Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Prejuízos
01 Junho, 2009

O prejuízo dos maus livros é darem fraca noção da literatura. Falo dos livros literários, já se vê. Aviltam a própria ideia de literatura. E depois deduz-se que inepto não é o autor, mas a literatura, incapaz de se proteger dos ineptos. Isso é verdade. Não assim com o resto. Um mau livro de física é apenas um mau livro de física; esta em si mesma persiste incólume. No caso da literatura, o mau livro corrói a própria literatura, a havida, que o deixou surgir, e a por vir, que vai por sua vez afectar. Esse, aliás, o único critério: o mau livro é justamente o que deixa a literatura em mau estado. O que a deixa ficar mal: «Que raio há-de ser a literatura para que este sujeito considere isto literatura?» Depois desse critério fundamental admite-se alguma diversidade a respeito da descrição válida de «mau estado» ou do que significa «deixar ficar mal». Mas não tanta como se presume. Aqui há uns anos, por exemplo, andou em circulação esta má ideia de literatura: um bom livro é o que conta uma boa história bem contada. Havia romancistas que declaravam isto com ímpeto de evangelista. A pior consequência foi outros se deixarem crucificar depois de se convencerem de que o facto de militarem no campo oposto os tornava estrénuos defensores da verdadeira literatura. Morreram em vão e sem glória, estavam errados. A seguir vieram outras ideias de literatura, e afinal provaram ser as mesmas, logo seguidas de outras não menos mesmas. Mas eram ideias, sempre eram ideias irredutíveis aos livros e provando que lhes sobreviviam, as mesmas ou ainda modificadas.
Estão a ver aonde quero chegar: cada livrinho individual só é possível por trazer em si, não o palerma do autor, mas uma ideia do que são em geral os livros de literatura. E há mais ideias dessas do que seria talvez aconselhável. Mas o pior é que nenhuma barra o caminho aos livros gerados por ideias rivais; e o verdadeiramente péssimo é que qualquer delas é incapaz de abortar os livros que gerou mas nunca crescerão a ponto de a substituírem, ainda menos destruírem. Estão a ver aonde quero chegar: as ideias sobrevivem aos livros mas os livros abastardam as ideias. A solução? Mais do que profilaxia impraticável dada a natureza da actividade em apreço, precisamos de cultivar as ideias e abandonar os livros que as rebaixam.
O único prejuízo das ideias de literatura são os maus acessos. Quero dizer, os acessos em mau estado. Demora-se que tempos, sobressaltos, riscos diversos, salteadores. Algumas pessoas queixam-se de se perderem… oops! descai-me o teclado para o alegórico. Voltando ao ponto, precisávamos de acessos em bom estado… que são – nem mais! – outros livros, os elevados, aqueles onde essas ideias de literatura chegaram e se abrigaram, determinadas a não ir dali a mais nenhum lado. Numa palavra, precisamos de clássicos. Poe, por exemplo; Stendhal; ou Diderot, que não sei se é clássico (deve ser).
O único prejuízo dos clássicos é serem absolutamente incapazes de se defender dos ineptos e dos arrivistas. Duradouros, mas molengas. Alguns, até frouxos. Não se protegem. Deixam-se ficar, quase melancólicos. Reconheço que se trata de aparência enganadora, mas ainda assim, ainda assim…  Confiam na inteligência do leitor – valha-nos Deus! –, no discernimento da posteridade, e coisas dessas, que todos sabemos não existirem senão nas entrelinhas de uns quantos clássicos em vários volumes extensos. Proust, ou assim. Mas nunca aviltam a ideia de literatura, justiça lhes seja feita. Nunca pedem desculpa pelos próprios erros, nessa humildade palerma que por vezes cai bem entre os leitores. Nisso não são frouxos, justiça lhes seja feita. E também não se queixam, nem são invejosos, justiça lhes seja feita. Nem se gabam dos muitos milhares de exemplares que já venderam por todo o mundo, justiça lhes seja feita. Não, nada disso, os clássicos nunca deixam a literatura ficar mal, são bons para as pessoas, e as pessoas boas deviam ser boas para eles e só deviam lê-los a eles. Não sei, aliás, se não é já isso que fazem, perdão, se não é já essa a ideia que define, que distingue uma pessoa boa. Deve ser. As pessoas distintas só lêem os clássicos, perdão, as pessoas distintas só frequentam os clássicos. Assim está melhor. É assim que deve ser.

