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As novelas premiadas

Mais novelas do que contos, estas três histórias de Teresa Veiga (n. 1945) planam, antes de tudo, sobre o mistério dos destinos à maneira da mitologia rural. A evocação das Parcas (na primeira, com o mesmo título), da licenciosidade (na segunda) e do demónio (na terceira) elevam-nas e orientam-nos para o universo do fantástico, onde até mesmo o explicitamente impresso nos deixa suspensos sobre dúvidas. Estruturalmente muito bem organizadas estas novelas registam círculos quase inteiros de vida narrados por terceiros. Desde a inversão de vontades: a de uma mãe curiosa e dinâmica que se esforça por introduzir a filha, pouco entusiasta e algo apática, no universo das viagens (entendidas como aventura de descoberta) e da arte; passando pela evocação do dom-juanismo: na pessoa do marquês de Bradomín, actor profícuo (e discretíssimo, como convém) de um vasto número de episódios de sedução consumada, num curto período de tempo e no espaço de apenas um casarão; até à fragmentação do diabo em forma de gente: capaz de fecundação, mas perecível enquanto figuração do mesmo. Os enquadramentos desenvolvem-se numa linguagem plana, sugerindo distância relativamente ao hipotético realismo mágico que uma leitura menos atenta possa evocar (não é casual a referência a Isabel Allende colocada na boca de uma visitante impertinente em «O Maldito, Marianina, e o Feitiço da Rocha da Pena»). Com estas novelas entramos no universo do fantástico e é flectindo sobre ele que Teresa Veiga escreve. [Cotovia, 172 págs.] 

 

Crítica assinada por Dóris Graça Dias na edição de Janeiro de 2009.

Contos de Alice Munro

Primeira advertência: para quem gosta de contos, a leitura da obra de Alice Munro será um prazer raro. Segunda advertência, e um lamento: foram precisas quase quatro décadas para que a edição portuguesa a descobrisse. Seis meses depois da primeira tradução de Munro, com a antologia Fugas (primeiro publicada em 2004), a Relógio d’Água reincide e propõe os oito contos de O Amor de Uma Boa Mulher (uma recolha original de 1998). A descoberta da autora canadiana nesta dose dupla permite entrar a fundo na sua máquina de conversão de material autobiográfico em histórias que, com a paisagem de fundo do seu Ontário natal, são exímias na descrição da evolução temporal dos sentimentos e laços afectivos das personagens.
Tal como aconteceu com a canadiana Margaret Atwood no romance, Munro foi adoptada nos anos 70 pelos norte-americanos como um dos «seus» melhores contistas – no seu caso graças à publicação regular de contos na revista The New Yorker. Com 12 antologias e um romance publicados, Munro (hoje com 76 anos) é conhecida pela sua capacidade de conferir um movimento elástico à narrativa. Num estilo aparentemente económico e directo, ela penetra na psicologia dos personagens através da acção e dos diálogos, rejeitando as descrições estáticas. Para o leitor, esta forma de contacto com as realidades quotidianas dos personagens resulta numa experiência dinâmica e comovedora.
Nos contos de Munro, os catalisadores da acção podem ser movimentos de fuga a um matrimónio, a um passado, aos laços familiares ou às limitações provocadas pela doença ou pelo envelhecimento (como em Fugas). Por vezes, resultam de impulsos de identificação, concretização ou repulsa de fantasias (todas elas femininas, em O Amor de Uma Boa Mulher). Mas o que marca a originalidade destas histórias é a extrema atenção dada a pequenos pormenores (lembranças, palavras ou factos) que desencadeiam e iluminam a compreensão do universo de cada personagem.
Tal como diz Robin, a protagonista de «Truques» (Fugas), «basta movermo-nos um centímetro para aqui ou para ali e estamos perdidos». A intuição de Alice Munro permite-lhe determinar e descrever esses epicentros de crise. No brilhante «Podre de Rica» (O Amor de Uma Boa Mulher), a personagem Karin descreve-se como «algo de imenso, de tremeluzente e autónomo, com picos de dor em certos sítios, e no restante uma extensa e monótona planície». São assim os personagens de Munro: imensamente iguais a nós e dramaticamente diferentes. [Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher. Tradução de José Miguel Silva. Relógio d’Água, 265 págs.]

 

Texto de Filipa Melo publicado na edição nº70 da LER (Junho de 2008).