Poucos eventos literários terão produzido um consenso mais qualificado do que a recente morte de John Updike. A ocasião parece ter sido interpretada pela maioria como uma oportunidade para testar os limites do elogio contorcido, para exercitar os «mas» e os «no entanto». Debaixo dos sinos fúnebres ouviu-se o ruído distinto de dentaduras a ranger. Houve uma ou outra elegia não-adulterada (a mais comovida de todas foi talvez a de Ian McEwan nas páginas do Guardian), mas todas as outras trouxeram sobretudo o restolhar da admiração relutante, assegurando-nos que havia muito para gostar em Updike – debaixo daquela centena e meia de sólidas razões para não se gostar nada de Updike.
As objecções usaram três tipos de maquilhagem: a pessoal, a geracional e a estética. A objecção pessoal não é difícil de compreender se examinarmos os outros modelos de personalidade disponíveis. Numa América que se habituou a perdoar a imaturidade dos seus bardos (Hemingway, Fitzgerald, Mailer), o maior pecado que restava era a jovialidade despretensiosa. Updike atravessou o século sem dramas, sem safaris, sem cicatrizes. Teve os seus divórcios, mas nunca apunhalou ninguém. Escreveu sobre crises de fé sem nunca ter crises de pânico. A sua prolificidade bonacheirona ofendia uma cultura literária disposta a tolerar os porta-vozes torturados da condição humana, mas não aqueles que fazem da nostalgia um trabalho administrativo.
A objecção geracional é a menos relevante, e uma consequência natural da longevidade: quem se aguenta muito tempo no mesmo sítio tende inevitavelmente a intrigar e a irritar quem chega depois. Tornou-se apetecível ver em Updike um duplo anacronismo, uma relíquia dos anos 60, ainda agarrado ao evangelho narrativo do século XIX: Deus e Sexo – registados na linguagem da epifania.
Mas o tom predominante nos obituários foi um inusitado paternalismo, assente numa espécie muito particular de intolerância estética. A objecção começa por reconhecer inequivocamente o talento – e prossegue, com lógica acrobática, para uma negação do mesmo. A sua formulação básica é: Updike tinha um dom extraordinário, é uma pena que o tenha esbanjado nos temas errados e nos livros errados. Isto parte de uma tremenda falácia crítica, que vê o talento literário como um instrumento polivalente, uma espécie de canivete suíço que pode ser aplicado a qualquer problema. Na verdade, o talento funciona quase sempre dentro de limites muito estreitos; e como a única maneira de o identificarmos é precisamente pelos seus efeitos visíveis, torna-se particularmente injusto exigir que um escritor escreva livros diferentes daqueles que escreveu. É um pouco como elogiar um adolescente pelo seu talento para o futebol, antes de ruminar indignadamente sobre o facto de o mesmo talento não servir para tirar melhores notas a matemática.
O talento espectacularmente restrito de Updike consistia em ser a melhor pessoa do mundo a escrever como Updike. Isto não é uma proeza menor, e merece algum apreço. Outros colegas de panteão falhariam avaliações semelhantes. Hemingway teve um intervalo muito reduzido em que foi, de facto, a melhor pessoa do mundo a escrever como Hemingway. E Kerouac nunca foi, nem no pico da sua forma, uma das 10 melhores pessoas do mundo a escrever como Kerouac. (Há uma paródia antiga publicada na New Yorker que demonstra que até Updike era melhor do que Kerouac a escrever como Kerouac.)
A unidade literária básica da escrita de Updike era a «frase» – não a «voz», não o «personagem», não o «enredo». A frase é invariavelmente «bonita», mesmo quando não há qualquer urgência para essa «beleza». É multicolor, mas com marcada tendência para o púrpura. É animada por uma eufórica monotonia poética, em que os mesmos abundantes recursos verbais são aplicados à descrição de uma avenida suburbana decorada com elmos, ou a uma carinha laroca decorada com sémen. É possível interpretar isto não como um estilo, mas como uma espécie de autismo estético: o método de alguém que memorizou as cartas todas, mas é incapaz de jogar o jogo.
Mas é um estilo. Um estilo seguro e aparentemente retrógrado, mas na verdade extraordinariamente arrojado: como qualquer estilo dependente da acumulação de percepções poetizadas, corre o risco de passar a linha a qualquer momento. Mesmo as melhores frases de Updike (e, na minha opinião, houve muitas frases más) esticavam a corda até ao limite. Continham a quantidade máxima de música que uma boa frase pode conter antes de se tornar péssima.
