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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

O romance que convenceu a 'Lire'

A tradução portuguesa do livro que a revista Lire elegeu como o melhor de 2008 chega este mês (dia 21) às livrarias: O Que o Dia Deve à Noite, do argelino Yasmina Khadra. Edição Bizâncio.

 

O meu pai não andava, rolava como um rochedo no flanco de uma colina. Nunca lhe vira um acesso de cólera semelhante. Estava a dois dedos de implodir. O rosto estremecia com tiques; os olhos tentavam enterrar o mundo. Não dizia nada, e o seu silêncio em ebulição conferia à sua atitude uma tensão que me fazia temer o pior.
Quando já estávamos longe, empurrou-me contra uma parede e mergulhou o seu olhar demente nos meus olhos amedrontados; uma chumbada não me teria abalado da cabeça aos pés com tamanha brutalidade.
– Achas que não valho nada? – disse ele, com a garganta contorcida. – Achas que pus no mundo um garoto para o ver morrer em fogo lento?... Enganas-te. E o hipócrita do teu tio engana-se. E o destino que parece humilhar-me engana-se redondamente... Sabes porquê? Porque eu posso ter perdido o meu lugar, mas não perdi a alma. Ainda estou vivo e cheio de força. Tenho uma saúde de ferro, braços capazes de erguer montanhas e um orgulho a toda a prova.
Os seus dedos enterravam-se-me nos ombros, magoavam-me. Não se dava conta. Os olhos reviravam-se no rosto como berlindes ao rubro branco.
– É verdade que não consegui salvar as nossas terras, mas, lembra-te, fiz crescer trigo!... O que aconteceu a seguir não foi culpa minha. As preces e os esforços reduzem-se muitas vezes a nada perante a cupidez dos homens. Fui ingénuo. Agora já não sou. Mais ninguém me baterá nas costas... Parto do nada. Mas prevenido. Vou trabalhar como nenhum negro trabalhou, enfrentar os sortilégios, e tu verás, com os teus próprios olhos, como o teu pai é digno. Vou sair do buraco que nos engoliu, vou livrar-me dele, juro. Ao menos tu acreditas em mim?
– Sim, papá.
– Olha-me bem nos olhos e diz que acreditas em mim.
Já não tinha olhos, mas dois papos de lágrimas e sangue que ameaçavam engolir-nos aos dois.
– Olha para mim!
A mão dele pegou-me violentamente no queixo e obrigou-me a levantar a cabeça.
– Não acreditas em mim, é isso?
Eu tinha um enorme coágulo na garganta. Não conseguia falar nem aguentar o seu olhar. O que me mantinha de pé era a mão dele.
Subitamente, a outra mão atingiu-me a face.
– Não dizes nada porque pensas que deliro. Fedelho ranhoso! Não tens o direito de duvidar de mim, ouviste? Ninguém tem o direito de duvidar de mim. Se a porcaria do teu tio não dá nada por mim, é porque não vale mais do que eu.
Era a primeira vez que levantava a mão para mim. Eu já não compreendia nada, não sabia que mal fizera, porque se virava contra mim. Tinha vergonha de o encolerizar e medo que me renegasse, ele que, a meus olhos, era o que mais importava no mundo.
O meu pai voltou a erguer a mão. Deixou-a suspensa no ar. Os dedos vibravam. As pálpebras inchadas desfiguravam-lhe o rosto. Emitiu um estertor de animal ferido, puxou-me contra o peito a soluçar, e apertou-me, com tanta força e durante tanto tempo que me senti como se estivesse a morrer.

Mil páginas de Stephen King em Novembro

Under the Dome, thriller com mais de 1100 páginas que Stephen King começou a escrever nos anos 80, será publicado a 10 de Novembro pela Simon & Schuster. Sinopse disponível aqui:

 

«On an entirely normal, beautiful fall day in Chester’s Mills, Maine, the town is inexplicably and suddenly sealed off from the rest of the world by an invisible force field. Planes crash into it and fall from the sky in flaming wreckage, a gardener’s hand is severed as “the dome” comes down on it, people running errands in the neighboring town are divided from their families, and cars explode on impact. No one can fathom what this barrier is, where it came from, and when—or if—it will go away.

