Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
Caderno de Memórias Coloniais (Isabela Figueiredo)
06 Janeiro, 2010

 

Isabela Figueiredo publicou um dos livros mais tentadores da estação, Caderno de Memórias Coloniais (edição cuidada, como sempre, da Angelus Novus, um caso especial na edição portuguesa, vindo de Coimbra): «Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três maschambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais. Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.» Moçambique e as feridas abertas pelo passado, pela recordação, pela confissão, pelo medo de enfrentar tudo isso de novo. Isabela Figueiredo, que escreveu um dos melhores blogues portugueses, «O Mundo Perfeito», é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas. Atinge o nervo, procura a ferida, nota-se o músculo – o ritmo está à mostra, os pulmões provocam aquele ruído surdo da vida inteira. Nada se esconde, nem o que se devia esconder; o exercício é autobiográfico, mesmo que Isabela Figueiredo possa ser uma excelente ficcionista:
«Ele sentia prazer em viver e gostava de comer, beber e foder, isso já expliquei. Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril. Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços. Os criados eram pretos e nós deixávamos-lhes gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta. O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.»
Mesmo quando a dor atravessa as linhas, os parágrafos, a respiração não cessa, nem a enumeração de indignidades, o ajuste de contas. Exactamente isso: ajustar contas com África, a puta. Curiosos portugueses voltados para «a grande Europa», com nojo dos mosquitos e dos pretos, provincianos do Velho Continente, cheios de pó, cobertos de pó – Isabela Figueiredo providencia socos no estômago, às vezes desnecessários, mas pressente-se a sua urgência, aquela espécie de queda para o abismo que leva a mexer em todas as feridas, as pessoais e as da rua, as da multidão de retornados que chegaram à Metrópole e começaram a viver perto da linha que delimita o nada e o tudo. Eles mudaram Portugal – nunca se lhes reconheceu essa vitória sobre o destino. A esquerda gosta muito da imagem do fim do Império, alinhada em contentores no cais de Alcântara. À força de ser repetida, essa imagem é tão miserável, tão exploradora dos ataques de coração da época. Vir para um país de merda, que proibia as mulheres de fumar nos cafés e de beber cerveja nas esplanadas, mesmo naqueles anos em que o Verão era mais quente. Vir do Índico para um país cheio de Inverno. E, no entanto, eles mudaram Portugal. A província, esse interior onde hoje vive um quarto da população encarregue de três quartos do território, mudou com os retornados. Portugal mudou com essa gente. Ainda não lhes agradecemos como eles mereciam e merecem. O país recebeu, em três meses, cerca de 750 mil portugueses que vieram sem preparação, para dar mais brilho à narrativa da História, heróica e descolonizada. Trinta anos depois, 40 anos depois, quase não há feridas e esses heróis que escaparam como puderam, que atravessaram o deserto e o mar, estão hoje abrigados – porque não desistiram.
Isabela assalta os portuguesinhos que invejavam os retornados; com toda a crueldade de que foi capaz: «A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava.»
E, quando menos se espera, o golpe, directo ao coração: «Os desterrados, como eu, são pessoas que não puderam regressar ao local onde nasceram, que com ele cortaram os vínculos legais, não os afectivos. São indesejados nas terras onde nasceram, porque a sua presença traz más recordações. Na terra onde nasci seria sempre a filha do colono. Haveria sobre mim essa mácula. A mais que provável retaliação. Mas a terra onde nasci existe em mim como uma mácula impossível de apagar. Persigo oficiais marinheiros que trazem escrita, na manga do casaco, a palavra Moçambique.»

 

Texto de Francisco José Viegas publicado na edição de Dezembro da LER.

publicado por Ler às 16:44
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7 comentários:
De Nuno H a 8 de Janeiro de 2010 às 12:12
O meu pai é um veterano da guerra colonial e espero que esta senhora tenha reservado um pouco do seu livro para ele e para os companheiros dele. Ah, e mais um pouco a explicar como essas pessoas chegavam às 3 vivendas e à conta recheada de moeda local. Alguns seria por trabalho e empreendedorismo, a maioria certamente por explorar os locais, sangrando os países colonizados das suas riquezas naturais e estabelecendo ume elite branca de governo e socialites europo-africanizados.

De Anónimo a 24 de Outubro de 2010 às 17:50
Sr. Nuno H, não veja cobras e lagartos onde não os há. Ninguém enriqueceu a explorar locais (pretos) e a exploração de riquezas naturais era tal qual como na metrópole. Disse "metrópole" porque entendo Moçambique e as restantes colónias como extensões de Portugal. As 3 vivendas eram pagas com muito trabalho. Um excelente trabalho que teve que ser deixado para trás para ser destruído bárbaramente.

De José Albino Oliveira a 21 de Janeiro de 2010 às 19:18
Esta dessasombrada mnemónica colonial (não nos afundemos em discussões sobre o pós-colonial), esquece quase sempre o confronto que urge fazer: o branco face ao branco no espaço da colónia. Tornou-se moda sonhar ou renegar "paraísos perdidos coloniais", ignorando todos que tão marcante para a construção da identidade colonial é a oposição branco/preto como a branco/branco. Isto porque os brancos no espaço colonial não são de modo algum, como em nenhum espaço, uma entidade, mas sim identidades individuais que entre si forjam uma identidade colectiva a partir da identidade forjada pelo estado. Melhor dizendo: o retrato de nós, colonialistas, deve ser feito tendo em consideração que a estratificação social ocorre entre brancos e só após entre brancos e negros. Todos estes charlatães escritores-retratistas de um passado glorioso que não houve ( exceptue-se a grandeza dos soldados que combatiam por um império imaginado), dizendo bem, dizendo mal, ignoram o conflito branco/branco, ou a ausência dele que o demonstra: no fundo, quer uns quer outros, saudosos de uma grandeza que de facto não tiveram.

