Há dois meses, numa conferência que fiz sobre António Botto, a pretexto do cinquentenário da sua morte, um dos presentes quis saber em que circunstâncias, em 1927, o autor de Canções tinha passado uma temporada em Itália na companhia do príncipe Luís Fernando de Orleães e Bourbon. Se tinham partido juntos de Lisboa ou se o poeta fora ter com Sua Alteza a Capri.
Isto leva-nos às biografias de escritores. Em Portugal, o género tem duas balizas: as biografias de Fernando Pessoa (1950) e Alexandre O’Neill (2007), feitas, respectivamente, por João Gaspar Simões e Maria Antónia Oliveira. No intervalo cabem as de Camilo Castelo Branco (1961), Raul Brandão (1979) e Eça de Queirós (2001), feitas por Aquilino Ribeiro, Guilherme de Castilho e Maria Filomena Mónica. Cinco títulos em quase 60 anos. O que sobra conta pouco.
Nos anos 70, a Editora Arcádia manteve uma colecção sobre a vida e obra de vários escritores, mas o protocolo biográfico cedia à deriva ensaística. Em todo o caso, o volume dedicado a José Régio (1976), da autoria de Eugénio Lisboa, continua sendo o mais detalhado relato biográfico que se conhece sobre o poeta de A Chaga do Lado.
As biografias representam sempre um grande investimento: exigem tempo (o tempo custa dinheiro), perseverança e distância crítica. O biógrafo não tem estados de alma: parte pedra. Maria Antónia Oliveira andou cinco anos a escavar no O’Neill. Não havia outra forma. Edmund White mudou de país e durante seis anos não fez outra coisa senão desconstruir o Genet. Não é pêra doce. O tipo de empresa contra a qual opomos um puritanismo inato, preguiça homérica e fraca tesouraria. Leitores parece que há: o vasto mundo gosta de indiscrições.
O crivo dos costumes permite fotobiografias de aparato, correspondência inócua, cronologias em colecções de obra completa, memórias filtradas à luz das conveniências, diários rasurados, verbetes de dicionário, um ou outro ensaio dado ao biografismo, arremedos de autobiografia com controlo de danos colaterais. Aqui e ali, o esqueleto aguenta-se. Biografia sem restrições, como as que Maria Filomena Mónica e Maria Antónia Oliveira fizeram do Eça e do O’Neill, só quando o rei faz anos.
A gente olha em volta e fica a pensar na enxurrada de informação (social, política, literária) que representariam as biografias de Manuel Teixeira-Gomes, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros, Florbela Espanca, António Ferro, António Botto, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, Miguel Torga, Joaquim Paço d’Arcos, Ruy Cinatti, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Jorge de Sena, Raul de Carvalho, Natércia Freire, Agustina Bessa-Luís, José-Augusto França, José Saramago, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Mário Cesariny, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Herberto Helder, Rui Knopfli, Ruy Belo, José Carlos Ary dos Santos, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Eduardo Prado Coelho, Al Berto e Luís Miguel Nava. (Nesta lista de 40 autores nascidos entre 1860 e 1957 há quatro autores vivos, o mais novo tendo agora 78 anos.) Nem todas urgentes, com certeza, porque a importância relativa das obras e o grau de intervenção pública nem sempre coincide. Mas uma dúzia bem escolhida faria a história do século XX português. Os seus equivalentes ingleses, americanos e franceses estão todos biografados, alguns mais de uma vez. No Brasil, por exemplo, há Paulo Coelho em versão autorizada, não-autorizada e for dummies. O que não quer dizer nada, porque os herdeiros de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa blindaram tudo.
E nós por cá? Nós por cá talvez preferíssemos trocar a lenda — «Há sempre muita lenda à volta das pessoas», dizia David — pelas biografias a que temos direito.
Crónica publicada na edição nº 81 (Junho) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.
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