A casa de Miguel Sousa Tavares foi assaltada, como noticiava o diário 24 Horas. Estranha o jornalista: «Não me convenço com o facto de terem desprezado outros objectos que tenho em casa e que tenham direccionado todas as energias para levarem um computador onde tenho o meu trabalho literário.»
Conforme noticia o Sol: «A casa de Lisboa de Miguel Sousa Tavares foi assaltada este fim-de-semana. Os ladrões levaram o computador portátil onde o escritor tinha documentos pessoais e dois livros ainda por acabar.» […] «Mas uma desgraça nunca vem só. Depois de ver a sua casa assaltada, Miguel Sousa Tavares foi comprar um novo computador e enquanto isso rebocaram-lhe o carro.»
A Livros Cotovia já apresentou o calendário das sessões que preparou para comemorar, em Lisboa, os 20 anos de edição.
27 de Outubro, Sala de Ensaio do CCB
21h - Leitura do primeiro acto de Os Pilares da Sociedade, de Henrik Ibsen, por Jorge Silva Melo e lançamento dos livros Peças Escolhidas III, de Henrik Ibsen, e Silenciador, de Jacinto Lucas Pires.
1 de Novembro, Sala Jorge de Sena (CCB)
16h - Camões, uma lição de Vítor Aguiar e Silva. Leitura de poemas por Luís Miguel Cintra.
9 de Novembro, Sala Jorge de Sena (CCB)
11h às 13h - Brevíssimo curso de literatura brasileira, com Abel Barros Baptista, Carlos Mendes de Sousa, Clara Rowland e Osvaldo Silvestre.
15h às 17h - Lançamento do livro Um crime delicado, de Sérgio Sant’Anna e de A poesia andando: 13 poetas no Brasil, com a presença de Marília Garcia e Valeska de Aguirre, poetas organizadoras desta antologia.
12 de Novembro, Livraria Pó dos Livros
18h30 - Lançamento do novo livro de Luís Quintais, Mais espesso que a água, e leitura de poemas por Diogo Dória.
16 de Novembro, Sala Jorge de Sena (CCB)
1h às 13h - Brevíssimo curso de literatura grega e latina, com Delfim Leão, Frederico Lourenço e Paulo Farmhouse Alberto.
15h às 17h - Lançamento de Odes de Horácio, na tradução de Pedro Braga Falcão, e do livro Novos ensaios helénicos e alemães, de Frederico Lourenço.
19 de Novembro, Livraria Pó dos Livros
18h30 - Lançamento do novo livro do Jacinto Lucas Pires, Assobiar em público. Apresentação de Carlos Vaz Marques.
29 de Novembro, Sala Jorge de Sena (CCB)
18h30 - Apresentação da série de livros BI-África Minha, constituída por 11 títulos de vários autores africanos: Amílcar Cabral, Luandino Vieira, Hernique Galvão, Castro Soromenho, Uanhenga Xitu, Baltasar Lopes, Luís Bernardo Honwana, Ruy Duarte de Carvalho e Mutimati Barnabé João. Participam Ana de Almeida, António Duarte Silva e Francisco Teixeira da Mota. (Com o apoio da Casa das Áfricas de São Paulo, Brasil).
As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, lido, em português, numa adaptação da Portugália. Durante um Verão, aos 13 anos, sonhei transformar-me naquele rapazinho rebelde, vivendo perto de um rio chamado Mississípi.
O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, (de que há uma tradução portuguesa na Relógio d’Água), uma obra sobre a qual tão profundamente meditei que ia dando cabo da minha vida: identifiquei-me com Catherine, a criatura que se apaixona pelo malvado Heathcliff.
George Orwell, o das reportagens, como The Road to Wigan Pier (sobre a vida nas comunidades mineiras do Lancashire e Yorkshire nos anos 30) e o do jornalismo: considero Politics and the English Language um dos ensaios mais lúcidos jamais publicados. (Está acessível em português, na excelente tradução de Desidério Murcho, em Por Que Escrevo e Outros Ensaios, da Antígona.) É o amor de Orwell pela liberdade e o estilo da sua prosa que me interessam.
