Isabela Figueiredo publicou um dos livros mais tentadores da estação, Caderno de Memórias Coloniais (edição cuidada, como sempre, da Angelus Novus, um caso especial na edição portuguesa, vindo de Coimbra): «Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três maschambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais. Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.» Moçambique e as feridas abertas pelo passado, pela recordação, pela confissão, pelo medo de enfrentar tudo isso de novo. Isabela Figueiredo, que escreveu um dos melhores blogues portugueses, «O Mundo Perfeito», é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas. Atinge o nervo, procura a ferida, nota-se o músculo – o ritmo está à mostra, os pulmões provocam aquele ruído surdo da vida inteira. Nada se esconde, nem o que se devia esconder; o exercício é autobiográfico, mesmo que Isabela Figueiredo possa ser uma excelente ficcionista:
«Ele sentia prazer em viver e gostava de comer, beber e foder, isso já expliquei. Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril. Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços. Os criados eram pretos e nós deixávamos-lhes gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta. O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.»
Mesmo quando a dor atravessa as linhas, os parágrafos, a respiração não cessa, nem a enumeração de indignidades, o ajuste de contas. Exactamente isso: ajustar contas com África, a puta. Curiosos portugueses voltados para «a grande Europa», com nojo dos mosquitos e dos pretos, provincianos do Velho Continente, cheios de pó, cobertos de pó – Isabela Figueiredo providencia socos no estômago, às vezes desnecessários, mas pressente-se a sua urgência, aquela espécie de queda para o abismo que leva a mexer em todas as feridas, as pessoais e as da rua, as da multidão de retornados que chegaram à Metrópole e começaram a viver perto da linha que delimita o nada e o tudo. Eles mudaram Portugal – nunca se lhes reconheceu essa vitória sobre o destino. A esquerda gosta muito da imagem do fim do Império, alinhada em contentores no cais de Alcântara. À força de ser repetida, essa imagem é tão miserável, tão exploradora dos ataques de coração da época. Vir para um país de merda, que proibia as mulheres de fumar nos cafés e de beber cerveja nas esplanadas, mesmo naqueles anos em que o Verão era mais quente. Vir do Índico para um país cheio de Inverno. E, no entanto, eles mudaram Portugal. A província, esse interior onde hoje vive um quarto da população encarregue de três quartos do território, mudou com os retornados. Portugal mudou com essa gente. Ainda não lhes agradecemos como eles mereciam e merecem. O país recebeu, em três meses, cerca de 750 mil portugueses que vieram sem preparação, para dar mais brilho à narrativa da História, heróica e descolonizada. Trinta anos depois, 40 anos depois, quase não há feridas e esses heróis que escaparam como puderam, que atravessaram o deserto e o mar, estão hoje abrigados – porque não desistiram.
Isabela assalta os portuguesinhos que invejavam os retornados; com toda a crueldade de que foi capaz: «A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava.»
E, quando menos se espera, o golpe, directo ao coração: «Os desterrados, como eu, são pessoas que não puderam regressar ao local onde nasceram, que com ele cortaram os vínculos legais, não os afectivos. São indesejados nas terras onde nasceram, porque a sua presença traz más recordações. Na terra onde nasci seria sempre a filha do colono. Haveria sobre mim essa mácula. A mais que provável retaliação. Mas a terra onde nasci existe em mim como uma mácula impossível de apagar. Persigo oficiais marinheiros que trazem escrita, na manga do casaco, a palavra Moçambique.»
Texto de Francisco José Viegas publicado na edição de Dezembro da LER.
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