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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Primeiro capítulo de um inédito de Dennis McShade

 

— OK — disse Gulliver. E desligou.
Levantou-se e dirigiu-se à casa de banho. Olhou para o espelho. Pegou no frasco de álcool, desarrolhou-o e molhou as mãos. Passou depois as mãos pelos cabelos. Voltou a olhar para o espelho e inspeccionou os dentes. Começou a sentir as náuseas do costume. Levantou a tampa da sanita, vomitou alguma bílis e sentiu-se melhor. Voltou para o quarto e falou para o retrato do pai morto, durante dez minutos, como fazia há trinta anos. Acendeu um cigarro e sentou-se na borda da cama. Ligou para Armador.
— Armador?
— Sim.
— Daqui Gulliver.
— Sim.
— Legos disse para o matarmos hoje.
— Vem a minha casa — disse Armador. — Jogamos uma partida de xadrez e depois vamos.
— Estou aí dentro de uma hora.
Gulliver desligou e voltou à casa de banho. Atirou a beata ainda acesa para a sanita e puxou o autoclismo. Voltou a inspeccionar os dentes ao espelho. Lavou-os vagarosamente. Olhou para as mãos. Lavou-as. Voltou ao quarto e olhou para o retrato do pai. Começou outra vez a sentir náuseas e dirigiu-se rapidamente à casa de banho. Vomitou. Sentiu-se melhor.

 

Primeiro e curtíssimo capítulo de Blackpot, inédito de Dennis McShade (pseudónimo de Dinis Machado) que a Assírio & Alvim deve publicar no final de 2009. Até lá, serão reeditados - para além de Mão Direita do Diabo (já lançado) - Requiem para Dom Quixote (nas livrarias em Outubro) e Mulher e Arma com Guitarra Espanhola (Março ou Abril de 2009).

Crónica de Onésimo Teotónio de Almeida

                                                                



MADE IN PORTUGAL

 

Uma entrevista com Peggy Whitson, primeira mulher a comandar a Estação Especial Internacional (ISS), despoletou-me da memória o recente convívio aqui na Brown em casa de Ruth Simmons (que também vê com frequência atrelado ao seu nome o designativo de «primeira mulher negra reitora de uma universidade Ivy League»). Era festa para celebrar os doutorandos honoris causa deste ano. A simplicidade digna, mailo desconcertante à-vontade desses encontros, não deixam nunca de me impressionar, a mim nado e criado no formalismo cinzentão lusitano, recuperado depois do 25 de Abril em novos moldes, é certo, mas ressuscitado para durar. No laudatório dos honorandos por um membro da universidade, e nos agradecimentos daqueles, sempre o humor put down e self-deprecating. Tudo em tom chão, como na referência ao trabalho de Shih Choon Fong, pioneiro em Engenharia Fractal – «o que quer que isso seja», o apresentador a acrescentar – e depois o honoris causa, hoje reitor da National University of Singapura, a explicar que em criança ficava muito triste quando se lhe quebravam os brinquedos e, por isso, passou 15 anos na Brown a investigar o problema. Ou Robert Redford, laureado pelo seu papel de defesa do ambiente, ao chegar-lhe a vez de agradecer, admitindo não saber falar em público porque todas as frases dos filmes que o lançaram nos olhos do mundo foram escritas por outros. Chegou a vez da geofísica planetária Maria Zuber, antiga aluna da Brown, hoje investigadora no MIT e responsável por um projecto que faria aterrar uma nave em Marte no dia seguinte. Falou das lutas íntimas por que uma mulher passa quando tem filhos pequenos e quer ao mesmo tempo manter uma carreira científica a exigir entrega incondicional. Que um dia, atormentada, à mesa com os filhos lhes pôs a questão: ficar mais tempo em casa ou continuar a  dedicar-se à carreira científica. O mais novo saltou logo: «’Tás louca! Na minha escola eu sou o único com uma mãe que dispara raios laser para o espaço!»


Esta crónica ia prosseguir no tema da mulher na ciência, mas também pode legitimamente enveredar por outro rumo, como o de continuar com histórias de doutoramentos honoris causa de que me recordo. Há muitos anos foi a vez de Mário Soares. O único português até agora, se não incluirmos o luso-descendente Craig Mello, Nobel de Medicina no ano passado e ex-aluno. A universidade quis reconhecer o papel de Mário Soares na consolidação do processo democrático em Portugal. No mesmo ano, Stevie Wonder ganhou um honoris causa em Música. No colorido e alegre cortejo College Street abaixo, Stevie Wonder e o nosso ex-Presidente, ambos com a beca da Brown, barrete e tudo, caminharam de braço dado, o cantor cego completamente entregue à confiante firmeza de Soares. No outro dia, o Providence Journal trazia, em parangonas e na primeira página, uma fotografia dos dois.


Eu estava de saída para Lisboa dali a pouco e fui à redacção do jornal indagar se me cediam uma cópia. (Eram tempos arcaicos, pré-internéticos, quando tudo tinha de ser em papel e por mão própria ou correio postal.) Sim, senhor, com muito gosto, autorização plena para reproduzir a dita. Levei-a para Lisboa e fui oferecê-la a amigos no Diário de Notícias, onde eu era então colaborador regular, levado pela mão do Mário Bettencourt Resendes (coincidência que, como é óbvio e o leitor acredita piamente, nada tinha a ver com o facto de sermos patrícios da mesma ilha dos Açores). Dias depois, saía em destaque na última página, creio que com honras de «foto da semana». E não demorou muito para eu receber em retorno uma boca, que rodou célere entre a má-língua portuguesa – a legenda a incluir pelo jornal devia ter sido simplesmente: «Um cego a guiar outro cego.»


Injusta, muito injusta mesmo. Mas – convenhamos - uma boa e bem portuguesa piada, autêntica, made in Portugal, na melhor tradição do nosso escárnio e mal-dizer, em que somos mestres com o calo de 800 anos de experiência.


Pena não haver comprador para essa nossa produção.

 

Crónica publicada na edição de Setembro da LER.