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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Como Salinger era visto pelos vizinhos

«This community saw him as a person, not just the author of The Catcher in the Rye. They respect him. He was an individual who just wanted to live his life.» Reportagem no NYT.

 

«Cornish is a truly remarkable place. This beautiful spot afforded my husband a place of awayness from the world. The people of this town protected him and his right to his privacy for many years. I hope, and believe, they will do the same for me.» Colleen Salinger, Guardian.

Escritores mais lucrativos na Europa em 2009

Stieg Larsson, Stephenie Meyer e Dan Brown foram os autores que mais venderam na Europa durante o último ano de acordo com a análise feita aos tops publicados em 10 revistas europeias, como a The Bookseller.

 

1. Stieg Larsson
2. Stephenie Meyer
3. Dan Brown
4. Paolo Giordano
5. Carlos Ruiz Zafón
6. Camilla Läckberg
7. Herman Koch
8. Tatiana de Rosnay
9. Henning Mankell
10. John Grisham

Três dias de José Cardoso Pires no Teatro São Luiz

16 de Janeiro

Clara Ferreira Alves, António Lobo Antunes e Júlio Pomar, entre outros, reúnem-se num encontro de amigos para recordar o escritor.

 

23 de Janeiro

50.º aniversário da publicação de O Render dos Heróis, com leituras de Carmen Dolores e Ruy de Carvalho, actores que estrearam esta peça em 1965.

 

30 de Janeiro

30.º aniversário da publicação de Corpo Delito na Sala dos Espelhos, com leituras de Lia Gama, Mário Jacques, Rui Mendes e António Montez.

 

No Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa. Programação e outras informações aqui e aqui.

 

Retrato a óleo de José Cardoso Pires (Júlio Pomar, 1954).

Um milhão de livros

José Rodrigues dos Santos atingiu esta semana, com a nova edição (a 11ª) de Fúria Divina (lançado a 24 de Outubro), a marca de um milhão de livros vendidos em Portugal, «que engloba as obras de ficção e não ficção. O livro mais vendido permanece O Codex 632, com 189 000 exemplares, embora Fúria Divina se tenha tornado agora a obra de mais rápida venda deste autor [150 mil exemplares]», lê-se no comunicado da Gradiva.

Martin Amis sobre o inédito de Nabokov

«Apart from a welcome flurry of interest in the work, the only thing this relic will effect, I fear, is the slight exacerbation of what is already a problem from hell. It is infernal, for me, because I bow to no one in my love for this great and greatly inspiring genius. And yet Nabokov, in his decline, imposes on even the keenest reader a horrible brew of piety, literal-mindedness, vulgarity and philistinism. Nothing much, in Laura, qualifies as a theme (ie, as a structural or at least a recurring motif). But we do notice the appearance of a certain Hubert H Hubert (a reeking Englishman who slobbers over a pre-teen's bed), we do notice the 24-year-old vamp with 12-year-old breasts ("pale squinty nipples and firm form"), and we do notice the fevered dream about a juvenile love ("her little bottom, so smooth, so moonlit"). In other words, Laura joins The Enchanter (1939), Lolita (1955), Ada (1970), Transparent Things (1972), and Look at the Harlequins! (1974) in unignorably concerning itself with the sexual despoiliation of very young girls.

Six fictions: six fictions, two or perhaps three of which are spectacular masterpieces. You will, I hope, admit that the hellish problem is at least Nabokovian in its complexity and ticklishness. For no human being in the history of the world has done more to vivify the cruelty, the violence, and the dismal squalor of this particular crime. The problem, which turns out to be an aesthetic problem, and not quite a moral one, has to do with the intimate malice of age.»

 

Texto completo no Guardian.

Biografias

São 700 páginas: tudo ou quase tudo sobre Charles Dickens, na nova biografia escrita por Michael Slater (Charles Dickens, Yale University Press. £25.)

 

 

E por falar em biografias, atenção à de Somerset Maugham, de Selina Hastings: The Secret Lives of Somerset Maugham (John Murray, £25.) «This steady-eyed biography of an extraordinary, extravagant, generous and bitter artist will not only fascinate its readers but encourage some to go to his work for the first time.»

García Márquez espiado

O diário El Universal, do México, revela que os serviços secretos mexicanos seguiram García Márquez durante anos:

«Un informe policial acusa al Premio Nobel de ser "un agente de propaganda al servicio de la dirección de inteligencia de Cuba".» | «La DFS buscaba durante la llamada "guerra sucia" (1960-1980) elementos subversivos afines a ideologías de izquierda.» | «Los documentos constatan su papel como mediador entre la izquierda latinoamericana y el presidente Miterrand.»

João Tordo: «Não tenho paciência para os puros contadores de histórias»

Novo romance, pelos vistos. É diferente dos anteriores? Explica lá porquê.

Porque é maior, mais estruturado, mais denso, com mais personagens e uma história que atravessa um quarto de século e que faz viagens constantes a outros momentos marcantes do século XX, a guerra civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial… E, também, porque conta a saga da família Millhouse Pascal, vista através dos olhos do protagonista, na qual temos um pouco de tudo: um velho misterioso com poderes mágicos, três netos rebeldes, um jardineiro assas­si­no, funâmbulos na corda bamba… e um final secreto em que o destino de uma das personagens principais se intersecta com uma das grandes catás­trofes do nosso século. E também porque deu imenso trabalho. Contente?