Dale Barbara, Iraq vet and now a short-order cook, finds himself teamed with a few intrepid citizens—town newspaper owner Julia Shumway, a physician’s assistant at the hospital, a select-woman, and three brave kids. Against them stands Big Jim Rennie, a politician who will stop at nothing—even murder—to hold the reins of power, and his son, who is keeping a horrible secret in a dark pantry. But their main adversary is the Dome itself. Because time isn’t just short. It’s running out.»

Ilustrações com história

Jerelle Kraus reuniu no livro All the Art That's Fit to Print (And Some That Wasn't) as ilustrações publicadas (ou não) nas páginas de opinião do New York Times. Jerelle sabe do que fala: durante 13 anos foi «directora de arte» desse espaço ainda hoje tão influente do diário norte-americano. Uma das ilustrações censuradas, como se pode ver hoje no El País, mostra Henry Kissinger tatuado com as «suas aventuras bélicas».

LER hoje nas bancas!

Neste número, a LER aparece com algumas alterações, no formato e no conteúdo. Temos um  provedor dos leitores (Nuno Costa Santos) que promete fazer amigos; abrimos um consultório literário; há um novo diário de leituras, prémios, um comentário ilustrado de Pedro Vieira e mais notícias. O resto continua igual. Há entrevistas de Antonio Tabucchi a Carlos Vaz Marques e de José Rentes de Carvalho a Fernando Venâncio (na Holanda). Testemunhos de João Lobo Antunes, Edgar Pêra, Ana Vidigal, Eduardo Batarda, Henrique Cayatte, António Adão da Fonseca, Lúcia Sigalho, Madalena Cardoso de Menezes, Luísa Ferreira e Rui Chafes sobre os livros que influenciaram decisivamente as suas carreiras. José Riço Direitinho e os livros que se salvam na crise. Rogério Casanova revisita os Trópicos de Henry Miller e escreve sobre o tuning literário na sua Pastoral Portuguesa. Patrícia Reis e Pedro Marques Lopes divulgam a suas listas de livros. Jorge Reis-Sá provou as receitas de Oprah (e diz bem e mal). Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes apontam as tendências do mercado. David Machado passou pelo sofá da LER um dia antes de partir para a Ledig House, perto de Nova Iorque. Tiago Cavaco aconselha a leitura de A Mostruosidade de Cristo, de Slavoj Zizek. Os jardins dos Palácio de Fronteira são imperdíveis - e José Riço Direitinho explica porquê. Há, como sempre, rumores (muitos e bons). Há crónicas de Pedro Mexia, Abel Barros Baptista, Eduardo Pitta, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Filipe Nunes Vicente, Onésimo Teotónio de Almeida, Inês Pedrosa e Francisco Belard. Extractos de As Viúvas de Eastwick (John Updike) e No Café da Juventude Perdida (Patrick Modiano). Rui Bebiano trata dos livros de ensaio. A leitura dos livros de economia & gestão por Fernando Sobral e dos livros infantis por Carla Maia de Almeida. Crítica de livros por José Mário Silva, Rogério Casanova, Carla Maia de Almeida, Sara Figueiredo Costa, Dóris Graça Dias, José Guardado Moreira, Lydia Beuman, Carlos Câmara Leme, José Riço Direitinho, entre outros. O próximo livro de Manuel Poppe e os títulos que vão marcar o mês de Abril. Visitámos a sala de trabalho de Mafalda Ivo Cruz, um restaurante londrino com Dickens, Green ou Evelyn Waugh ali ao lado e o Hotel Convento do Espinheiro, em Évora. E o que lia Baptista-Bastos no 25 de Abril?

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