De Jorge Madeira Mendes a 16 de Fevereiro de 2010 às 18:21
Também nasci em Lourenço Marques.
Também lá vivi até me correrem (três anos depois da independência - pena não ter sido mais cedo).
Também fui filho de pais doentiamente racistas.
Também percebi que era branco e que os pretos, da Namaacha ou de Lourenço Marques, eram espécie distinta da minha.
E gostaria de saudar a Isabela Figueiredo pelo seu livro, que é inquestionavelmente uma magnífica obra de literatura na (por outros tão maltratada) língua portuguesa.
Mas vou deixar duas precisões:
1) Não é verdade que branco que atropelasse preto (mortalmente) se saísse incólume. Teria eu 6 ou 7 anos (portanto, em 1959 ou, se se quiser, em 60), o Sr. Rocha, dono do Hotel dos Libombos, na Namaacha, e pai do Artur, meu colega de carteira (que consta ainda por lá andar, à frente do hotel do pai), atropelou mortalmente um preto. Terá sido algures à entrada da Namaacha, na estrada que vinha de Boane e LM. Parece que o preto ia bêbado ou coisa que o valesse. Mas não valeu ao Rocha. Foi preso. E pelo próprio administrador, expoente máximo do poder racista no Moçambique colonial profundo. É certo que o Rocha saiu em liberdade depois de pagar multa. Mas em Lisboa, já no pós-25 de Abril, a mãe de um colega meu foi mortalmente atropelada por um autocarro, quando atravessava uma passadeira com o sinal verde para os peões. O motorista nem suspenso foi. E a apresentadora de televisão Alice Cruz foi morta por um camionista bêbado, algures em Torres Vedras. O camionista nem preso foi. Evitemos que os nossos remorsos coloniais nos façam ver para além da realidade.
2) Tampouco é verdade que preto que, antes do 25 de Abril, fizesse a uma branca aquele atentado ao pudor que a Isabela conta ter-lhe feito um enquanto esperava o seu pai junto à Escola Industrial, na 24 de Julho, seria inapelavelmente linchado (ele ou outro, desde que a afronta fosse lavada com sangue). Casos desses, muitos houve, impunes, antes do 25 de Abril. E também na «Metrópole» (os houve e há). E na Bélgica. Consta até que na Islândia e no Laos. Porque é destino nosso, dos fracos (que também o sou) sofrermos a prepotência e engolirmos as lágrimas.
Fiquem as precisões.
Com os melhores cumprimentos à minha conterrânea.

De João Carvalho a 2 de Maio de 2010 às 14:52
Os veteranos de guerra, incluindo os eventuais crimes em terra de "ninguém" foram perdoados. Foram apenas vítimas forçadas a combater por uma causa injusta e que não era a deles. Afinal Portugal nem ganhava nada com as colónias.

Os veteranos guerrilheiros também foram perdoados e mais todas as suas atrocidades. Lutaram por uma causa justa, pela liberdade e igualdade. Os excessos depois da vitória são normais.

Agora encontram-se ambos com amizade e cumplicidade. Afinal, foram apenas companheiros na mesma desgraça.

O povo negro também foi vítima. Depois de 40 anos ainda continuam a sê-lo. Senão conseguem erguer-se ainda hoje e libertar-se da fatal miséria só pode ser culpa do passado colonial opressivo e marginalizador.

Resta o colono.

O culpado de todos os males.

Se tivesse ficado por lá e pudesse crescer e mudar durante estes 40 anos provavelmente seria também convidado para os jantares de veteranos e tudo estaria perdoado.

Mas, como a sua existência histórica foi brutalmente interrompida há 40 anos, continuam a ser cobardemente exibidos os seus valores e actos de então para serem analisados com os olhos de hoje. Os olhos de uma sociedade mais evoluída.

Mas, sendo mais evoluída continua racista e injusta, apenas não o diz. Não é politicamente correcto. O que será mais cruel?

Sendo mais evoluída não tem ainda maturidade para enfrentar os seu próprios fantasmas. Prefere escudar-se no bode expiatório chamado colono e manter aberta esta ferida eternamente putrefacta.

Os colonos eram pessoas do seu tempo. Ou se calhar pessoas de todos os tempos e apenas o discurso mudou.

Portugal criou o colonialismo.

Beneficiou dele e de forma violenta quis perpetuá-lo.

Mas, a maior violência foi a forma como se tentou livrar dele.

Os que morreram por lá, e os que morreram por cá, morreram duas vezes, pois morrem duas vezes os que morrem sem justiça.
















De claudia vacas a 13 de Agosto de 2010 às 23:47
Adorava conseguir o contacto da Sra Isabel pois foi minha professora de Português na Escola Secundária de Alcácer do Sal e foi lindo encontrar este documento dela e reviver tantos momentos de uma pessoa adorável e tão querida. obrigada e espero por uma ajuda.

De Victor Passos a 20 de Agosto de 2010 às 19:40
Esta senhora tece na ficção que é o seu almanaque um manancial de mentiras que só quem lá não viveu pode aceitar como verdade. Cobarde, mentirosa, infeliz e filha desnatuara, para ser meigo.

Evidentemente, porque o mundo não está para verdades, o comentário será "moderado" à maneira da Pide.

VP

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