'Chiquita' lançado em Fevereiro
O romance vencedor do Prémio Alfaguara 2008, editado em Portugal pela QuidNovi, será lançado durante o Correntes d’Escritas (11 a 14 de Fevereiro), com a presença do escritor cubano Antonio Orlando Rodríguez.
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O romance vencedor do Prémio Alfaguara 2008, editado em Portugal pela QuidNovi, será lançado durante o Correntes d’Escritas (11 a 14 de Fevereiro), com a presença do escritor cubano Antonio Orlando Rodríguez.
- Colecção onde autores editados pelas Quasi apresentam um dos livros da sua vida. Adriana Calcanhotto, Alberto Gonçalves, Desidério Murcho, Eucanaã Ferraz, Fernando Ribeiro, Francisco José Viegas, João Pereira Coutinho, Maria Filomena Mónica, Michael Ruse ou Rui Lage escolhem, entre outros, O Discurso do Método, de René Descartes, A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco ou A Origem das Espécies, de Charles Darwin.
- Algumas das Palavras, colectânea de toda a poesia de Fernando Guimarães; Eucanaã Ferraz e a sua Cinemateca; e continuação das obras completas de Eugénio de Andrade, Daniel Faria, António Botto e Natércia Freire.
- As obras escolhidas de Vinicius de Moraes. O primeiro livro Poemas, Sonetos e Baladas tem edição prevista para Fevereiro.
- Novos livros de crónicas de Alberto Gonçalves e de João Pereira Coutinho.
- E ainda: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond, Filosofia da Religião, de William Rowe, Teatro, de Samuel Beckett, A Língua dos Eleitos, de Eduardo Pitta, Dança das Letras, de Agostinho Fernandes, O Livro Contra Deus, de James Wood, e À Superfície, de Margaret Atwood, entre outros.
Quando morri, em 1989, ainda não existia Internet. Laptops eram uma curiosidade que nenhum viajante digno desse nome aceitaria transportar. Estou a lembrar-me do Portable 386. O nome pode soar como uma piada sarcástica para vocês, que vivem em 2008, pois pesava nove quilos e incluía uma alça, como uma mochila, de forma a facilitar o transporte. Trazia um teclado separado do pesado corpo principal e não possuía bateria. Só trabalhava ligado a uma tomada.
Se em 1974 eu tivesse viajado para a Patagónia com um MacBook na minha mochila hoje não se venderiam Moleskines. Eu comprava os meus cadernos de capa preta sempre que ia a Paris, numa papelaria da Rue de l’ Ancienne Comédie. Naquela época já não se fabricavam mais Moleskines e aquela era a última loja que os tinha. Hoje vendem-se em qualquer boa livraria, seja em Nova Iorque ou no Rio de Janeiro, até mesmo em Luanda, com um papelucho lá dentro a explicar que eu, esta alma errante que agora vos escreve, tomava notas em cadernos idênticos. Pode ser que a literatura não tenha poder para mudar o mundo, mas enquanto for capaz de ressuscitar cadernos mortos não a poderemos considerar totalmente inútil.
Hoje em dia comprar um Moleskine é o primeiro passo para iniciar uma carreira literária. Repararam naquele rapaz de farta cabeleira ruiva, sentado diante de vocês, no metro, que a determinada altura puxou de um Moleskine? Ah, tremei – um escritor! A senhora alta, de rosto severo, na biblioteca, a consultar periódicos do século XIX, enquanto toma notas num elegante caderno de capa vermelha (agora fabricam-nos em várias cores)? Também ela uma escritora. Os Moleskines são igualmente muito populares entre os artistas viajantes, que confiam às suas páginas rápidas imagens dos lugares por onde passam (papel com 25 por cento de fibras de algodão, sem acidez, portanto capaz de resistir incólume durante gerações). Prosperam na Internet sítios dedicados à contribuição dos Moleskines para o progresso das artes e da literatura. Recomendo o Moleskinecity.com ou o Detour, que reúne uma notável colecção de cadernos criados por artistas plásticos, arquitectos, ilustradores e escritores.
O que mais me agrada neste eufórico e colorido regresso dos Moleskines é o facto de se tratar de um triunfo do papel sobre o digital, da tradição sobre a tecnologia – com o apoio da tecnologia. Acreditem, eu realmente gosto dos MacBook, magníficos objectos «construídos a partir de um único bloco de alumínio e cortados com precisão milimétrica», diz a publicidade; a mim parece-me a descrição de uma escultura moderna e não de um electrodoméstico. Compreendo também a paixão pela Internet, embora a ache uma forma preguiçosa de obter conhecimento, e reconhecimento. No meu tempo (só os mortos deveriam poder servir-se desta expressão), se queríamos parecer eruditos tínhamos de nos esforçar um pouco mais. De tanto nos esforçarmos, fuçando em obscuras bibliotecas, ou entrevistando veneráveis coleccionadores de porcelana, acabávamos realmente por fixar dois ou três factos relevantes e por descobrir pistas para outros tantos.
Há jovens escritores de viagens, hoje em dia, que produzem belos livros sem nunca saírem de casa. Atravessam, pelo Google Maps, os areais da Namíbia e as florestas da Malásia. Conversam longamente, pelo Skype, com índios isolados pelas cheias no Pantanal de Mato Grosso. Compram, no sítio de alguma organização não governamental, artesanato pigmeu que lhes é entregue em casa, cinco dias mais tarde, ainda a cheirar (genuinamente) a selva e a catinga. Não tenho nada contra isso, compreendam. Toda a viagem é uma invenção.
Dei-me conta de que a minha obra tem vindo a ser relançada no mercado português, com a chancela da Quetzal, em edições muito cuidadas. Fiquei feliz. Foi isso que me motivou a procurar os serviços de um psicógrafo – infelizmente de duvidosa reputação, mas, o que querem?, era o único disponível –, para vos fazer chegar estas palavras. Isso e o tédio (não existe pior prisão do que a eternidade). Enquanto continuarem a ler os meus livros, continuarei a viajar.
Crónica publicada na edição nº 75 da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Como uma sugestão nos pode levar a um bom artigo: Books Gone Wild: The Digital Age Reshapes Literature, de Lev Grossman, publicado na revista Time.
Dois inéditos de Roland Barthes (1915-1980) — Carnets du voyage en Chine (Christian Bourgois) e Journal du deuil (Seuil) —, com lançamento previsto para 5 de Fevereiro, causam polémica em França.