BEM
Nada como começar uma crónica com duas palavras estrangeiras. Dão azo a comentários como «Ah! este cronista sabe falar estrangeiro», ou «Ah! este cronista tem a mania que é inteligente», coisa que é sempre boa coisa: fazem-se comentários.
Sou um rapaz pacato mas atento. Leio a LER de fio a pavio, desde todas as letrinhas da capa até ao ponto final da publicidade da contra capa. E, nessa leitura intensa, encontro várias razões para a crónica seguinte. Tento não ser tentado por elas, percorrendo as livrarias à procura de assunto, mas na última LER vi, li e decidi: chega! Isto é extremo!
Um extremo manifestado pelo Paulo Ferreira e pelo Nuno Seabra Lopes no seu «Booktailoring». Falam do que sabem, os rapazes. Das coisas dos livros, seus negócios e termos estrangeiros. E, sabedores, apresentaram sem aviso o extreme publishing.
Quem leu sabe do que falo. Quem não leu não merece que explique porque até parece que não comprou a LER. Mas eu explico. Em poucas palavras, mais portuguesas: short best-sellers. Não confortáveis com a bestsellerização, eis que nos chega a shortbestesellerização. Enfim, coisa mais pequena mas mesmo assim muito importante.
São os livros escritos como peças jornalistícas, apresentados para, num termo científico, «fazer render o peixe» de um assunto actual. E cobrem as livrarias, escondendo o que interessa ler. Enfim, são no fundo o 24 Horas em formato de livro.
Nada contra. Ou melhor, tudo. É que este papel de jornal tira espaço nas livrarias a outras coisas. Tipo... livros.
MAL
Gosto de ler a LER. Principalmente uma crónica chamada «O Bem e o Mal», escrita por um jovem talento que, nitidamente, vai longe na vida. Acabo por, depois da trigésima quarta leitura desse naco de saber, ler o resto da revista sem enfado. Mesmo que, e me perdoem os restantes colaboradores, todos fiquem aquém.
No mês passado li com quase tanto agrado o «Booktailoring», do Paulo Ferreira e do Nuno Seabra Lopes. Falavam-se de coisas com nomes estrangeiros e eu, que necessito de aprender qualquer coisa de línguas para os curso de Novas Oportunidades lá do liceu, tomei várias notas. Extreme publishing. Short best-sellers. Enfim, um manancial de termos estrangeiros que nos fazem sempre falta para uma conversa de café:
– Então e o Benfica ontem, hein? Levou três do Nacional e nem piou.
– Ó Joaquim, isso comparado com o extreme publishing não traz mal nenhum ao pessoal nacional.
Editar sem que houvesse amanhã, em português. Mas, como certamente reparam, colocar essa frase no diálogo em cima não tem mesmo o mesmo efeito.
Eu acho bem. Acho que se deve sempre editar para o público de agora e sem concessões. Porque um editor que se preocupa com o futuro costuma preocupar-se mais ainda com outra coisa: as devoluções da mercadoria das livrarias. Porque é disso que se trata, meu caros: mercadoria. O Fernando Pessoa dizia que livros são papéis pintados com tinta. Com toda a certeza. A literatura está muito sobrevalorizada e eu não me chamo António Guerreiro para me andar sempre a queixar do estado a que chegou o estado das livrarias.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER.
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