A primeira regra de Updike enquanto crítico era nunca culpar um autor por não conseguir aquilo que nem sequer tentou. Levada ao seu extremo, a mesma regra tornaria qualquer obra invulnerável: um dos pilares da crítica literária é a noção de que as vitórias específicas de um determinado escritor podem perfeitamente ser irrelevantes para o leitor, e até para a Literatura. Ainda assim, é possível abusar da posição oposta, e a intolerância de que Updike foi alvo, particularmente nas últimas décadas, é difícil de compreender.
O cânone sofre sempre alguma instabilidade depois de abanões dessa magnitude. Por enquanto, e apesar das investidas de Harold Bloom e James Wood, o lugar de Updike nas letras americanas parece estar mais ou menos seguro. Segundo os seus próprios termos, a sua carreira foi um triunfo de que poucos se podem gabar. Não escreveu os melhores livros; mas escreveu exactamente aqueles que quis escrever, e que mais ninguém poderia ter escrito.
Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER.
Notícias, rumores, invenções e impropérios para ler@circuloleitores.pt
Faça já a sua assinatura aqui.
1. Os 50 autores mais influentes do século XX.
2. Dez cidades para visitar com livros debaixo do braço.
3. Charles Darwin, 200 anos depois.
4. «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.»
5. Última entrevista de António Barahona.
6. Inéditos de Fernando Pessoa.
7. John Milton por João Pereira Coutinho.
8. «O meu mal é ter uma curiosidade de puta.»
9. Entrevista Luis Sepúlveda.
10. «Já quase pareço um escritor.»
11. Entrevista Eduardo Lourenço.
12. Breve Introdução à Teoria Literária.
13. Agustina, a indomável.
14. Trinta livros do PNL.
15. Entrevista A. M. Pires Cabral.
16. Dinis Machado: «Só quis escrever um livro».
17. Retratos de um Nobel.
18. Os últimos e-mails de Stieg Larsson.
19. Os 200 anos de Edgar Allan Poe.
20. Knoxville, o território de McCarthy.
21. O bibliotecário ambulante.
22. Dez escritores europeus que (já) mereciam ser traduzidos em Portugal.
23. Entrevista Mia Couto.
24. Entrevista Vasco Pulido Valente.
25. Inéditos Vinicius de Moraes.
26. Os heterónimos de Eduardo Lourenço
Outras leituras
«Volviendo a John le Carré» (Antonio Muñoz Molina)
«A Country Without Libraries» (Charles Simic)
«The Translation Gap: Why More Foreign Writers Aren’t Published in America» (Emily Williams)
«The Godfather of the E-Reader» (Jennifer Schuessler)
«The Philosophical Novel» (James Ryerson)
«The Case of the First Mystery Novelist» (Paul Collins)
«The lost art of handwriting» (Umberto Eco)
«Our Boredom, Ourselves» (Jennifer Schuessler)
«Scandinavian Crime Wave» (Nathaniel Rich)
«When Bad Covers Happen to Good Books» (Joe Queenan)
«Tintinabulation» (Bruce Handy)
«Inside the Secret World of Literary Scouts» (Emily Williams)
«Advantage Google» (Lewis Hyde)
«Texts Without Context» (Michiko Kakutani)
«Bookmarkism: The New Ideology» (Robert Nagle)
«The Autobiography of J.G.B.» (J. G. Ballard)
«J. G. Ballard, Poet of Desolate Landscapes»
«When Writers Speak» (Arthur Krystal)
«Reading by the Numbers» (Susan Straight)
«What I heard at J.D. Salinger’s doorstep» (Tom Leonard)
«Why hasn't there been a science fiction Booker winner?» (Adam Roberts)
«Freyre, Euclides e o Brasil» (Daniel Piza)
«Las cartas íntimas de Beckett» (J. M. Coetzee)
«Entrevista Günter Grass» (Juan Cruz)
«Eudora Welty's centenary» (Paul Binding)
«Juan Benet: en un tiempo de silencio» (Manuel Vicent)
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Sumergirse en Benet» (Álvaro Colomer)
«Interview with Seamus Heaney» (Sameer Rahim)
«Robert Capa - La muerte y el azar» (Guillermo Altares)
«Why do Pynchon, Ballard and Wallace provoke such online loyalty?»
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Philip Larkin Letters» (John Shakespeare)
«Una vida absolutamente maravillosa» (Enrique Vila-Matas)
«Poética de los escaparates» (Antonio Muñoz Molina)
«In the South» (Salman Rushdie)
«Our George Steiner Problem – and Mine» (Lee Siegel)
«Poets, Academia: A Couplet in Conflict» (David Orr)