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Casas Kitadas

Hoje, a partir das 22h, mais uma sessão de Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre (Porto), com o geógrafo Álvaro Domingues, autor do desconcertante A Rua da Estrada (Dafne), a cantora lírica Mónica Lacerda Pais, e Alexandre O'Neill através de Nuno Moura e Paulo Condessa.


Menino e moço me levavam de casa nas férias grandes para, na companhia do meu flutuante agregado familiar, percorrer o país real num Nissan Sunny. O dito agregado familiar servia-se de dois tipos de exercício lúdico para promover o convívio competitivo e decidir quem pagaria cafés e portagens (o acto de pagar era essencialmente simbólico): o primeiro tipo de exercício lúdico consistia em produzir anagramas a partir dos nomes das terras que íamos atravessando, com glória eterna para quem conseguisse transformar «Freixo de Espada à Cinta» numa «atrocidade apenas fixe». O segundo exercício era mais difícil de explicar a estranhos: implicava apontar coisas que, por sermos passageiros de um automóvel a percorrer uma estrada, não devíamos estar a ver. Havia bastante latitude interpretativa, mas a maioria dos pontos eram ganhos através de involuntárias invasões de privacidade – janelas desprotegidas, retretes em quintais, etc. –; outros através do avistamento de idiossincrasias arquitectónicas: anexos grotescos, gárgulas impróprias, bricolages marcianas. O geógrafo Álvaro Domingues escreveu um livro que lhe teria garantido, ao abrigo dos regulamentos familiares, cafés e portagens pagas pelo menos até Vladivostoque.
A Rua da Estrada (ed. Dafne), um misto de antropologia do espaço e comédia de observação, é a fotobiografia não autorizada de uma população que vive e trabalha em sítios que apenas deviam servir para ir a outros sítios. Uma paisagem híbrida – entre campo e cidade, entre rota e residência – que implica uma (vagamente sugerida no texto) noção pós-estruturalista de «Morte do Autor»; num território onde as entidades responsáveis por forma, função e significado parecem ter sido massacradas num acto de planeamentocídio, as coisas vão surgindo como resposta a necessidades e emergências localizadas, à custa do muito peculiar engenho aborígene para o tuning urbanístico.
Na Rua da Estrada encontramos a glossolalia desorientadora das instalações de tabuletas, colocadas em pontos instratégicos de onde se pode chegar ao Porto, a Paços de Ferreira, ao ecocentro, à GNR, e à Fotocine Barbosa. Encontramos os novelos de fios eléctricos a pairar sobre telhados. Encontramos banheiras verticais e plintos encimados por pneus. Encontramos degraus que descem para traços contínuos e escadotes que sobem para lado nenhum. Encontramos réplicas involuntárias dos embrulhos de Christo e variações sobre os artefactos gigantes de Claes Oldenburg. Encontramos os «edifícios-rótulo», as «montras voadoras», as «casas com próteses», as «casas com piercings», as «maquetas vernaculares», os «castelos eléctricos», as «capelas do gás», os «restaurantes-cemitério» e a Residencial Bolinhos de Amor.
Muitos diagnósticos semelhantes resumem-se a diatribes sobranceiras e intransigentes, cujo único interesse no tema parece ser o facto de este servir como sinal de folia política, logística ou intelectual. Mas nota-se em Álvaro Domingues não o instinto da denúncia, mas um apreço furtivo pela forma como o caos encontra os seus próprios padrões, por entre a Babel de ordenamentos municipais e projectos institucionais, e um humor elástico, capaz de sobrepor à imagem de um friso inexplicável de tanques de lavar roupa uma pequena ostentação bibliográfica (que vai, já agora, de Deleuze e Lyotard aos Xutos e Pontapés).

Não podia ter acontecido melhor livro ao espectacular país que o inspirou. Rogério Casanova

[Texto publicado na edição nº90 da LER]