Tens pesadelos de vez em quando? Ainda bem, assim a vida parecer-te-á mais agradável. Senta-te bem na cama e ouve. Sonhas muito com monstros e com animais ferozes? Eu também. Os adultos é que não. Os pesadelos dos crescidos nadam noutras águas. A prestação da casa que quadriplicou, o FCP que ganhou outro campeonato, os macacos a mandar no mundo.
Os pesadelos são treinos como o minimat ou os ensaios de ballet de que tanto gostas. Deitados e a dormir enfrentamos mais perigos do que Hércules, cujas aventuras tantas vezes te contei (a minha preferida é a do javali gigante). Se nós, as crianças, temos pesadelos com monstros e animais, é porque de noite voltamos a ser animais. Quando fores mais velha perceberás isso, embora nessa altura talvez já não haja grande distinção.
Os bichos que nos comem. É normal que tenhamos medo de acabar na barriga de um desses, afinal viemos de dentro da barriga de um desses. Houve uma altura, dentro da barriga da tua mãe, que tu foste igual a um tubarão. Imagina a tua mãe com um tubarão na barriga.
Voltemos à vaca fria. Imagina uma noite a trepar as escarpas de Bundibuygo, no sopé das montanhas da Lua, no Quénia, há quase cem anos. Sem telemóveis, sem GPS, sem nada. Imagina acampar à noite, sem luz, sem fogueira, porque chove torrencialmente. A escuridão é tal que nem topas a long grass que te rodeia. Mas eles estão lá. Tu sabes.
O personagem desta história é o princípe de Gales e a data é 1930. Quem está a ajudar o príncipe é o barão Bror Blixen, que aparece no África Minha, um filme de que as meninas gostam muito porque é o Robert Redford que faz de Finch Hatton (também caçador e que na vida real era careca). O guia do príncipe desorientou-se e, assim, acabou a comitiva, sentada na selva, às escuras e à chuva com os leões a rugir a poucos metros. Um bom pesadelo, não achas? O que salvou a situação, conta Brian Herne (escritor e sobrinho de um famoso caçador), foi uma garrafa de whiskey que o príncipe tinha insistido em trazer, apesar de o guia lhe ter dito que não era necessário, que Fort Portal era já ali pertinho. A garrafa passou de mão em mão e a noite passou-se melhor. O medo permaneceu.
Pedes-me sempre para te tirar os pesadelos e às vezes isso funciona. Um senhor, que te darei a ler quando fores mais velha, Primo Levi, viveu metade da vida com pesadelos terríveis. Eram terríveis porque ele tinha-os acordado, e não a dormir, como tu. E eram terríveis porque, em vez de leões, ele esteve frente a frente com monstros humanos. Um leão só distingue o que é para comer e o que não é. Os monstros humanos de Levi faziam distinções diabólicas. Matavam consoante o tipo de sangue, a língua que as presas falavam, ou aquilo em que as vítimas acreditavam. Com monstros desses não se pode adormecer, é preciso estar sempre bem acordado. Levi cansou-se, coitado. Não aguentou.
Tu não sabes, mas quando te passo a mão na testa e te tiro os pesadelos, também tiro os meus. Ou pelo menos tento.
Um senhor muito famoso, o Dr. Freud, não tinha os sonhos das crianças em grande conta. Dizia que os teus sonhos são simples, porque sonhas com o que te acontece. O Dr. Freud conta o caso de uma menina que tinha sido proibida de comer framboesas e que de noite falava nelas; também conta o sonho de uma menina que tinha ido passear de barco num lago e tinha ficado triste porque o passeio tinha sido curto. No dia seguinte contou que tinha sonhado com uma grande viagem de barco num lago. O Dr. Freud também achava que a maior parte dos sonhos das crianças – e de alguns adultos – eram bekemlichkeistraume: «sonhos de comodidade». Por exemplo, se tivermos sede de noite sonhamos que estamos a beber; a sede desaparece e assim evitamos acordar.
O Dr. Freud estava enganado. Os pesadelos das crianças não têm necessariamente a ver com o quotidiano nem têm de ser bekemlichkeistraume. Quando sonhas que os leões estão ao teu redor, numa noite como a de Bror Blixen e do príncipe de Gales, sonhas com o quê?
