Em meia-hora, oito chamadas telefónicas de Portugal acerca deste post. Na verdade, a pequena notícia de 3 linhas no O Globo tem um fundo de verdade, pode garantir-se: «LeYa namora o grupo editorial brasileiro Record». Namora. Mas mantém uma reserva de peso já namorada.
Leio os comentários sobre a capa da LER e fico orgulhoso com a minha pátria que vendeu um milhão de livros de uma autora mas não quer ouvir falar dela. No Brasil, li em dois dias a gigantesca biografia de Paulo Coelho, por Fernando Morais (edição Planeta). Uma parte da biografia é ligeiramente «puxa-saco»; mas ele vendeu mais de 100 milhões de livros, não há como ignorá-lo. O homem pode ser um biltre, um falsário, pode ter traído (e traiu) a própria mulher na prisão, pode ter assinado com o seu nome (e assinou) livros que não escreveu. Isso é uma coisa. Mas ele está aí. O máximo que eu faria seria escrever um romance policial para assassiná-lo. Ele gostaria, é o problema.
Cecília Andrade, da Dom Quixote/Leya, no sábado -- dia do seu aniversário. Recebeu presentes e passeou de barco pela baía de Paraty. E Connie Lopes, a directora de Língua Geral -- para quem não saiba, nasceu no Porto.
Nicole De Witt, agente literária, ao almoço de ontem, com autores que representa. Tatiana Salem Levy estava no almoço mas não é autor de Nicole -- acaba de publicar A Chave de Casa, primeiro em Portugal (Cotovia) e depois no Brasil (Record).
Bebida a meio da tarde, no Coupé, o mais histórico dos bares de Paraty: FJV, Eduardo Coelho (Língua Geral), Sérgio França (Editora Record), Tatiana Salem Levy, José Eduardo Agualusa e Patrícia Reis. Pepetela ficou escondido na primeira foto, mas ao lado conversa com Agualusa; os dois estão hoje em São Paulo, numa apresentação na Livraria da Vila.
Sábado de sol e muitas mesas literárias. Numa lancha, ao largo de Paraty, Zeferino Coelho visitava o paraíso local, logo a seguir à prestação de Pepetela na Tenda dos Autores. Ele regressaria ainda a tempo de um cocktail em casa de João Roberto Marinho, à noite.
O drink em casa de João Roberto Marinho (filho do fundador da Globo) teve portugueses presentes. E africanos. Só a chuva os afastou por instantes do gramado onde contaram piadas; naturalmente, literárias. Rumores sabe guardá-las. O convite partiu da editora Língua Geral.
Dado que algumas das palestras eram soporíferas, circularam rumores de que no próximo ano se iria distribuir um KitFlip constituído por «travesseirinho, como nos aviões, e máscara com olho aberto». Isto para a versão económica; para classe executiva será acrescentado pijama.
José Luís Peixoto fez um pequeno recital de poesia no Che Bar -- esse mesmo que foi tomado «de assalto» pela Record, sua editora.
Revelação súbita: um grupo de visitantes do Pará (bem no Norte do Brasil) confidenciava a um português, num barzinho bem perto da Praça da Matriz, que o seu livro de estimação era Sei Lá, de Margarida Rebelo Pinto. Sem saberem que o interlocutor era precisamente Marcelo, o editor da Oficina do Livro.
No domingo, ontem, às 13h30, Inês Pedrosa era a convidada do programa «Roda Viva, da TV Cultura, para a sua grande entrevista da semana.
A coluna de Ancelmo Góis, no jornal O Globo de hoje (sem link) informa que o grupo LeYa namora o grupo editorial brasileiro Record, depois de ter tentado, sem sucesso, a aquisição da Companhia das Letras.
A XIV edição do Grande Prémio de Literatura da DST contemplará, com um prémio de quinze mil euros, uma obra de prosa em português cuja primeira edição tenha sido publicada entre 2006 e 2007. As candidaturas serão aceites até ao dia 30 de Setembro de 2008, estando o anúncio público agendado para o dia 06 de Dezembro em diversos órgãos de comunicação social.
A iniciativa da Domingos da Silva Teixeira (DST), grupo que actua na construção civil, obras públicas, ambiente e energias renováveis, é rotativa, alternando a cada ano entre poesia e prosa e visando livros publicados no biénio precedente a cada edição.
