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Barack Obama nomeado para os British Book Awards

O presidente norte-americano faz parte da shortlist dos British Book Awards nas categorias de autor do ano e biografia do ano com os livros The Audacity of Hope (A Audácia da Esperança) e Dreams From My Father (A Minha Herança), ambos editados em Portugal pela Casa das Letras. Barack Obama concorre com Stephenie MeyerRose Tremain, Diana Athill e Aravind Adiga, entre outros. Vencedores conhecidos a 3 de Abril.

Os livros de Eduardo Prado Coelho

Mais dois mil livros de Eduardo Prado Coelho estão agora disponíveis na «sua» sala da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, onde no próximo dia 27 se realiza um colóquio dedicado ao ensaísta, professor, escritor e cronista português falecido em Agosto de 2007, com presenças confirmadas dos poetas e professores Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral, dos investigadores Sérgio Sousa, Maria Emília Pereira e Eunice Cabral e de José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

O retrato de Shakespeare, 2.

De entre as grandes e «mediáticas» figuras da literatura, Shakespeare é certamente uma das mais enigmáticas e aquela cuja vida (obra à parte) deu origem a um maior número de estudos, monografias, de discussões académicas, de polémicas infindas, de aguerridas esgrimas intelectuais, etc. Mas do meio de tantos milhões de páginas escritas sobre a sua vida, uma das poucas certezas que se pode tirar é que ao falarmos do grande bardo, de quase nada há já a certeza (nem tão-pouco de como escrever o seu nome!); da sua passagem por este mundo apenas ficaram as obras (copiadas pelas mãos de outros) e ainda seis gatafunhos (todos eles diferentes uns dos outros) que pretensamente são meia dúzia de versões da sua assinatura. Passou por cá como se não quisesse ter deixado outras marcas para além da sua genialidade. Pelo menos é isto o que nos diz o conhecido autor americano Bill Bryson (n. 1951) no interessante livro Shakespeare – Dos Oito aos Oitenta.
Bryson, que desde há algumas décadas se vem dedicando a escrever livros que abrangem temas como as viagens, a história do conhecimento e a língua inglesa, decidiu-se desta vez pela vida do grande bardo inglês. Não foi sua pretensão escrever mais uma biografia (dessas há para quase todos os gostos), mas antes tentar delinear uma espécie de fronteira entre o que é realmente a «verdade histórica» naquilo que habitualmente se conta acerca de Shakespeare, e tudo o que é tradição, suposição, imaginação, conjectura, fé, dedução, invenção, etc. E ao mesmo tempo contar as histórias – num estilo sóbrio e por vezes com graça – dos muitos que dedicaram toda a vida a tentar saber mais sobre o genial dramaturgo e poeta. Para um leigo, as conclusões são bastante surpreendentes: quase que não há provas físicas (dignas desse nome) da existência do homem, pelo menos desse tal cujo nome nos habituámos a grafar William Shakespeare! Bryson diz que ele é «uma espécie de equivalente literário de um electrão – sempre presente e sempre ausente».
A começar pela iconografia: das três imagens conhecidas que pretensamente o retratam, sabe-se que duas foram feitas em datas posteriores à sua morte, e a que resta é de facto coeva do bardo; é a que retrata um homem de cerca de 40 anos, de barba cuidada, já bastante calvo, com um brinco na orelha esquerda, vestindo de preto e com lábios sensuais. Segundo Bryson, «percebe-se que não é homem a quem se possa confiar a custódia de uma esposa ou de uma filha já crescida». Essa imagem, que é a de aceitação mais consensual entre os especialistas, nada nos diz que o retratado é o dramaturgo de Stratford-on-Avon. Acredita-se por uma questão de fé, porque sempre se disse que era ele! Verdade seja dita, também nada existe que o negue: o brinco é um símbolo de vida boémia (o que era um facto no mundo teatral), a roupa preta era sinal de abastança no século XVI pois para a tingir de negro era necessária uma enorme quantidade de corantes que nem todos poderiam adquirir (a abastança do bardo encontra-se vagamente documentada), um moço bem apessoado teria também sempre mais hipóteses de ser aclamado e acarinhado pelo público…
Bryson refere também que ao longo dos séculos, em documentos avulsos, foi encontrada meia dúzia de assinaturas que se acredita terem sido garatujadas pelo punho do bardo; mas em nenhuma delas se consegue perceber qual seria afinal a sua grafia normal (num conceito puramente estatístico, porque à data estavam ainda em preparação os acordos ortográficos). Aparecem escritos: «Willm Shaksp», «William Shakespe», «Wm Shakspe», «William Shakspere», «Willm Shakspere» e »William Shakspeare».
E neste livro de leitura bastante agradável – mesmo para quem nunca se interessou pelo dramaturgo inglês – há ainda dezenas de deliciosas histórias muito bem contadas: teria ele prometido casamento a duas mulheres diferentes mas com o mesmo nome, ou a sua mulher estaria registada em dois lugares? E por onde terá andado depois de aos 15 anos ter terminado a escola até aparecer em Londres? Ao serviço de um nobre mas sob um falso nome? E teria viajado até Itália durante os anos em que se «eclipsou»? Se sim, porque cometeu tantos erros de geografia nas peças que escreveu? E muito mais.

 

Texto de José Riço Direitinho publicado na edição de Fevereiro (nº77) da LER.