Nem por isso. Uma vez mais, a história é contada na primeira pessoa. Alguma coisa de «pessoal» nisso ou vais aldrabar e continuar a dizer que não?

Claro que é pessoal. Todos os escritores mentem quando dizem que não existe nada de seu nos seus romances: no meu caso, acho que as personagens reflectem, cada uma à sua maneira, os meus pontos de vista e sentimentos em relação ao mundo. Começo sempre na primeira pessoa porque gosto de um ponto de vista limitado, que não seja omnisciente, que me aproxime do leitor, isto é: só sabemos uma parte da história, não sabemos o todo. Somos limitados, finitos, queremos tudo mas, infelizmente, não dá. Depois o romance utiliza outros pontos de vista e narradores, mas o fundamental é que, uma vez que as histórias acontecem no mundo a partir do momento em que as imaginamos, gosto de olhar para elas a partir dos olhos dos meus narradores.

Já que falas nisso, continuas a achar que escrever e viver são coisas incompatíveis? Continuas a achar que é uma angustiante dicotomia?

Agora já acho que são as duas coisas idênticas. Julgo que a vida quotidiana é apócrifa deste ponto de vista: o mundo exterior é menos real, em muitos sentidos, do que o mundo da literatura. Menos real porque menos interessante, pelo menos para quem escreve ou, se estou a exagerar, pelo menos para mim. Mas escrever pode ser equivalente a viver no sentido em que é na escrita que me descubro enquanto pessoa: a vida quotidiana é o que é, raramente feliz, muitas vezes deprimente; a vida de um livro tem a obrigação de ser interessante, fascinante, aventurosa, desafiar todos os instintos de quem está lançado a uma história. Por vezes, viver todos os dias pode ser muito parecido com uma forma lenta de morte; na escrita tudo está mais vivo, mais iluminado.

Ora pensa lá bem: o que é que costumas fazer enquanto escreves, sem te dares conta disso?

Que pergunta tão estúpida. Então olha: às vezes ouço os Beatles, sobretudo o Abbey Road ou o White Album; coloco o CD no computador sem sequer pensar no assunto. Mas grande parte das vezes não ouço nada, gosto do silêncio e do barulho dos dedos nas teclas. Não sou capaz de escrever à mão – não só tenho uma caligrafia ilegível como me cansa imenso o pulso, ao final de um bocado. Teclo tipo «secretária», isto é, muito depressa e sem olhar para o ecrã. Quando estou a escrever um romance é também das poucas alturas do ano em que bebo café e fumo cigarros logo de manhã. Tenho a televisão ligada sem som. A sensação de um romance por acabar angustia-me e, ao mesmo tempo, motiva-me. É esquisito. Também tremo as pernas e bato com os pés no chão, repetidamente, que é uma espécie de banda sonora dos meus livros.

Já que falamos em desordens obsessivas, continuas a ter as mesmas obsessões, paranóias e minudências?

Tenho uma razoável obsessão com a medição das obras. Isto é, enquanto estou a escrever gosto de manter uma média diária de número de palavras (para As Três Vidas, por exemplo, escrevi duas mil por dia). Não sei de onde é que isto vem. Claro que não «contabilizo» a coisa, mas tento manter um registo idêntico todos os dias porque o tempo é escasso – tenho de «tirar férias» do mundo real para escrever – e é preciso chegar ao final. É uma corrida a contra-relógio, na verdade. Outras paranóias: deixar um parágrafo em aberto para o dia seguinte; procurar não ler autores de que gosto muito durante essas alturas, ou tendo a começar a imitá-los; deitar-me cedo; tentar não beber. Essas coisas. Ser como um desportista na aldeia olímpica, só que sem as medalhas, a consagração e o hino nacional.

Quais são as tuas mais recentes embirrações?

Cada vez menos aprecio os escritores em «série», do género Dan Brown e derivados. Dá-me a sensação de que estão sempre a escrever o mesmo livro, numa linha contínua que não tem altos nem baixos. Embora eu pertença a uma linha muito anglo-saxónica do romance, confesso que não tenho muita paciência para os puros contadores de histórias, funcionais e mecânicos. Tem de haver alguma coisa de muito íntima, um ponto de vista, uma dor ou uma perda, no momento de escrever um romance. É para isso que serve toda a construção narrativa, tem de existir uma metáfora, nunca forçada, ou então é mera ginástica textual. Para isso existem os dicionários e as enciclopédias. Gosto de autores que se entregaram, que renderam a sua vida à obra, cuja existência passa por ali, passa pelo texto, ao ponto de quase se confundirem com aquilo que escrevem, até para eles próprios. O grande exemplo contemporâneo disto é o Javier Cercas, cuja fronteira obra/vida é quase indiscernível.

 

Há precisamente um ano, quando lançava As Três Vidas, João Tordo passou pelo sofá da LER e aceitou o desafio de se entrevistar: JoãoTordo por João Tordo.