Ruas, caminhos, labirintos, cruzamentos, viagens. A geografia literária (de cada leitor, de cada escritor) marcou o dia de ontem, nas Correntes. Antonio Orlando Rodriguez só sentiu que chegou a Alexandria quando conseguiu deitar-se na cama de Kavafis; José Mário Silva viajou até à Patagónia, com Chatwin, e a East Anglia, com Sebald, sem sair das páginas dos livros; Santiago Gamboa só percebeu que as ruas de Bogotá (onde nascera) não estavam orfãs de literatura quando foi estudar para Madrid, aos 19 anos; Eloy Santos falou sobre os escritores encallados (de calle) - «da impossibilidade do caminho nasce a possibilidade do relato, da narrativa»; e Gonçalo M. Tavares contou histórias, algumas dos seus livros, outras das suas viagens, e demorou-se propositadamente na palavra «reparar». (cont.)
Luis Fernando Veríssimo (n. 1936) à entrada do restaurante, hoje. Quem leu A Mesa Voadora (Dom Quixote, 2003) ou O Clube dos Anjos (Dom Quixote, 2000), por exemplo, sabe que há motivos mais do que nobres (ou perversos) para seguir gastronomicamente este fabuloso escritor gaúcho.
Manuela Ribeiro (na foto com José Mário Silva) e Francisco Guedes, os dois rostos das Correntes. Sempre atentos aos pormenores.
«Os meus olhos de escritor de repente disparam, alguma coisa cai, eu recolho e levo para casa. Passado um tempo, que pode ser um mês ou um ano, torna-se a minha presa, levo-a para a cozinha e preparo-a com requinte.» Paulina Chiziane, escritora moçambicana, publicada em Portugal pela Caminho.
Moacyr Scliar (n. 1937, Porto Alegre) é um grande contador de histórias. E contou mais uma (já repetida mil vezes, garantiu) no auditório principal das Correntes, poucos minutos antes das onze da manhã. Tema em cima da mesa: «O Medo ou o Fascínio do Desconhecido». Moacyr, repetimo-lo nós agora, quis contar uma história, a história (aqui resumida) da chegada do seu pai, aos 10 anos, a Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, depois de uma viagem de semanas no porão de um navio de carga. Magríssimo, despertou rapidamente a atenção de um gaúcho que esperava os emigrantes no cais. Quando recebe uma banana (nunca tinha visto tal fruta) lembra-se de que a única fruta que comia na Rússia (uma laranja a dividir por nove irmãos, em dias de aniversário) tinha caroço. Ali, no cais, o pai de Moacyr come a casca da banana e deita fora o «caroço».
«O escritor», conclui Scliar, «é alguém que olha para a banana e come a casca», que entra permanentemente num território desconhecido. Como aconteceu com o seu pai, aos 10 anos.
Mesmo em Lisboa, o Pedro não quis deixar de estar presente.
Quem está farto das palavras? «Estou farto das palavras», tema de uma das mesas das Correntes, ontem. Tema provocador, avisou Carlos Pinto Coelho, no papel de moderador. Mas são as palavras (provocadoras ou não, pouco importa) que justificam as Correntes. Das palavras que os alunos das várias escolas da Póvoa ouviram de Dulce Maria Cardoso, João Paulo Cuenca, José Luís Peixoto ou Eucanaã Ferraz; das palavras que teimam em não passar para a folha em branco, das palavras publicadas no novo romance de Helder Macedo (Natália, ed. Presença), nos livros de autores sul-americanos (Andrea Blanqué, Álvaro Uribe, Adriana Lisboa, Héctor Abad Faciolince) editados pela Quetzal, e nos títulos apresentados, já noite dentro, numa sala do hotel onde o grande desafio era encontrar uma cadeira livre (entre eles, A Escriba, de António Garrido, O Mundo, de Juan José Millás ou Chiquita, de Antonio Orlando Rodriguez); nas palavras gastas que tanto «arruinam casamentos como editoras», como explicou Victor Andresco, que nos podem salvar (Rui Cardoso Martins) quando a morte aparece cobardemente, ou que faltam quando a imaginação é torrencial (Daniel Galera); palavras que mudam (mudam mesmo) a vida das pessoas, como contou Luis Fernando Veríssimo a propósito de uma das obras-primas do seu pai (Olhai os Lírios do Campo), palavras desenhadas com prazer a lápis (Almeida Faria), palavras cantadas por Paulina Chiziane, palavras escritas e lidas numa emocionada carta ao pai (Eduardo Bettencourt Pinto). (cont.)
Para além de Boulevard das Correntes, de Daniel Mordzinski, outro álbum lançado agora «fixa», em retratos, a história das Correntes através dos autores que passaram pela Póvoa ao longo de dez anos: De Caras com a Escrita, de Rui Sousa (n.1970), fotógrafo do semanário A Voz da Póvoa.
As biografias dos autores presentes na décima edição das Correntes também escondem notícias: Xavier Queipo, poeta e escritor galego, prepara com mais um grupo de 40 autores uma Constituição Europeia dos Poetas, que será apresentada em Bruxelas no próximo dia 27 de Março.
Nas Correntes também há equívocos, como aconteceu a Sara Figueiredo Costa.
Duas «revelações» durante mais um debate na tarde do segundo dia das Correntes: Alice Vieira guarda na carteira uma fotografia do escritor Erico Veríssimo (o filho, Luis Fernando Veríssimo, estava ali ao lado) e Almeida Faria, já lá vão uns anos, chegou a copiar o que aparecia no ecrã do seu computador para o papel, garantindo assim (acreditava ele) que não perdia nada do que escrevera.
«As palavras que estão gastas arruinam casamentos e editoras.» Victor Andresco, escritor espanhol, um dos oradores no debate intitulado «Estou Farto de Palavras».
... ou quase ao segundo. Aqui.
Uma das boas novidades desta edição das Correntes é a edição de Boulevard das Correntes, um belíssimo álbum fotográfico de Daniel Mordzinski (Argentina, 1960) com todos os escritores que passaram e continuam a passar pela Póvoa, como Adriana Lisboa.
Depois de almoço, a fotografia (politicamente incorrecta) de Carlos Quiroga, escritor galego que lançou o ano passado em Portugal o romance Inxalá - Espero por ti na Abissínia (QuiNovi).
De autocarro até ao restaurante, com José Luís Peixoto, Paulo Ferreira (Booktailors) e Francisco José Viegas em destaque.
Helder Macedo, ao lado de Maria Teresa Horta, durante a apresentação de Natália, o seu novo romance. Um diário escrito na primeira pessoa por uma jovem mulher. Um «risco», uma «ousadia», como afirmou.
«Para quê tantos desafios quando os maiores podem resumir aquilo que eles procuram? Pode ser Shakespeare, por exemplo.» Eduardo Lourenço, ontem, no primeiro debate das Correntes, subordinado ao tema «Desafios da Escrita».
Fotografia cedida pela organização das Correntes.
O ministro da Cultura, José Pinto Ribeiro, defendeu que um Plano Nacional de Escrita deve ser discutido politicamente. «O Plano Nacional de Leitura é um êxito e acho que talvez fosse possível fazer um Plano Nacional de Escrita, isto é, empenharmo-nos em também ensinar a escrever às pessoas que estão na primeira classe, na segunda classe, na terceira e na quarta classes e, depois, durante todo o secundário», acrescentou.
Fotografia via Blogtailors.
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