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Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Um poema de Maria do Rosário Pedreira

 

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

 

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 

 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal 

Um poema de Carlos de Oliveira

 

INSÓNIA 

 

Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.

Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.

Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor de nós a terra cheia de silêncio.

Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?

 

Carlos de Oliveira 

 

Um poema de Mário Cesariny

CORO DOS MAUS OFICIAIS DE SERVIÇO

NA CORTE DE EPAMINONDAS, IMPERADOR

 

uma morte loura

simpática

acolhedora

que não dê muito que falar

mas que também não gere

um silêncio excessivo 

 

uma morte boa

a uma boa hora

uma morte ginasta      tradutora

relativamente compensadora

uma morte pedal espinha de bicicleta quase carapau

com quatro a cinco soltas a dizer

que se ele não tivesse ido embora

tão jovem         tão salino

boas probabilidades haveria de ter

de vir a ser 

dos melhores poetas pós-fernandino

 

 

vá lá      vá lá Mário

uma morte

naniôra

que não deixe o esqueleto de fora como nos casos do mau gosto

os esqueletos têm sempre um quê de arrependidos

se bem que por aí já convinha lá isso já também era verdade

 

 

o demais         demora

e

francamente

nunca será teu

 

 

vá vá vamos embora 

 

 

custava-te menos agora

e ainda ias para o céu

 

 

Mário Cesariny, in Manual de Prestidigitação, ed. Assírio & Alvim

  

Um poema de Manuel de Freitas

 

GENEALOGIA

Para a Céu

Tinha medo de morrer, a minha avó.
A minha mãe não, nunca teve,
e o meu pai tem desde que me lembro
um talento inato para contornar a questão.

Era um medo simples e espontâneo,
o da minha avó. Receava
não acabar o bordado infinito
e o alheamento de tudo,
com a vaga excepção do afecto.
Queria apenas encontrar a manhã,
o pequeno missal junto à cabeceira
- e foi, sem o saber, a minha «musa distraída».

Arrependi-me, tantos anos depois,
de julgar que a vida se podia - querendo
ou não querendo - deitar fora.
Ainda aqui estou, vivo e descontente.
Não esqueço a antiga criada (foi mais
do que isso: uma segunda mãe) perguntando-me
num sorriso se eu, no fundo, desejava
a morte que a avó não queria desejar.

E poluo essas memórias, talvez
por saber que não voltarei a atravessar
com ela a rua onde mais vezes caiu,
onde era senhora distante de um mundo
acabado, vagamente aristocrático
e, por sorte, ainda sem muito trânsito.

Ninguém, mesmo que queira,
quer morrer. E, do mais, ficam-nos
vislumbres, pormenores, anotações
cujo sentido descobrimos demasiado tarde.

Não sei se a cultura ajuda. Preferia
a qualquer obra de Bach
que a música ambulante do amolador
pudesse de novo passar na infância,
na infância breve de estarmos ambos vivos,
sentados na varanda. À espera de dias
iguais, sob a alta sombra de pinheiros.

Era isso.

Manuel de Freitas, in Sunny Bar, ed. Alambique

Um poema de Ruy Cinatti

POEMA DE AMOR 

 

Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 

tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,

nós olhando triste uma saudade imensa

num corpo de mulher metamorfoseada. 

 

Sou demasiado são para me esquecer

do tempo apaixonado que vivi nos teus braços

e bebo no teu um coração meu

adormecido no mar do meu cansaço

ou no rio das minhas secas lágrimas. 

 

Tardará muito, se é que as horas contam, 

ver-te, de novo, perto de mim, longe, 

mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 

um dia a menos, o da tua chegada. 

E assim me fico, rente ao horizonte,

abrigado da chuva numa cabine telefónica,

e ligo para ti - que número? - ninguém responde

do oceano que avança e retrai colinas,

o vulto de um navio, tu na amurada

acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

 

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva

- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 

escurecendo os teus cabelos,

ou, se preferes, a minha boca neles 

carregada de ilhas, de nocturnos perfumes

que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 

na minh' alma inquieta um outro bater d' asas

ou num jardim um leito de flores!...

 

Ruy Cinatti, in Obra Poética, ed. Assírio & Alvim 

Um poema de Raquel Nobre Guerra

Sorrio aos mortos e enterro os vivos

como um objecto escuro

por que rodaram mãos e jeitos de luz. 

 

Vivo como se não estivesse aqui

roupa leve como na vida. 

