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Um poema de Jorge Sousa Braga

SALMO

 

Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz 

não foi por mim

que te deixaste matar

Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem

não foi por mim

que morreste

Ninguém se deixa matar assim

para cumprir a vontade do pai

— Pai Pai faça-se a tua vontade! —

Ninguém se deixa matar assim

porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã

Não sei quantas maçãs já me ofereceste

sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar

do nosso apartamento de três assoalhadas

Não foi por mim que tu morreste

e ressuscitaste ao terceiro dia

É uma herança demasiada pesada

para se deixar a alguém

que só viria a nascer dois mil anos depois

e cujo único pecado foi nascer

Não foi por mim nem por ti nem por ninguém 

que tu morreste

e continuas a morrer todos os dias

Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer 

e voltar a morrer

Nem a vontade do Pai te serve de álibi

Não foi por mim que tu morreste

embora eu seja capaz de morrer por ti 

 

Jorge Sousa Braga, in O Novíssimo Testamento, ed. Assírio & Alvim