O medo não precisa de framboesas ou de passeios no lago. O medo está alojado numa parte do nosso cérebro, numa parte pequenina. Vem de um tempo em que lutávamos para sobreviver. Nós, as crianças, sabemos isso. Alguns adultos, como os monstros de Levi, também.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Abstinência. Esta palavra provoca erosão mental acentuada, tosse convulsa, aftas e engarrafamentos. O Papa deu o flanco ao associá-la à ineficácia do preservativo, o que possibilitou os sintomas descritos. Pois bem, falemos dela sem falar de sida. Só por falar.
Um dos mandamentos inquestionáveis dos nossos dias reza que só somos felizes e dignos se todas as bocas, pilas, pipis, rabos e mamas se relacionarem sem constragimentos de espécie alguma. Pode o Planeta sobreaquecer, podem os irmãos Castro continuar a prender poetas e jornalistas, pode o tigre da Sibéria desaparecer, pode tudo. O que não pode deixar de correr é o sexo livre. As crianças, em princípio, ainda são intocáveis, tudo o resto vai para a tosta mista.
Se esse mandamento está correcto, a abstinência sexual é uma coisa altamente perigosa, assim ao nível do penálti à Panenka. Claro que há quem diga que as doses elefantinas de antidepressivos e ansiolíticos que os povos sexualmente mais liberais engolem – os escandinavos, por exemplo – não são propriamente compagináveis (como dizem os parolos) com a suposta felicidade orgástica alcançada à custa da supressão da abstinência. Talvez seja do frio. Ou do excesso de bacalhau fresco.
Nos hindus, a brahmacharya (castidade absoluta) é uma salada que liga a abstinência sexual à autodisciplina e à salvação. No Kangra, região do Himachal Pradesh e terra dos gaddis, é habitual ver uma ou duas mulheres – por aldeia – vestidas como homens. Usam roupas masculinas e cortam o cabelo rente. São as sadhins, forma feminina do masculino sadhi – asceta. Recusam o sexo. Assim só. E, imaginem, não é por ordem do Papa nem vivem em conventos. E, imaginem, sobrevivem.
Na louca Madrid, na movimentada Londres, ou na cosmopolita Fervença, travar a aptidão sexual será assim tão pecaminoso? Que filmes perdemos quando não atingimos os 10 parceiros mensais? Paga-se mais IRS?
Os nossos irmãos muçulmanos entendem que nos portamos como bonobos (ou pelo menos um primatologista muçulmano entende isso). Os nossos irmãos muçulmanos são um bocado chimpanzés: grande agressividade macho-macho e intensa dominação masculina sobre as fêmeas. Nós já fomos assim. Agora somos mais neuróticos: nem as crianças escapam.
Voltando à vaca fria: se um homem desistir de ir para a cama com a quinta parceira da semana é menos homem por isso? Se uma estudante alemã decidir que para o ano só chupará duas pilas diferentes, a sua condição político-social sofrerá barbaridades?
Os mazatecas dizem que «ficar limpo» (tsjé) dá sorte às colheitas de milho. É uma perpectiva. E parece que essa mania é pré-colombiana, portanto anterior à cristianização. Não há milho em Londres nem em Madrid (em Fervença não digo nada) e nada me diz que o euromilhões beneficia os que disciplinam os genitais. Deve haver outra saída.
O velho Reich julgava ter descoberto a energia vital do Universo: a orgone. Essa coisa – é um bocadinho doloroso de explicar – seria libertada pela tensão orgástica; seria azul e seria a fonte da vida. Reich queria toda a gente a foder. Antes assim. Ao menos um bom motivo.
Infelizmente, do meu ponto de observação – a terceira prateleira da despensa – as coisas são mais simples. Abstermo-nos de fazer sexo sempre que nos apetece não é nem terapêutico nem moralmente elevado. É apenas normal. Passo a explicar: exceptuando os fanáticos religiosos, todos entendemos que evoluímos a partir dos macacos. Passámos a falar, a escrever, a ver cinema, a sofrer pelo Benfica; deixámos de limpar o rabo com os dedos e começámos a desenvolver teorias que justificam o assassínio em massa. Naturalmente que nos libertámos do esconso hábito de saltar para cima da nossa avó apenas porque está calor.
Resumindo: seja porque são muçulmanos, seja porque são católicos, seja porque não acreditam no Reich, seja porque não querem ficar viciados em comprimidos, descubram as vantagens de uma vida livre da publicidade a chocolates associada a mulheres nuas.
Se tal não vos bastar, pensem nisto: os gorilas são feios.
