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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Pedro Tamen recorda Cardoso Pires

 

Todos os dias me lembro do Zé. Quase não há livro que leia, piada que ouça, ternura que sinta, whisky que beba, sem me lembrar dele.
É que os nossos anos de convívio foram feitos, dia a dia, desses ingredientes. A minha memória, que funciona por instantâneos fotográficos, vê-o repetidamente sentado junto da minha secretária da Moraes a informar-me pela enésima vez de um, de mais um, lamentável atraso na entrega de um original ou de umas provas revistas e, logo a seguir, com a minha divertida, terna, cúmplice complacência, a divergir para uma conversa de livros, para uma piada agreste sobre um público figurão, para o relato feliz dos copos da véspera.
Mas vejo-o também, com ou sem outros amigos à volta, e dessas vezes quase sempre com copos reais à nossa frente, sempre envolvido numa indefinível e muito sua própria atmosfera de ternura macha, que não recusava as alfinetadas (duras por fora mas afinal benévolas por dentro) com que mimoseava confrades bem pouco fraternais.
Ele era o homem da amizade, uma espécie de modelo da recta e viril amizade que humaniza os homens e o mundo deles. Assim o recordo, assim o recordo todos os dias.
E que ninguém me leve a mal que seja para mim uma coincidência – mas uma coincidência indizível de tão feliz – o ter sido ele o grande escritor que foi. O grande escritor que é.

 

Pedro Tamen é poeta e tradutor.