Da Democracia na América, de Alexis de Tocqueville. Ninguém, como ele, apontou as fraquezas e as forças da democracia; ninguém, como ele, teve a percepção do que um governo democrático pode conseguir ou pôr em perigo; ninguém, como ele, entendeu o dilema entre a igualdade e a liberdade. (Existe uma óptima tradução de Miguel Serras Pereira na Relógio d’Água.)
Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev, pela construção, pelo estilo, pela concisão, pelas personagens, pela análise de uma sociedade em transição. (Há uma tradução portuguesa na Relógio d’Água.)
O 18 Brumário de Luís Bonaparte, que mostra como, além de panfletário, economista e pensador utópico, Karl Marx podia ser um grande historiador, capaz de, em cima do acontecimento – o golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851 – analisar as suas causas.
Os Maias, de Eça de Queirós, porque revolucionou a prosa portuguesa. É preciso não esquecer também o seu jornalismo, de que destaco a análise feita sobre o Ultimatum de 1890, intitulada «Novos Factores da Política Portuguesa». (Pode ser lida na colectânea que organizei para a editora Principia, intitulada Eça de Queirós, Jornalista.)
O Livro de Cesário Verde, que me devolveu o gosto por ler poesia em português.
Texto publicado na edição de Outubro da revista LER. Fotografia de Dora Nogueira.
Personagem vazia: Bernardo Soares, do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, personagem tão plasticamente vazia, entediante, arrastante, lenta, amolentada, meditabunda, aporética e céptica de um cepticismo que nada de nada conclui, que de si – um permanente nada – só nada pode sair.
Personagem trágica: Margarida Dulmo, de Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. Personagem caracterizada por um sentimento de falha, uma ausência de futuro – que não seja o futuro do tédio. Neste caso, a tragédia não reside na vontade de lutar ou no desejo de desafiar, mas na sua renúncia e na consequente interiorização de um profundo luto pela vida que nunca se terá. A tragédia – a pior das tragédias actuais – evidencia que, depois do seu casamento com André, Margarida não tem história, deixou de haver história para Margarida, estará viva para os filhos e para a sociedade e morta para si própria.
Personagem cosmopolita: Fradique Mendes, de Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós. Uma personalidade não indiferentista e não eclectista, mas suficientemente distante dos sistemas filosóficos, das crenças religiosas e das políticas institucionais para os poder criticar, mas também suficientemente interessado e empenhado para os poder vivenciar. Fradique é, no que tem de melhor, todos os homens de todas as civilizações, segundo uma visão humanista e universalizante, antropologicamente ideal. Em Fradique reside síntese suprema de todos os homens: de todos os intelectuais e sábios, de todos os viajantes e nómadas, de todos os poderosos e distintos, de todos sacerdotes e crentes, de todos os servos e trabalhadores.
Personagem colectiva: a «arraia-miúda» da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, e fundir hoje a vontade, o ânimo, a força, a coragem do povo miúdo contra os poderosos da Governadoria, expulsando os eternos imbecis e incultos que nos governam, refundando Portugal, uma sociedade abastada, libérrima, igualitarista, sem dois milhões de pobres e oito milhões de ignorantes culturais.
Personagem histórica: Fernão Mendes Pinto, o «pobre de mim», narrado pelo próprio em Peregrinação, a personagem cafrealizada do português miúdo à solta no Império, liberto da moral cristã e da lei do reino, profanador de túmulos, pirata do rio, canibal se preciso, rapinador de aldeias, abandonado ao exclusivo fito de enriquecimento. Mas também capaz de suprema devoção (Fernão Mendes Pinto faz-se jesuíta em Goa).
Texto publicado na edição de Outubro da revista LER. Fotografia de Pedro Loureiro.