Crónica publicada na edição nº 80 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Logo a seguir a Ésquilo, é Heródoto que lerpa com o rótulo de orientalista, embora de forma menos consistente. É um suspeito disponível: um «ocidental» que viaja pelo Oriente e o descreve utilizando o poder de criar representações sobre o «Outro». Um «Outro» oriental. Que eu tenha conhecimento, em toda a obra de Edward Said o acusado não merece mais do que quatro ou cinco linhas. Mas estão lá. São um detalhe e o Diabo está nos detalhes.
Said queixa-se do esquecimento a que foram votadas as raízes afro-asiáticas da Grécia Antiga e Heródoto viaja precisamente por esses territórios. Um exemplo: a descrição da campanha egípcia de Cambises. O exército persa conquista Pelúsio e avança depois sobre Cirene em direcção à Líbia. O exécito persa de Cambises incluía uma armada constituída por gregos da Iónia e da Eólia (Heródoto, Livro III; 1:1, Edições 70, 1994). Como ficamos de orientalismo?
Heródoto menciona esse detalhe de comando e serviços para recordar que etnias gregas da Ásia Menor já haviam sido vítimas de anteriores conquistas persas (Maria Fátima Silva e Cristina Abranches, no prefácio ao Livro III). No entanto, se seguirmos o conselho de Said (não esquecer as raízes afro-asiáticas da Grécia Antiga) essas etnias não se constituíam como ex-colonos gregos: eram Gregos. Confuso? Não. O orientalismo é muito simples: escolhe-se uma tese – «o Ocidente desde sempre construiu o Oriente» – e depois tenta-se adaptar os factos à tese. Se houver azar, como dizia Hegel, tanto pior para os factos.
Isso não significa que grande parte do arquivo de que Said fala (e cujas características sintetizei no número anterior desta revista) não tenha existido. Também é evidente que a dominação colonial existiu e assentou na exploração material e humana dos colonizados, ainda que essa exploração não tenha sido maior da que estes sofriam (e sofram) às mãos dos seus conterrâneos – a escravatura em África precedeu largamente a aventura colonial.
Numa passagem da célebre intervenção na Conferência do Lago Como, Gramsci explica a Bordiga que se alguém for a Ales (aldeia natal de Gramsci na Sardenha) falar aos camponeses sobre a luta contra o capitalismo estes não entendem, pois dirão que tal coisa não existe lá. Em Culture and Imperialism (Vintage Books, 1994), Said demonstra não querer incorrer nesse erro: é preciso universalizar o conceito. Por isso começa no colonialismo grego para acabar no colonialismo anglo-francês, o braço armado do capitalismo.
Massignon é citado por Said: «Lutador infatigável em defesa dos direitos dos árabes muçulmanos e dos cristãos na Palestina contra o sionismo.» No entanto, até Massignon sofre do pecado orientalista, porque – entre outras coisas – ousou escrever que «les vieilles civilizations des nations orientales furent très superieures à leur état present» (Les Appels de l’Orient, 1925). Said não suporta que a diferença actual entre Oriente e Ocidente seja a diferença entre modernidade e tradição.
Nos nossos dias, intelectuais islâmicos como Souroush (que vive com a cabeça a prémio) e Shabestari (ex-director do Centro Islâmico de Hamburgo e Doutor por Qum) opõem a modernidade ao islão. Said não chegou a discuti-los e é pena. Poderia, por exemplo, ter comentado Souroush quando este diz que a secularização e os direitos do Homem levam-nos a uma compreensão subjectiva do homem incompatível com o estatuto da Fiqh, a jurisprudência muçulmana. Ou a carta que Souroush enviou ao Presidente Khatami, em Julho de 2003, na qual diz que as «novas gerações não devem esquecer que no Irão o melhor jornal é o que está fechado, a melhor caneta é a que está partida e o melhor pensador é aquele que não existe».
É o problema da verdade, é o problema do orientalismo. Como diz Said, «o que interessa é saber se pode haver uma representação verdadeira do que quer que seja». As entrevistas coligidas em Power, Politics and Culture (Vintage Books, 2002) revelam um Said mais obcecado com as posições americanas e com o «colonialismo burguês israelita» do que com a resposta à pergunta formulada em Orientalismo. O pretexto é «o afastamento das fórmulas redutoras que ignoram as experiências concretas». Sim, mas quantas vezes as experiências concretas (o comunismo soviético ou a revolução iraniana, por exemplo) são ainda mais redutoras do que as fórmulas que as inspiraram?
Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
Para Edward Said, e em virtude da sua biografia, o colonialismo e o imperialismo não eram abstracções. Já em Orientalismo o conceito é mais abstracto: o Ocidente imperialista, colonizando, construiu (e desenhou à medida dessa construção) o resto do mundo. Daqui decorre a representação errada, por definição e mandato genético, do Oriente; por arrastamento, o empobrecimento do tal resto do mundo.
Said escreve muito bem, é retoricamente sedutor e tem razão em muitos – não em todos – pontos. Mas há rabos-de-palha.
A experiência colonial é o leito de Procustes no qual Said estica, encolhe, tortura, aumenta e diminui a realidade actual. Numa entrevista concedida dois anos antes da publicação do seu best-seller, Said já resumia o argumento do filme:
1) O orientalismo é uma família de ideias que remonta a Heródoto, passa por Dante e Herbelot e chega a Balfour e Kissinger.
2) Escritores, filólogos e historiadores do século XIX: todos desenharam, pintaram e compuseram o quadro no qual se deve reconhecer o Oriente. A imaginação do orientalista é directamente projectada na administração colonial, que por sua vez é convertida num sistema de regras, exclusões e proibições que atingem os orientais no Oriente.
3) O Moderno Orientalismo consiste na passagem do testemunho das escolas coloniais francesas e inglesas ao imperialismo americano.
A definição de orientalismo é, portanto, a de «um poder intelectual […] que constituiu uma biblioteca ou arquivo de informações adquiridas em comum. Uma família de ideias e um conjunto de diferentes maneiras mantiveram o arquivo unido: estas ideias explicavam o comportamento dos orientais».
De Culture and Imperialism e Power, Politics and Culture falaremos no próximo número. Por agora fiquemo-nos por Orientalismo (edição portuguesa da Cotovia, 2004) e por uma armadilha.
Edward Said, que tanto critica o essencialismo orientalista, diz precisamente que na essência do orientalismo está a distinção inalienável entre a superioridade ocidental e a inferioridade oriental. Quem ler Orientalismo recolherá inúmeros exemplos retirados dos pecados de historiadores, políticos, poetas e filólogos, sobretudo dos séculos XVIII, XIX e XX. Mas Said tem mais fome do que barriga e lembrou-se de incluir Ésquilo na redoma dos orientalistas. Compreende-se a tentação: o orientalismo tem de ser um pecado antigo. O que acontece é que a leitura que Said faz da peça de Ésquilo pode – e deve – ser contestada.
A peça escolhida é Os Persas. Eu leio-a como Maria Helena da Rocha Pereira (Estudos de História da Cultura Clássica, Gulbenkian, 2003) a lê: «É uma peça que impressiona e comove pelo respeito com que trata a cultura do outro lado, mas também porque vive a experiência da Guerra do outro lado.» Os persas perdem a Guerra, não há volta a dar, e, apesar de todo o respeito e sensibilidade com que Ésquilo trata Atossa, Xerxes e Dário, Said vê outra coisa:
«O Oriente deixa de ter o carácter de um outro distante e ameaçador e assume uma configuração familiar. O imediatismo dramático da peça obscurece o facto de o público estar a assistir a uma representação artificial daquilo que um não-oriental transformou em símbolo de todo o Oriente.»
Maria Helena da Rocha Pereira sublinha que a interpretação do destino de Xerxes é feita não à luz da mentalidade oriental, mas da grega, porquanto o considera um castigo (Xerxes tenta domar o Helesponto). Mas há mais. O que Ésquilo nos relata é a superioridade da Hélade, da democracia grega sobre sobre a tirania e autocracia persas (Frederico Lourenço, Grécia Revisitada, Cotovia, 2004).
Todo o argumento de Orientalismo reside na noção de representação como instrumento de poder: quem representa, cria. Mas em Os Persas, para além de tudo o resto, se existe alguma representação é a da própria Hélade e dos seus valores. Como compreender esta inclusão de Ésquilo, a mata-cavalos, na galeria do orientalismo?
Uma resposta simples envia-nos para a distracção: Said tresleu Ésquilo. Outra possibilidade, mais sombria, aposta que a crítica ao orientalismo sofra do mesmo mal do paciente: essencialismo e vontade de representar, portanto, de criar, o Outro.
Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
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