Sepúlveda

Luis Sepúlveda amanhã em Lisboa para o lançamento do seu novo livro (no El Corte Inglés ao final da tarde).
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Luis Sepúlveda amanhã em Lisboa para o lançamento do seu novo livro (no El Corte Inglés ao final da tarde).
Com o título «Miguel Sousa Tavares tem as suas suspeitas sobre quem lhe levou portátil com inéditos» o Público de hoje acompanha a novela do roubo em casa do jornalista: «Miguel Sousa Tavares acredita que o roubo do seu computador pessoal da sua casa de Lisboa, durante o fim-de-semana, foi um acto direccionado para prejudicar o seu trabalho. No portátil estavam os únicos exemplares completos de duas novas obras literárias que está a escrever, um conto de viagens e uma peça de teatro. O seu editor, António Lobato Faria, da Oficina do Livro, classifica o furto como "um atentado censório, à liberdade de expressão e criação de um autor".»
Diz MST: «Tenho inimigos, haverá pessoas que gostariam que eu não escrevesse mais sobre alguns assuntos, mas fazer essa associação é excessivo. […] Posso pensar em alguns suspeitos, mas não em voz alta.»
Três momentos com o Zé em 1998
2 de Julho
Fui visitar o Zé Cardoso Pires e a Edite, depois de jantar. Pareceu-me bem mas um pouco cansado. No entanto, falámos, falou, quase até à meia-noite. Pessoa e o Bar Americano, ao Cais do Sodré. O Zé viu uma vez uma fotografia que era propriedade do dono do bar, o Fernando, onde este e Pessoa estavam sentados num banco do largo bebendo cervejas pela garrafa. O Pessoa trabalhava, traduzia, para muitas empresas de navegação da zona e ia frequentemente ao Bar Americano, assim como, logo a partir da chegada de manhã, vários donos e empregados dessas empresas. O Zé trabalhou também algum tempo como tradutor para a H. Vaultier e disse: «À parte o génio, claro, fui colega do Pessoa!» Falou-me também do Café Royal, ao fundo da rua do Alecrim, restaurante galego «de grande nível mas caro para mim na altura», que era propriedade da família da Rita Blanco. Depois falámos longamente de fado, maneiras de cantar, Carlos do Carmo, poetas do fado. Tinha comprado uma nova aparelhagem de som e andava entusiasmado a ouvir fado. O neto franzia o nariz quando ele declarava este gosto.
6 de Julho
Fim de tarde. Falámos da Akhmátova e do Modigliani. Como este a desenhou «umas vinte vezes», ele achava que eles tinham tido um caso. Contou-me que o Zé de Bragança, crítico de arte e publicista (que participava de um grupo que o Zé frequentava na zona do Chiado/Alecrim) vivera em Paris e partilhara um quarto com o Modigliani, que era um «chulo artista». Quando ele tinha uma conquista no quarto o Zé de Bragança ia para um hotel e o Modigliani pagava a conta. Um dia passaram numa montra onde havia um sobretudo (ou uma gabardine) de que o Modigliani gostou muito. Voltou atrás duas vezes para observar melhor. No dia seguinte apareceu com o sobretudo vestido! O Abel Manta (pai) também conheceu bem o Modigliani. Estivemos sentados à mesa até às oito e meia e dava um programa sobre o Fidel na TV.
9 de Julho
No chão, deitado, está um corpo
lívido e grisalho.
Não podemos voltar atrás? tudo de novo
desde a última garfada? desde o fazer da barba, talvez?
Alguém diz: Não nos deixe agora.
E, sem dúvida correspondendo ao apelo,
o sangue volta a correr, devagar.
«Já todos morreram menos eu.»
Ainda vale, Zé.
E quando o levam, lá ficamos
agarrados a um pedacinho de esperança.
Que os sinos da igreja ao lado
logo desmentem.
Mesmo assim, ainda o imagino no reencontro:
«Caricato mas dramático, porra!»
João Rodrigues é actualmente editor da Sextante.
O novo livro de Maria Velho da Costa, Myra, com ilustrações de de Ilda David, disponível amanhã nas livrarias. Edição Assírio & Alvim.
«Ao contemplar a sociedade em que vivemos, assusta-me a hipótese de que as 'vozes' possam abafar a Palavra.» Frase de D. José Policarpo, ontem, na Fundação Gulbenkian, em conferência subordinada ao tema «Literatura e o drama da Palavra».
Nota: a conferência de D. José Policarpo decorreu ontem e não hoje, como referimos aqui há poucas horas.
Budapeste, de Chico Buarque, editado em Portugal pela Dom Quixote (2004), lido por José Saramago: «Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.»