 

Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009
Enfim, coisas de professores
01 Maio, 2009

Não se imagina uma manifestação de professores universitários. Quando muito, vão alguns, poucos, a manifestações de outros, ou com outros, debaixo de bandeiras mais amplas. Não é que estejam satisfeitos, sem reivindicações: sabe Deus que se fartam, perdão, nos fartamos de protestar, melhor diria de queixar, que o queixume não aglomera, individualiza, etc. Será então por causa de algo que distinga os universitários, tornando-os inábeis para a luta política? Stanley Fish, no seu último livro, Save the World in Your Own Time, diz a dado passo que, contra o que os ameaça, os académicos se defendem com armas próprias, o raciocínio, os argumentos, a crítica… Louvável. Note-se porém que o diz em contexto muito particular e a inferir que isso justamente torna tal defesa ineficaz perante poderes mais fortes, como os governantes que distribuem o dinheiro. A explicação, por outro lado, talvez resida noutra coisa, que aliás constitui o alvo do dito livro de Fish: certa tendência dos professores para considerarem que se manifestam na sala de aula. Não me refiro àquela ideia convencional da pureza da ciência e do conhecimento, mas à contrária, a de que a actividade dum professor universitário é eminentemente política e portanto… e portanto forma mais nobre de luta política, de eficácia mais duradoura. Uma tendência, repito, que pode não passar de sintoma da incapacidade dos académicos de dispensarem a legitimação política daquilo que fazem, havendo-as disponíveis em todo o espectro ideológico. Se uns se julgam a modelar cidadãos responsáveis e outros promotores de ideias justas, quase todos se representam a contribuir para ao progresso da nação, preservando o saber e levando as luzes adiante. Isto é política da mais alta!
Stanley Fish acha que não, e define assim a finalidade do desempenho profissional dos professores universitários: iniciar os estudantes em corpos e conhecimento e tradições de pesquisa que desconheciam antes da entrada na universidade, e dotá-los dos apetrechos analíticos necessários para que prossigam pesquisas autónomas. Expor nas aulas ideias políticas com o propósito de levar os estudantes a tomar o partido de alguma seria ou é perversão. E quem diz ideias políticas diz convicções ideológicas, crenças religiosas ou similares, atitudes morais, e por aí fora. A ideia de Fish é que há muito por onde devanear quando não se faz o que se deve fazer.
Não será evidente, mas é irrecusável. Bem ponderado, no entanto, o livro é intelectualmente decepcionante; mais polémico do que analítico, e nisso mais defensivo do que se imagina. E embora chegue a justificar-se a esse respeito, transforma em postulado uma ideia de universidade afinal em causa quando o assunto do desempenho dos professores é examinado. O que um professor faz na sala de aula não é independente do que julga ser uma universidade; de modo que muita perversão do desempenho docente decorre ou é sintoma da degradação da ideia de universidade.
Que essa ideia reclama defesa urgente, ninguém mo há-de negar; qual ela seja, é mais difícil acertar. Pois há cinco páginas em que Fish parece distrair-se do próprio livro, embora as apresente como exemplo do tipo de trabalho académico que defende, e onde se pode surpreendê-la espreitando: Fish descreve com pormenor os seus esforços em benefício de certo estudante de Direito que, não obstante ter já feito 31 anos, não ainda tinha percebido cabalmente o que é uma frase. Conta então como tentou iniciá-lo começando com uma frase simples — «Jane baked cookies» —, conseguindo bons resultados em contra-sensos como «Even though I stayed up all night, I was tired». A descrição excede em muito o efeito exemplificador, aliás ocioso; vê-se, por outro lado, que Fish gosta daquilo. Certo que ensina uma disciplina parecida com o que cá se irreparavelmente se chamou «Técnicas de Expressão do Português», e portanto faz o que lhe compete. Mas esse o ponto. É isso que faz o professor: ensina, como se a salvação do mundo dependesse da diferença entre adjectivo e advérbio ou da distinção clara entre disinterested e uninterested. Ensina em vez de se queixar do aluno ou do «sistema» que o deixou chegar àquela idade ignorante de coisas básicas. Ensina, enquanto lá fora alguns, até muitos marcham de encontro ao poder, quando não ao encontro dele…

 

Crónica publicada na edição nº 80 (Maio) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
O género dos anjos
01 Abril, 2009

