ Value», tema hoje duro, em tempo de crise económica intensa, que alardeava: «Estamos a tratar de dinheiro e não de metáforas e não vou entregar as minhas finanças nas mãos de gente da Literatura!» (Ao que apetece ripostar: veja lá onde nos deixaram os das Finanças, Economia, Gestão e Negócios!)
Mas adiante. «Os meus amigos», diz o Leo, «é que às vezes expressam estranheza. Da última vez que estive lá na terra, alguns perguntaram-me sobre o que andava a estudar. Falei-lhes de um curso sobre Santo Agostinho em que tínhamos lido as Confissões.  Admirado, um deles perguntou-me: “Mas então já não tinhas lido as Confissões no teu tempo de liceu?”»
«Bom, lá tive de explicar», continuou o Leo com o ar mais natural, «que no liceu não as  tinha lido em latim…»

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Paz, Fuentes e Outros

Fui a Valência entrevistar Octavio Paz. «Uma experiência chave foi a sua visita a Espanha em 1937, onde assistiu ao II Congresso Internacional de Escritores, uma iniciativa do Komintern organizada por Pablo Neruda. Embora na sua juventude tenha lido muita literatura anarquista, Paz abraçaria mais tarde o marxismo, e paulatinamente acabou por repudiar a tirania de Estaline.» Citei a página 20 de Octavio Paz y la Poética de la Historia Mexicana, de David A. Brading (Fondo de Cultura Económica, México D.F., 2002, reimpressa em 2004). Fui a Valência com o objectivo, entre outros, de entrevistar Octavio Paz. Cheguei com 50 anos de atraso. Apesar disso, Paz estava lá. Ele ainda era vivo, eu ainda era novo. Abordei-o, trocámos frases breves ao longo de alguns dias, à entrada ou à saída do elevador do hotel onde ambos estávamos para o congresso comemorativo do que se realizara na mesma cidade, meio século antes. Mas não houve entrevista. Adiava sempre a conversa para o dia seguinte. Viera de longe, adormecia tarde («Los españoles no duermen!», queixava-se; não sei a que propósito, criticou também o tom condescendente ou depreciativo com que compatriotas seus se referiam aos índios mexicanos: «los inditos»). Além da sua amabilidade, ficou-me como consolação duvidosa o facto de não ter dado entrevistas a representantes de outros jornais (de Portugal só lá estive eu). O que escrevi então, já em Lisboa, não era sobre Paz, era sobre a guerra («civil», e de Espanha) e a comemoração, muito tensa, julgo que sem franquistas mas seguramente com estalinistas, que um congresso fez de outro, 50 anos depois.
Mais tarde, pensando na recusa octaviana de me dar uma entrevista, mesmo curta, e comparando-a com outras circunstâncias (quantas vezes um jornalista, por motivos variados, se furta a entrevistar um escritor, mesmo que o admire, pedindo ou não desculpa ao próprio, ao editor e às relações públicas do segundo), percebi que Paz estaria legitimamente pouco disponível para ser entrevistado por portugueses. Que livros dele, entre nós, tinham sido traduzidos? Que eu soubesse, nenhum (salvo o pequeno ensaio Fernando Pessoa: o Desconhecido de Si Mesmo, que graças a José Fernandes Fafe fora editado em 1980 pelas Iniciativas Editoriais num livrinho quase plaquette, e uma Antologia Poética 1935-1975 traduzida pelo saudoso amigo Luís Pignatelli para a Dom Quixote, 1984). Hoje, mais de 20 anos depois desse episódio e mais de dez após a morte de Paz (1914-1998, Nobel da Literatura em 1990), pouco mudou. Sim, houve mais alguns textos traduzidos da sua imensa obra. E então? Eu, inocente representante do desinteresse português, voltaria a ter o mesmo pouco à-vontade (mesmo assim insistente) e ele um idêntico alheamento.
Infelizmente, a indiferença portuguesa por uma grande literatura, a mexicana, não se limita ainda hoje a Paz. Mesmo de Carlos Fuentes, menos jovem mas vivo (tem só 80 anos e quase não se notam), que é ainda do tempo em que para aparecer nas letras mexicanas era praticamente indispensável ser patrocinado por Paz, não vejo em Portugal edições por aí além de várias obras importantes. E, traduções à parte (boas ou não), para encontrarmos livros seus precisamos de sorte ou (o que vem a dar no mesmo) do acaso. Foi assim que encontrei, na livraria de Lisboa onde se encontram, mesmo em quantidade e qualidade muito insuficientes, edições em espanhol, La Región Más Transparente, de Carlos Fuentes, impressa em Novembro de 2008 para a Alfaguara, sob os auspícios da Real Academia Espanhola e da associação que a mesma tem com outras vinte e uma que cultivam a língua castelhana, revista pelo autor e incluindo textos de outros sete, 750 páginas encadernadas, importado, e por 11 euros em Portugal... É a cultura, distraídos (ou ausentes), mas é também a dimensão enorme do idioma escrito e falado que invoquei sob o nome do México, a pretexto da embaixada deste à Europa, no último Salon du Livre de Paris, 13-18 de Março, lembrando as por mim esquecidas «Belles Étrangères» ali dedicadas ao mesmo país em Março de 1991. Anunciemos, em Paris também, o 5º Salon du Livre d’Amérique Latine, na Cité Internationale des Arts, de 14 a 17 de Maio próximo. E marquemos encontro para Junho, mês em que desejaria explicar melhor os motivos por que gostava de ter chamado a esta crónica «O ano do México».

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

LER amanhã nas bancas!

 

 

«Luanda é um mundo muito atractivo para um escritor. Mas também perigoso, porque há um excesso de coisas. Eu tenho um pouco a sensação de que as pessoas que vivem permanentemente em Luanda deixam de ver. A estranheza que as rodeia é percebida como natural. A vantagem da distância é essa: permite perceber que aquilo é extraordinário. [...] Esse manancial não aparece na literatura que está a ser feita hoje em Angola.»

 

Primeira entrevista de José Eduardo Agualusa a propósito do seu novo romance, Barroco Tropical.

 

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Homenagem a Rogério Mendes de Moura hoje na Feira do Livro

Destaque da programação de hoje da Feira do Livro de Lisboa: homenagem ao editor Rogério Mendes de Moura [1925-2008], às 18h30, no Parque Eduardo VII. «Sou capaz de falar sobre um livro o tempo que for necessário, mas não consigo é fazer o acto de venda, têm de ser os outros.»

 

Programação e outras informações sobre a 79ª edição no novo site, blogue, twitter e facebook. Um diário também aqui.