Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Continuidade dos parques
01 Junho, 2009

São cinco da tarde e eu releio, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. É sobre dois mundos que de repente se tocam e quebram, não sabemos bem como, uma barreira. No início, o protagonista retoma a leitura de um romance que encetara uns dias antes. No regresso à sua quinta, de comboio, após resolver assuntos urgentes, começa a «interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho das personagens». Logo que pode, fecha-se no escritório. Não está para ninguém. Afundado na sua poltrona preferida, enquanto a mão esquerda acaricia «uma e outra vez o veludo verde» do cadeirão, mergulha nos últimos capítulos do livro. Mergulhar é o verbo certo para descrever o que se passa. Embora ainda esteja consciente da suavidade do veludo e dos cigarros ali por perto, ele experimenta um «prazer quase perverso»: o de sentir que a realidade à sua volta se afasta (ou dissolve) gradualmente. Linha a linha, palavra a palavra, ele está cada vez menos no escritório e cada vez mais dentro da história, «deixando-se ir de encontro às imagens que se concertavam e adquiriam cor e movimento». Dentro da história, há uma mulher e o seu amante, determinados a viverem até às últimas consequências uma paixão que as circunstâncias mantiveram em segredo. As circunstâncias resumem-se a um obstáculo: o marido dela. Escondidos numa cabana, os amantes discutem. A mulher tenta evitar o crime (há um punhal escondido que espera a sua hora), procura enredar o amante com os gestos do amor, mas essas carícias apenas desenham «abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir». O destino está traçado; tanto o deles como o da vítima. Ajustam-se os pormenores, planeia-se cada acto, previnem-se os acasos. À porta da cabana, despedem-se e separam-se. Ela segue por um caminho, ele pelo caminho oposto, correndo através dos bosques até distinguir, na bruma do crepúsculo, a alameda que leva à casa. Tudo acontece como previsto: os cães não ladram, o mordomo está ausente. Ele entra em casa e segue as instruções. Atravessa a sala azul, a galeria. Sobe uma escada. Lá em cima, no primeiro andar, uma porta aberta. Punhal na mão, ele apercebe-se da luz que entra pelas janelas, vê um cadeirão de veludo verde e sentado, de costas, infinitamente vulnerável, o homem que lê, absorto, um romance. O marido. O leitor. A dupla vítima.
São cinco e picos da tarde. Acabei de reler, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. Estou sentado numa cadeira de plástico cor-de-laranja, diante de uma mesa de plástico cor-de-laranja, num dos topos da Feira do Livro de Lisboa. Na mesa, duas pilhas de livros de capa preta. Tenho a esferográfica a postos, à espera dos meus leitores (essa vaga categoria). Será que aquela rapariga de óculos? Não. O rapaz com o suplemento cultural debaixo do braço? Não. Aquela senhora com cara de quem vai à Gulbenkian todas as semanas? Também não. As pessoas passam, espreitam, seguem. Os adolescentes, carregando grossos volumes de Stephenie Meyer que devem fazer mal à coluna (fora o resto), nem olham. A poucos metros, António Lobo Antunes e uma fila gigantesca dos seus fiéis leitores (uma categoria nada vaga). O céu ameaça chuva, mas não cumpre. De mesa para mesa, os autores que não se chamam Lobo Antunes trocam piadas. Sempre se passa o tempo. Nos seus campeonatos particulares de autógrafos, o resultado final é sempre 1-0, 1-1 ou 0-0. Antes do meu golo de honra, antes do meu prémio de consolação, penso no conto de Cortázar. A continuidade dos parques. A ficção que entra na realidade porque a realidade está já dentro da ficção. No Parque Eduardo VII, ponho-me a escrever mentalmente um texto: é sobre alguém que está numa sessão de autógrafos, sem dar uso à caneta, e esboça uma crónica em que um leitor, como o assassino de Cortázar, atravessa Lisboa e vai ter com ele, ao exacto local onde os Parques (o verdadeiro e o imaginado) se tocam. Contra todas as evidências, o leitor aparece mesmo. E o texto, a crónica real sobre a crónica inventada, também.