Já se sabe que entreter-se um sujeito com a sua história pessoal é coisa que faz bem, se não for mesmo curativa. É um hábito construtivo, estruturalmente falando, porque, descrevendo-o ou redescrevendo-o, arruma o disperso na ordem de uma história. Em suma, temos fé na inteligibilidade e esperança no reconhecimento que dela decorre, uma e outro legados meio perenes dos gregos e ambos contribuindo para a glória e persistência da tragédia, da psicanálise e do boato. Já se considera menos, por outro lado, que as histórias se discriminam em géneros e que os géneros obrigam a descrições específicas. De tal maneira que, por vezes, a melhor terapia consiste em mudar de género: redescrever tudo numa farsa, por exemplo, é sempre saudável, nem que seja como exercício de escrita criativa. Uma complicação é que ninguém tem uma só história, tem ao menos duas, a que reputa própria efectiva e a que reputa própria virtual — digamos expressão concentrada das que não lhe pertencem mas deveriam —, e então semelhante redescrição poderia afectar a virtual em vez da efectiva e… Deixemos.
Outro bom exercício a propósito, esse sim, é o filme Do Céu Caiu Uma Estrela, de Frank Capra. É bem conhecido, até dos Natais da RTP: aparentemente, nele uma história recompõe-se e um sujeito regenera-se por efeito de história alternativa. Alude-se muito ao momento final em que o anjo Clarence mostra a George Bailey, o personagem interpretado por James Stewart, como seria a vida dos outros se ele não tivesse existido. É uma modalidade interessante de história contrafactual, sem dúvida, até porque orientada para a regeneração, a cura, o auxílio que devolva o desesperado à vida. Mas não deixemos escapar que todo o filme, até esse ponto, é a narração que Deus (ou equiparado) faz a Clarence,  quando o destaca para ajudar Bailey. Dela ressalta um Bailey repetidamente renunciando aos próprios projectos, obrigado ou sentindo-se obrigado a resolver os problemas criados por outros ou pelas circunstâncias. Sem autonomia nem iniciativa, Bailey só pensa em partir da cidade natal, mas fica sempre: divide-se, portanto, entre a história virtual, que seria a dele por desejo próprio, e a efectiva, que seria imposição dos outros. Compreende-se que a mesma divisão crie ressentimento, e até desespero. O anjo aparece justamente no momento do desespero máximo, quando Bailey decide suicidar-se. Que história, se alguma, poderia ali salvá-lo?
Pois a história que Deus (ou equiparado) contou a Clarence — e que é também a que nos deu a conhecer George Bailey. De facto, a habilidade de Clarence consistiu em colocar Bailey perante o mesmíssimo dilema que enfrentou ao longo da vida e o conduziu ao desespero: ou ele ou os outros, ou obedecer à própria deliberação ou desistir dela em nome do bem-estar dos outros. O anjo não lhe mostra o que teria sido a sua vida se tivesse podido realizar os seus desejos e projectos, dá-lhe a ver o que seria a vida dos outros se ele não tivesse vivido como viveu. A diferença é que agora lutar pelos outros coincide com lutar por si mesmo, pela sua própria existência, no perfeito sentido literal da expressão: abandonar os outros à miséria que o anjo lhe mostra equivale a renunciar literalmente à existência. É a incapacidade de abandonar os outros que o reintroduz na existência, digamos assim, e essa incapacidade acaba por definir a natureza de George Bailey, a natureza bondosa, de George Bailey, a que justamente ressalta da história tal como Deus (ou equiparado) a conta.
Clarence conta a Bailey a história dele sem ele: a sua eventual inexistência seria a causa eficiente do infortúnio dos outros. Nesse sentido, não há nisto alternativa nenhuma. É o método da redução ao absurdo, e funciona: demove Bailey do suicídio dando-lhe um destino. Mais do que lhe mostrar que a vida ficara melhor com ele tal como tem sido, o anjo obriga Bailey a reconhecer em si uma natureza, escondida mas inexorável, enquanto motor da sua história — uma natureza a que não pôde escapar nem no momento em que se dispunha a matar-se… Bailey regressou à existência com uma história com que se entreter — teve o seu momento de epifania autobiográfica —, e o anjo ganhou as asas porque restabeleceu a coerência ameaçada da história que Deus (ou equiparado) lhe contou, assegurando-lhe final conforme. Tudo se conjuga, afinal.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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Domingo, 1 de Março de 2009
Alegadamente
01 Março, 2009

O Público terá reformulado o estilo das suas páginas literárias; e o modelo da reformulação terá sido este:

HAROLD BLOOM DETESTA SHAKESPEARE

O famoso crítico norte-americano Harold Bloom afinal detesta Shakespeare, a cuja obra alegadamente dedicou muitas páginas.