E vou da primeira à última batida

na respiração de um pulmão doido. 

 

Lê assim

 

podia arder a uma pouca distância de ti

nessa praceta que é um poema teu

e as coisas voltariam a mim, meras, 

como o ser transportada pelos dias 

mas cairei por aqui.

 

Meu amor

 

Porta no trinco e nada nas mãos.

Há muito que é tudo o que resta. 

 

Raquel Nobre Guerra, in Senhor Roubado, ed. Douda Correria 

Um poema de António Franco Alexandre

aqui estou eu entre demónios e paredes lisas

solicitando certificados bulas para viver melhor à sexta-feira
vale-me não ser ninguém: faziam-me a vida negra
assim basta o cinzento fato completo silencioso com lugar para os olhos
levantar cedo ver passar os carros 
estar certo que o que digo já foi dito e selado
agora não me resta poesia alguns dias mais oscilando a cabeça 
fazendo que sim
 
dá vontade de fugir vomitando tudo em volta mas o preço é preciso
se ao menos inventasse a cura do ar podia secar tranquilamente 
agora espero pelo meio do escuro para gritar errei! errei! desmanchando o 
                                                                                                [cabelo
nada disto é a minha vida!
para que ninguém ouça nas coloridas salas do inferno terceira repartição
onde somos, mas todos, contínuos de comer por fora 
Melhor seria ter ficado de lado entregue à simplicidade dos caminhos
sabendo que em nenhum lugar está a minha parte 
 
Ao atravessar as ruas há outros como eu 
a jeito para enfiar uma navalha ao fim da tarde
Aqueles para quem o mundo ia ser outro de mãos lavadas 
e ficou tudo igual com mais ausentes à mistura 
Um dia destes dou baixa dos infernos por motivo de cegueira interna 
ou mando-me de um sítio alto
depois não sei se voltarei feito demónio de província 
ou ficarei eterno como um exemplo a não seguir 
 
António Franco Alexandre, in Poesia, ed. Assírio & Alvim 

Um poema de Filipa Leal

HAVEMOS DE IR A VIANA

Havemos de ir a Viana, dizias, e eu perguntava-te porquê Viana, e tu não respondias, não poderias responder porque não estavas ali comigo, naquele lugar que tinha o desconsolo de não ser Viana, e eu com as tuas flores na mão e o cartão onde tinhas escrito apenas isso, Havemos de ir a Viana, e eu a segurá-lo como se segurasse o bilhete para a viagem e a perguntar-me porquê Viana, eu que na verdade não segurava o teu cartão, não segurava nada e era esse o meu problema, eu insegurava, eu insegurava tudo e imaginava-te a sorrir com os meus jogos de palavras, tão parvos como a nossa separação, e perguntava-me porquê Viana, e lembrava-me vagamente dessa expressão, talvez num poema, talvez numa canção, e ia para a internet escrever a tua frase e depois esquecia-me de entender o que tinha aquilo a ver connosco, perguntava-me porquê Viana e na minha imaginação tu respondias que Viana era o lugar seguinte, respondias é isso que importa, que seja o lugar seguinte, e eu que tinha a mania de interpretar tudo, de exagerar tudo, de confundir tudo, e desta vez não poderias ser tu a esclarecer esse terrível mistério, e na minha imaginação tu passavas a mão no meu cabelo e explicavas-me que o que importava não era bem Viana, que o que importava era o verbo, a forma verbal, que era nesse havemos de ir que tudo existia agora sem mim, e eu a descobrir tudo, eu que não conhecia Viana mas que te conhecia, e talvez nunca te tivesse conhecido realmente sem ter ido contigo a Viana, mas como é que eu fiz isto, como é que nos separámos antes de termos ido a Viana, eu a entrar em pânico e a querer ir contigo a Viana ou a qualquer lugar seguinte, eu que estava no Porto sem ti, que até não ter ido a Viana era algo que tinha feito sem ti, eu que em Viana talvez estivesse contigo, e Viana era como se fosse futuro, e então em vez disso tu poderias ter dito Havemos de ir ao futuro, e eu cheia de pressa, cheia de pressa de te dizer

sim, havemos de lá ir.

Filipa Leal, in Vem à Quinta-Feira, ed. Assírio & Alvim 

Um poema de Alexandre O' Neill

UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill, in Poesia Completas, ed. Assírio & Alvim 

 

Um poema de Ruy Belo

 

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no
mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora numa mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, Todos os Poemas I, ed. Assírio & Alvim