 

Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009
As invenções de Morell
01 Maio, 2009

Livros de fotografia há muitos. Fotografias de livros há ainda mais. Já livros com fotografias de livros (isto é, livros preenchidos exclusivamente por imagens de lombadas e texturas de papel coberto de signos negros, obsessões de fotógrafo bibliófilo) não serão tantos assim. Eu, pela minha parte, só conheço um: o magnífico A Book of Books, de Aberlardo Morell (Bulfinch Press, 2006; versão reduzida do volume original, em grande formato, de 2002). São 52 imagens a preto-e-branco, irrepreensivelmente enquadradas, que funcionam como uma declaração de amor aos livros e à sua natureza física, à sua robustez e à sua precariedade, ao seu poder e ao seu mistério, sublinhada a espaços por citações de escritores (Emily Dickinson, Nathaniel Hawthorne, Jane Austen, Jean Cocteau, Stéphane Mallarmé, entre outros) que glorificam o lugar do livro no mundo.
Curiosamente, a epígrafe de A Book of Books é uma frase célebre de Jorge Luis Borges («I have always imagined that Paradise will be a kind of library», em inglês), frase cuja tradução desastrada fez com que a Byblos ostentasse durante a sua curta vida, numa das paredes, a ideia de que o Paraíso, para Borges, seria semelhante a uma «livraria». Talvez estivesse desde logo neste lapsus linguae, nesta confusão entre venda de livros e partilha de livros (a biblioteca em que pensava o autor de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius), o prenúncio do desastre em que a Byblos, menos de um ano após abrir as portas, se tornou.
Se viesse a Lisboa hoje, Morell encontraria decerto, nos três mil metros quadrados da que chegou a ser a maior livraria portuguesa (neste momento a ganhar pó enquanto se aguarda o desfecho de um complexo processo de insolvência), o tipo de material que mais gosta de fotografar. Refiro-me aos livros que exibem, como cicatrizes ou tatuagens, as marcas da violência que os meios hostis lhes provocam. Volumes em que as manchas de humidade parecem veios no mármore, livros carcomidos, molhados ou sujos de lama, encadernações antigas transformadas em ruínas. Muitas vezes, a câmara de Morell parece um olho que deambula pelo que sobrou de um naufrágio. E o fim da Byblos foi isso mesmo: um naufrágio. Um naufrágio cujos restos podem ser entrevistos, nas Amoreiras, pelas janelas e montras da loja nunca desfeita.
Se quisermos resumir tudo numa palavra, é a materialidade dos livros que fascina Morell. Além da visão, estas imagens convocam essencialmente o sentido do tacto. Apetece tocar nas palavras em relevo de um livro de provérbios para cegos, editado em 1841 (antes da adopção oficial do Braille). Ou seguir com a ponta do dedo as circunvoluções de um livro com páginas tão onduladas que parecem um perfil estratigráfico. Noutros casos, a fisicalidade é mais subtil ou irónica: veja-se o abraço entre os livros de Charles Dickens e Ellen Ternan (amantes na vida real).
De uma forma ou de outra, há sempre um grau de encenação nestas imagens. Na fotografia intitulada Dois livros de astronomia, por exemplo, o telescópio da gravura de um deles observa a galáxia representada no outro. Junto a uns versos de Samuel Butler, que falam dos livros como «almas aprisionadas», à espera de que alguém as retire da prateleira e as liberte, vemos um retrato feito por Raphael, de um homem que espreita, nas páginas ligeiramente entreabertas, como de uma cela. E numa página qualquer de O Adeus às Armas, de Hemingway, o foco da máquina resgata apenas algumas palavras («inside», «felt», «my hand», «went», «my», «very», «afraid», «however»), lembrando a existência dessas palavras por si mesmas, independentemente da sua função utilitária no interior do texto.
Há também a solidão dos livros, evocada por Nicholson Baker no prefácio: «A maior parte das vezes, as páginas vivem as suas longas vidas na escuridão, mantendo escondidos os fardos de tinta que cada uma delas carrega, muito apertadas umas contra as outras, não comunicando seja o que for, até que de repente, como a lâmpada do frigorífico que parece estar sempre ligada mas quase nunca está, a uma delas é dada a oportunidade de falar. E ela fala.» É esse momento em que a página se acende que Morell capta, com a delicadeza própria dos amantes.
 

Crónica publicada na edição nº 80 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
O que ela andou a ler
01 Abril, 2009

«Este livro é uma grande ideia – e uma das coisas mais interessantes e frustrantes que alguma vez fiz», explica Ali Smith, logo no início da introdução a The Book Lover (Anchor Books, 467 páginas, 2006). Para sermos mais precisos, a «grande ideia» partiu de uma amiga, Becky Hardie, editora experiente com quem Smith trabalhou numa colecção de ficção breve da Granta Books. «E se agarrássemos nas leituras preferidas de alguns escritores, não só as leituras actuais mas de toda uma vida, e fizéssemos uma antologia com isso?»
Ali Smith ofereceu-se logo como cobaia. A princípio com o entusiasmo infantil de quem abre a porta do sótão, há muito fechado à chave. Depois com o pânico da escolha e da necessidade de preterir textos, autores, épocas inteiras. Porquê este e não aquele? O clássico dilema do antologiador. «Veja-se o caso de [Virginia] Woolf, por exemplo, e todos os seus livros ali na estante, à minha frente. Como poderia eu escolher entre a sua ficção e os seus textos críticos, entre os seus diários e as suas cartas?» Mesmo imaginando que optava pela ficção, a dúvida permaneceria: qual dos romances? Ou qual dos contos? «Nunca deixaria de ser um compromisso.»
Para dificultar ainda mais as coisas, Smith decidiu seleccionar, com uma ou duas excepções, apenas textos editados pela primeira vez no século XX, o que levantou o sempre delicado problema dos direitos autorais. A negociação com os detentores destes direitos equivale muitas vezes a um labirinto burocrático, demorado e dispendioso, razão pela qual não encontramos nesta antologia uma só palavra de James Joyce, Raymond Carver, Alice Munro, Susan Sontag ou Flannery O’Connor. «Este livro acaba por ser uma liturgia de ausências», assume a autora de Hotel Mundo, mas isso deve servir apenas como um desafio para o leitor «pôr mãos à obra e reler os escritores que não estão aqui».
Dito isto, os autores presentes chegam e sobram para as encomendas. Durante dois dias, Smith fechou-se em casa e espalhou livros no chão da sala da frente, recriando o puzzle dos momentos essenciais da sua vida de leitora, um percurso que começou precocemente (aos três anos) e conheceu vários momentos de autêntico frenesi bibliófilo. Depois, encaixou os 89 textos seleccionados em seis categorias: «Raparigas» (de Jane Austen a Virginia Woolf, passando por Angela Carter, Marina Tsvetayeva, Marilynne Robinson e Margaret Atwood), «Diálogos» (que inclui poemas de John Keats, Czeslaw Milosz, Margaret Tait, W. G. Sebald), «Viagens» (secção tão heterogénea que junta John Donne, Katherine Mansfield, Joseph Roth, Kate Atkinson, W. B. Yeats e Louise Brooks; sim, a actriz), «O Mundo» (Wallace Stevens, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Philip Larkin, Gertrude Stein, Jeanette Winterson), «Histórias» (William Blake, Joyce Carol Oates, Anne Frank) e «Crenças» (Shakespeare, Simone de Beauvoir, e. e. cummings, Italo Calvino, Rainer Maria Rilke).
O principal mérito desta antologia é a sua imprevisibilidade. Ou seja, mesmo quando os escritores escolhidos são canónicos, os textos citados geralmente não o são. De Katherine Mansfield, por exemplo, podemos ler uma entrada do seu diário (15 de Dezembro de 1919), de Shakespeare uma passagem do quarto acto de Cymbeline e de Sebald uns versos sobre o rosto desconhecido do pintor Grünewald, que dialogam com um texto de John Berger sobre a Crucificação de Cristo, feita pelo artista germânico num retábulo em Colmar. 
Como se vê pela amostra, a escocesa Ali Smith é capaz de misturar tudo e mais alguma coisa. Lado a lado, perfilam-se clássicos absolutos e compatriotas obscuros, um excerto biográfico da cantora Billie Holiday e uma crónica de Clarice Lispector (Estado de Graça), nomes quase esquecidos (J.M. Synge) e autores de outras latitudes (Dubravka Ugresic, Amos Tutuola). O resultado não podia ser mais idiossincrático. Se cada escritor é também o somatório das leituras que foi fazendo ao longo da vida, então este The Book Lover oferece-nos um mapa possível para aceder ao território literário de Smith. Um mapa estranho, cheio de curvas inesperadas e acidentes na paisagem, mas por isso mesmo desafiador e fascinante.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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Domingo, 1 de Março de 2009
A banana de Scliar
01 Março, 2009