Tudo indica que Harold Bloom detesta Shakespeare. A revelação, a ser verdadeira, foi feita no princípio da semana na página cultural do Correio da Manhã, que teve acesso a uma edição on line censurada do New York Times, graças a um pirata informático especialista em sites de Humanidades, que passou por Lisboa a caminho de Coimbra, ao que se supõe para ser doutorado honoris causa por aquela universidade da Beira Litoral, que aliás deve ter dado o mesmo título ao mencionado Harold Bloom. Segundo o New York Times segundo o Correio da Manhã, algumas pessoas ouviram Bloom, numa festa algures, imprecar contra Shakespeare, acusando-o de ser um poeta obscuro e dramaturgo menor sem jeito para urdir intrigas nem capacidade para desenhar personagens. Bloom terá mesmo chegado a dizer, ainda segundo o Correio da Manhã, que vários poetas europeus, entre os quais incluiu Gil Vicente, superam Shakespeare em graça, talento, criatividade e densidade metafísica. Bloom não desmentiu até agora estas informações. No entanto, o semanário Expresso ouviu duas pessoas na sua delegação de Nova Iorque que dizem ter sido enfermeira e motorista, respectivamente, do mesmo Bloom, e garantem que nunca o viram com jornais nas mãos ou sequer a consultá-los na Internet. «Ele só lia poesia», asseguraram ao semanário, que publica a afirmação sem identificar as testemunhas. Pode ser, portanto, que Harold Bloom nem tenha tomado conhecimento da reportagem do Correio da Manhã, o que explicaria a alegada ausência de desmentido.
Por outro lado, a revista Sábado noticiará amanhã, numa reportagem a que o Público teve acesso através de alguém mais ou menos próximo de um dos paginadores, que essas duas pessoas não terão propriamente existência, que serão fabricações duma sociedade secreta constituída para denegrir Bloom depois da publicação do Cânone Ocidental. A Sábado acrescenta que o nome de Shakespeare estará a ser indevidamente envolvido neste assunto, de forma inteiramente impune, visto que há muito se exige uma investigação rigorosa das actividades ilícitas dessa sociedade, mais do que conhecida pelas suas acções conspiratórias, mas com ligações a pessoas bem colocadas na universidade, na imprensa e na televisão americanas.
A reviravolta no caso, entretanto, teria lugar ainda nas páginas do Correio da Manhã. Com efeito, esse diário de referência noticiou, na sua edição de 25 de Janeiro último, que Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente fizeram as pazes no Gambrinus, onde se encontraram com as respectivas mulheres e donde saíram, ainda com as respectivas mulheres, no mesmo carro. O arrumador no local, ouvido pelo repórter, interrompeu a leitura da tradução do casal Guerra de Guerra e Paz para confidenciar que os dois intelectuais discutiam empenhadamente a «animadversão do bolume». Não atinando com o sentido da informação, o repórter absteve-se de a incluir na notícia que imprimiu, mas viria a encontrá-la – sem espanto, diga-se – na supramencionada e suspeitíssima edição on line do New York Times, a qual nunca chegou a publicar-se, alegadamente por efeito de pressões conjuntas do editor de Miguel Sousa Tavares e do director do Público, que, sabendo das referências ao encontro entre as duas figuras, recearam, decerto por motivos diferentes, que a divulgação do encontro viesse a prejudicar a audiência de certa telenovela inspirada no romance do primeiro ou nas crónicas do segundo, não se conseguiu apurar. O arrumador era na verdade um agitador a soldo para desviar as atenções dos verdadeiros problemas. Um comentador literário entretanto ouvido pelo Expresso numa sala muito escura, afirmou que toda a teia é absurda, que nada tem que ver com Bloom ou Shakespeare ou Cardoso Pires, mas terá garantido que a culpa é seguramente do primeiro-ministro português, José Sócrates, que nunca terá lido nenhum deles.
Uma coisa é alegadamente certa: o imbróglio adensa-se.


Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

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