Nem de propósito, informação acabada de chegar sobre o post anterior: Chimamanda Ngozi vai ser publicada em Portugal, pela Asa: Half of a Yellow Sun, informa a Carmen Serrano (Asa) sairá na próxima Primavera.
Chimamanda Ngozi, repetimo-lo, é uma das grandes revelações da festa literária de Paraty. Não só pela juventude (30 anos) e sorriso luminoso, mas sobretudo pela irreverência com que combate os clichés inevitavelmente ligados a autores africanos e pela qualidade do seu segundo livro, Half of a Yellow Sun, publicado no Brasil com o título Meio Sol Amarelo (Companhia de Letras). José Eduardo Agualusa considerou-o mesmo uma "revelação". O enredo passado durante a Guerra do Biafra (1967-1970) valeu-lhe o Orange Prize de 2007. A escritora nigeriana, na verdade, cresceu na sombra do conflito - sombra intensa que levava a sua mãe a falar do piano que perdera nesses anos, mas não dos pais que morreram à força da bala. "Quis escrever sobre como as mães criam os filhos durante a guerra e os generais são meninos assustados com medo. No fundo, sobre as pequenas histórias da humanidade, como as crianças que não podiam beber o leite da Cruz Vermelha porque os pais achavam que estava envenedado. Nunca me interessou a parte mais sensacionalista da guerra, dos soldados mortos, dos batalhões, etc." Chimamanda reconhece-se numa nova geração de escritores africanos que rejeita rótulos de décadas. "O papel de intervenção é mais questionado quando o autor nasceu em África. Mas eu escrevo sobre o que quero e apenas procuro as melhores histórias. E, depois, quem define o que é ou não um tema africano?"
Este segundo livro de Chimamanda Ngozi, Half of a Yellow Sun (título original, 2006), já passou pela mão de editores portugueses, mas ainda não há fumo à vista.
A festa deste ano confirmou-o: Pepetela é um dos escritores de língua portuguesa mais acarinhados pelos leitores brasileiros. Mesmo dividindo a sessão - dedicada ao tema "Guerra e Paz" - com a jovem escritora nigeriana Chimamanda Ngozi, uma das grandes revelações da FLIP, foi o autor de Predadores (editado agora no Brasil pela Língua Geral) que mais aplausos recebeu - era vê-lo, sereno e feliz, a dar dezenas de autógrafos e a ser abordado nas ruas de Paraty. Pepetela falou da guerra de cinco séculos em Angola ("ela não começou em 1961"), do medo, da radicalização da personalidade dos soldados, de como "cada homem é uma situação limite" em combate. "Nós, os angolanos, fatalmente somos guerreiros e resolvemos os problemas pela via da violência. A História fez-nos assim. Talvez com o conhecimento da História as pessoas dêem mais valor à paz." O autor de O Quase Fim do Mundo (2008, Dom Quixote) apontou ainda o problema da nova geração de escritores angolanos ("têm boas ideias, mas poucos sabem escrever") e a falta de divulgação literária no seu continente. "Os autores africanos só se conhecem quando saem de África." A última pergunta da assistência justificou uma resposta pronta: "O melhor momento de unidade nacional aconteceu logo a seguir à independência. Não me parecia que o problema da cor da pele se pudesse agravar, mas agravou-se. A grande mestiçagem é um mito."
Paraty também tem destas coisas - e ainda bem. Oito escritores aceitaram o desafio de escolher e ler trechos dos livros (neste caso, lidos e relidos) que levavam para a tal ilha deserta.
A Piauí é uma das boas "redescobertas" da FLIP. Revista mensal independente, lançada há menos de dois anos, combina capas quase sempre ilustradas com textos de fino recorte jornalístico, entre grandes reportagens, perfis, artigos, ensaios. Tudo muito bem escrito. "A nossa vantagem é o privilégio da lentidão", explica o director João Moreira Salles. "Ela não nos atrapalha. Temos tempo para pensar, para ouvir todo o mundo, para escrever e reescrever."
A propósito de Como Falar dos Livros que não Lemos, de Pierre Bayard, alguns dos escritores convidados da FLIP escolheram os seus livros-não-lidos-preferidos: