Uma capa ilustrada para um periódico é algo que deixou de ser usual. Raridade por raridade, e a par disso, publicações como a LER também não as há por aí. Posto assim, entre o convite que me chegou e a decisão que respondi não se passou mais tempo que o necessário para visualizar, em traços largos, uma figura saltitante e de rosto vermelho tocando com mais afinco do que talento um bombo e uma tuba ao mesmo tempo, no meu coreto mental. A este instante em estado de glória sucedeu-se a apreensão que a responsabilidade encomenda. Uma capa não é uma página de BD e uma lista de títulos não é uma arquitetura narrativa.
Discutido o conceito com o diretor João Pombeiro e Sara Figueiredo Costa, fiz um esboço, que, entre os três, se moldou e discutiu até uma versão final. A partir do mesmo, abri numa folha branca, maior do que o tamanho impresso da revista, os traços gerais da imagem (uma regra de contração que nem sempre sigo e, por vezes, inverto). Em apoio do desenho, dei alguma atenção a fotos de Enrique Vila-Matas e Antonio Tabucchi e declarei um ou outro suspiro mais delongado a Lispector, invariavelmente elegante em toda e cada foto, talento gémeo, por oposição, ao meu. Entretanto, inscrever-me na Tradição do Lápis Azul comporta o risco de me ver associado a tempos menos entusiasmantes da liberdade de expressão nacional. Na realidade, o lápis azul é um honesto pedaço de ilusionismo gráfico que tem sobrevivido a sucessivas vagas tecnológicas. Uma vez passada uma linha de tinta da china sobre o desenho azul, os traços a lápis são facilmente ignoráveis por vários métodos de reprodução, da litografia aos atuais scanners, isolando assim apenas a arte-final negra, sem o ruído de todos os traços não-eleitos. Uma espécie de iminência parda do espectro a nós visível. Uma vez feitos os scans a preto e branco do desenho e da caligrafia, igualmente feita em tinta da china sobre papel, os ficheiros foram importados para o Photoshop onde os colori unicamente com cores planas. Aliás, feitas as contas e salvo o uso excessivo de borracha, todo o processo é bastante minimal, lápis azul sem PIDE, tinta da china sem régua e Photoshop sem efeitos. Espero que gostem.
João Lemos, autor da capa de maio da LER.
Notícias, rumores, invenções e impropérios para ler@circuloleitores.pt
1. Os 50 autores mais influentes do século XX.
2. Dez cidades para visitar com livros debaixo do braço.
3. Charles Darwin, 200 anos depois.
4. «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.»
5. Última entrevista de António Barahona.
6. Inéditos de Fernando Pessoa.
7. John Milton por João Pereira Coutinho.
8. «O meu mal é ter uma curiosidade de puta.»
9. Entrevista Luis Sepúlveda.
10. «Já quase pareço um escritor.»
11. Entrevista Eduardo Lourenço.
12. Breve Introdução à Teoria Literária.
13. Agustina, a indomável.
14. Trinta livros do PNL.
15. Entrevista A. M. Pires Cabral.
16. Dinis Machado: «Só quis escrever um livro».
17. Retratos de um Nobel.
18. Os últimos e-mails de Stieg Larsson.
19. Os 200 anos de Edgar Allan Poe.
20. Knoxville, o território de McCarthy.
21. O bibliotecário ambulante.
22. Dez escritores europeus que (já) mereciam ser traduzidos em Portugal.
23. Entrevista Mia Couto.
24. Entrevista Vasco Pulido Valente.
25. Inéditos Vinicius de Moraes.
26. Os heterónimos de Eduardo Lourenço
Outras leituras
«Volviendo a John le Carré» (Antonio Muñoz Molina)
«A Country Without Libraries» (Charles Simic)
«The Translation Gap: Why More Foreign Writers Aren’t Published in America» (Emily Williams)
«The Godfather of the E-Reader» (Jennifer Schuessler)
«The Philosophical Novel» (James Ryerson)
«The Case of the First Mystery Novelist» (Paul Collins)
«The lost art of handwriting» (Umberto Eco)
«Our Boredom, Ourselves» (Jennifer Schuessler)
«Scandinavian Crime Wave» (Nathaniel Rich)
«When Bad Covers Happen to Good Books» (Joe Queenan)
«Tintinabulation» (Bruce Handy)
«Inside the Secret World of Literary Scouts» (Emily Williams)
«Advantage Google» (Lewis Hyde)
«Texts Without Context» (Michiko Kakutani)
«Bookmarkism: The New Ideology» (Robert Nagle)
«The Autobiography of J.G.B.» (J. G. Ballard)
«J. G. Ballard, Poet of Desolate Landscapes»
«When Writers Speak» (Arthur Krystal)
«Reading by the Numbers» (Susan Straight)
«What I heard at J.D. Salinger’s doorstep» (Tom Leonard)
«Why hasn't there been a science fiction Booker winner?» (Adam Roberts)
«Freyre, Euclides e o Brasil» (Daniel Piza)
«Las cartas íntimas de Beckett» (J. M. Coetzee)
«Entrevista Günter Grass» (Juan Cruz)
«Eudora Welty's centenary» (Paul Binding)
«Juan Benet: en un tiempo de silencio» (Manuel Vicent)
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Sumergirse en Benet» (Álvaro Colomer)
«Interview with Seamus Heaney» (Sameer Rahim)
«Robert Capa - La muerte y el azar» (Guillermo Altares)
«Why do Pynchon, Ballard and Wallace provoke such online loyalty?»
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Philip Larkin Letters» (John Shakespeare)
«Una vida absolutamente maravillosa» (Enrique Vila-Matas)
«Poética de los escaparates» (Antonio Muñoz Molina)
«In the South» (Salman Rushdie)
«Our George Steiner Problem – and Mine» (Lee Siegel)
«Poets, Academia: A Couplet in Conflict» (David Orr)