No início do século XX, um rapazinho russo foge, com a família, da revolução bolchevique e chega a Porto Alegre (Rio Grande do Sul), no porão de um navio de carga. Durante a viagem de cinco semanas através do Atlântico, o futuro imigrante passou fome. Está muito frágil, esquelético, subnutrido. No cais, ao ver o seu estado, um gaúcho hospitaleiro oferece-lhe uma banana. O miúdo compreende que se trata de uma coisa de comer, embora não saiba como. Português não fala, por isso mexe no fruto esquisito, experimenta-o. «Até descobrir que a banana se descasca. Ele sabia que a laranja se descascava, porque na Rússia, nos dias de festa, costumava haver uma laranja para distribuir pela família inteira (um gomo para cada um). E ele sabia que a laranja tinha casca e caroços. Ao descascar a banana, apareceu uma coisa que ele julgou ser o caroço da banana. Deitou fora esse caroço e, para surpresa do gaúcho, comeu a casca de banana até ao fim.» Muitos anos mais tarde, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, seu filho, que é quem fala dentro destas aspas, haveria de pegar na história e contá-la «mais de mil vezes». A última foi no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, e o desenlace voltou a despertar gargalhadas e aplausos na plateia: «Meu pai morreu com mais de 80 anos e nunca deixou de me dizer: “sabe, filho, casca de banana não é tão ruim assim como a gente pensa”.»
É disto, sobretudo, que se fazem as Correntes. Das histórias contadas por autores sentados à mesa, diante de um auditório sempre cheio, mesmo nas sessões que começam às dez e meia da manhã. Ninguém sabe como explicar isto, mas a verdade é que o fenómeno se repete anualmente, sem atrasos nem sobressaltos, e todos os escritores se rendem à organização quase invisível, mas extraordinariamente eficaz, de Manuela Ribeiro e Francisco Guedes, os coordenadores que gerem com cordelinhos mágicos uma equipa e um encontro exemplares.
Este ano, na muito concorrida 10.ª edição, além da história do autor de Os Leopardos de Kafka, houve outras que maravilharam os espectadores. Por exemplo, a de Joaquim Arena, um autor cabo-verdiano que cresceu numa casa onde havia apenas quatro livros: Lady L., de Romain Gary; O Barão Trepador, de Italo Calvino; um outro de que não se recorda e a Bíblia. Quando escrevia cartas aos familiares, a avó fechava-se com a biblioteca mínima numa sala e Arena sempre supôs que ela precisasse dos livros como caução literária. A verdade era mais prosaica: «Um dia descobri que a minha avó usava os livros, sim, mas para guardar selos: os para a Europa dentro do Barão Trepador, os para a América dentro de Lady L. e os para Cabo Verde dentro da Bíblia, claro.»
Se o espaço desta crónica fosse elástico, caberiam aqui ainda outras belas histórias (as de Juan José Millás, Héctor Abad Faciolince, Paulina Chiziane, Andrea Blanqué, António Orlando Rodriguez, Luandino Vieira, etc.). Como não é elástico, o «caroço» comestível tem que ser deitado fora. Fica uma ideia ténue do que por lá se passou. A casca. Talvez não tão ruim assim.

 

Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER.

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