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Conversas de Punset

Depois de Viagem à Felicidade (2007) e A Alma Está no Cérebro (2008), a Dom Quixote edita agora o terceiro livro de Eduardo Punset. Frente a Frente com a Vida, a Mente e o Universo chega às livrarias a 26 de Fevereiro e parte de conversas deste jornalista e divulgador catalão com alguns dos mais notáveis cientistas contemporâneos, como Stephen Jay Gould, Lynn Margulis ou António Damásio.

 

Excerto da conversa com António Damásio:

 

AD: Para dizer a verdade, gosto de Descartes, é um grande pensador, mas penso que o modo como o seu modelo foi interpretado exerceu uma influência negativa na nossa maneira de pensar. Parece que a única coisa importante é pensar, é a razão, e que aquilo que lhe está subjacente, a emoção e o ser, são menos importantes, quando na realidade formam um todo. O melhor que podemos dizer é que «somos», que a vida reside no nosso organismo e que temos emoções e sentimentos, e que tudo isso tem uma grande influência na imaginação, no processo de pensar e de raciocinar. Portanto, definitivamente, as maiores conquistas do nosso organismo – a razão, claro está, e a criatividade – não estão separadas, não se encontram noutro nível nem surgem de cima para baixo, mas sim de baixo para cima, são uma continuação para algo muito complexo mas que, na realidade, emana da representação do corpo, do organismo e da sua vida.


EP: Tu cunhaste uma frase fantástica a esse respeito: «As ordens mais baixas do nosso organismo estão entretecidas com a razão superior.»  Portanto, na realidade, tudo se encontra misturado. Esta foi a tua primeira grande contribuição, não é verdade?


AD: Está tudo misturado e é uma mistura em forma de cacho: portanto, em vez de ver a emoção aqui e a razão ali, como as camadas separadas de um bolo, o que acontece na realidade é que nos encontramos numa situação em que a emoção intervém na razão e a razão modifica a emoção. É um entrelaçamento constante. É muito importante compreender que temos todas estas possibilidades – emoção, razão –, porque possuímos a capacidade de representar o nosso corpo no nosso cérebro. O nosso cérebro representa constantemente o estado do nosso organismo; está sempre aí, a cada milésimo de segundo o cérebro vai ajustando a representação do nosso corpo. E todas as coisas da nossa mente, todas as operações do nosso cérebro giram em torno do problema 
de manter a vida. O problema de fazer coisas… algumas automaticamente, como regular o metabolismo, e outras de uma maneira muito mais complicada, ao comportarmo-nos de um determinado modo. Por exemplo, a vida pode ser regulada ajustando quase automaticamente o metabolismo, o açúcar do sangue, o pH ou a água. Mas também é necessário fazer, de um modo activo, uma série de coisas: por exemplo, quando nos encontramos em certas condições metabólicas, é necessário ir em busca de água e de comida para conseguirmos obter mais energia. Estas actividades necessitam de um processo de conduta activa e estão orientadas, prioritariamente, para a manutenção da vida de um organismo. E todas as coisas a que possamos fazer referência – a nossa imaginação, criatividade, raciocínio e inclusivamente o nosso comportamento moral – estão baseadas nessas condições fundamentais do organismo vivo.


EP: O que preocupa o cérebro é a sua sobrevivência.


AD: Sem dúvida.