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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

SINDICÂNCIA: Joana Bértholo «Estar rodeada por amigos, família, e por todos a quem algum dia bem-quis.»

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 Nasceu em 1982. É autora de Diálogos para o Fim do Mundo (2010), Havia (2012), O Lago Avesso (2013) e Inventário do Pó (2015), todos publicados pela Editorial Caminho. É a última página da LER da primavera de 2016.

 

Um livro que não leu. 2666. Admiro muito outros livros de Bolaño, mas algo neste me...

O(a) autor(a) que mais a irrita. Não me ocorre nenhum/a. Há livros que me dão fastio mesmo antes de os abrir, mas não chega a ser irritação.

Que frase tatuaria se a obrigassem? Não tatuaria.

Um exemplo de beleza. O primeiro beijo. A primeira frase para um novo livro, o alvor da manhã, os primeiros acordes de uma música que adoramos e nos surpreende na rádio. Os gestos inaugurais, ­recomeçar todos os dias. O primeiro beijo.

Um exemplo de elegância. O sistema de 128 trigramas, 64 hexagramas e 384 máximas que compõe o I Ching e que faz dele o mais fascinante e elegante livro da história dos livros.

Um exemplo de fealdade. Deixarmo-nos convencer de que não há alternativas para o atual sistema económico. A resposta internacional à crise dos refugiados. Salvar bancos e corporações e deixar pessoas no desamparo. As tentativas de patentear sementes. Esquecermos que o nosso corpo e o corpo da terra são o mesmo corpo. O estado geral de passividade indignada – implodirmos porque já não sabemos como explodir.

Um livro para oferecer ao pai. Este Natal ofereci ao meu pai As Primeiras Coisas (Bruno Vieira Amaral) e os Cadernos de Memórias Coloniais (Isabela Figueiredo) e à minha mãe o Azul-Corvo (Adriana Lisboa).

Em que país gostaria de ter nascido? Na Lapa lisboeta, a 21 de junho de 1982, aí ­pelas três da tarde, se pudesse ser...

Em que país gostaria de morrer? Num momento em que esta intoxicação com a ideia de nação tivesse perdido o sentido, e que tivéssemos parado de nos guerrear por uma linha invisível no chão. Ou seja, em qualquer lado.

A que político daria sempre o seu voto? Àquele que soubesse restituir um lugar à imaginação, à utopia, e a um projeto coletivo. Terrenos que a História encheu de minas; ainda assim, lugares necessários.

Que proibição alimentar lhe seria mais ­cus­tosa? Viveria bem do ar se o ar fosse docinho.

Quem lhe suscita inveja? Todos os que ultrapassaram o medo da rejeição e conseguem aparecer tal qual como são.

Um passeio no parque ou uma noite na ópera? Uma ópera no parque e um passeio na noite.

Cerveja, vinho tinto, vinho branco ou whisky? Vinho most definitely tinto.

A música que nunca lhe sai da cabeça. O tirititan-tan-tan-tah típico da abertura de uma Alegría, um dos muitos palos do baile flamenco.

Um insulto. «Pagar não pagamos; mas damos-te ­visibi­lidade.»

O palavrão que usa mais vezes. Neoliberalismo.

O fim de semana ideal. Natureza, livros, amigos, criançada, boa música e telemóveis desligados.

O lugar ideal para passar férias. Fé... férias? Interessante. Como assim?

A sua finest hour. Está mesmo a chegar!

Um jogador de futebol. Zidane no filme de Douglas Gordon? Não presto nenhuma atenção ao futebol.

O que escolheria para última ceia? Estar rodeada por amigos, família, e por todos a quem algum dia bem-quis.

Que livro a impressionou mais ­recentemente? A Noite e o Riso de Nuno Bragança e As Teorias Selvagens de Pola Oloixarac.

Um disco eterno. Dummy, Portishead. Há lugares da minha adolescência que ainda me retêm.

Um epitáfio. «Quem não amou / assim? Quem não amou? / Quem? / Quem não amou está morto» (de um poema de Eugénio de Andrade).

Livro de Gonçalo Amaral (Guerra e PAz): afinal não é crime publicar

O Tribunal da Relação revogou a sentença da primeira instância, absolvendo Gonçalo Amaral, autor do livro A Verdade da Mentira, sobre o caso Maddie, e absolvendo igualmente a Guerra e Paz Editores. O Tribunal da Relação julgou totalmente improcedente a acção movida pelo casal McCann, por não provada, absolvendo Gonçalo Amaral relativamente a todos os pedidos contra ele formulados, reconhecendo-lhe o direito constitucional a exprimir a sua opinião.

O Tribunal da Relação anula igualmente a proibição de comercialização do livro que resultara da sentença do Tribunal Cível. Na próxima semana, a Guerra e Paz voltará a distribuir o livro de Gonçalo Amaral nas livrarias.

Os vencedores do Pulitzer

Foram ontem anunciados os vencedores dos prémios Pulitzer de 2016 — esta é a edição do centenário do Prémio. É como segue:

FICÇÃO: The Sympathizer, de Viet Thanh Nguyen (Grove Press).

TEATRO: Hamilton, de Lin-Manuel Miranda.

HISTÓRIA: Custer’s Trials: a Life on the Frontier of a New America, de T.J. Stiles (Knopf).

BIOGRAFIA: Barbarian Days: a Surfin’ Life, de William Finnegan (Penguin)

POESIA: Ozone Journal, de Peter Balakian (University of Chicago Press)

NÃO-FICÇÃO: Black Flags: The Rise of ISIS (Doublday)

MANIFESTO: As rotundas dívidas das autarquias

COMENTÁRIO      Se me pedissem para escolher duas palavras que definem as nossas autarquias diria «dívidas» e «rotundas». Posso estar a ser injusto para as três autarquias que escaparam a este duplo flagelo, mas é disto que me lembro quando vejo a presidente da Câmara de Portimão anunciar um programa de adoção de rotundas. Vejamos: em 2014, a Câmara de Portimão, com 159 milhões de euros de dívida, ocupava um honroso terceiro lugar na lista das autarquias mais endividadas, logo atrás de Lisboa e Vila Nova de Gaia. A par desta dívida monstruosa, a edilidade portimonense era a orgulhosa proprietária de 30 rotundas que, não podendo ser transplantadas para outras localidades nem trocadas por estatuária diversa, continuaram a adornar o espaço urbano daquela cidade. Ao fim de meses a saltar entre dívidas e rotundas e dívidas rotundas, algum cérebro autárquico sugeriu o revolucionário cruzamento entre uma campanha de solidariedade animal e o mecenato viário: pedir aos empresários da terra que adotem uma rotunda. Quem viaja pelo país sabe que a rotunda solitária, deixada ao abandono, ignorada por condutores negligentes que por ela passam sem um gesto de atenção, é um problema social gravíssimo. Em declarações à CMTV, a presidente da câmara, com o sorriso rasgado dos visionários míopes, disse acreditar que, daqui a uns anos, os turistas irão de propósito a Portimão visitar as rotundas que, na altura, fruto do investimento dos empresários na sua requalificação, estarão ao nível de um Taj Mahal ou das pirâmides de Gizé. BVA [Ler, 141]

Meursault, de novo

Kamel Daoud, o autor argelino de Meursault, Contra-Investigação (publicado em Portugal pela Teodolito), recebeu o prémio Jean-Luc Lagardère, destinado a escolher «o jornalista do ano» — neste caso, pelas suas crónicas no semanário Le Point. Daoud tem sido alvo de várias ameaças dos imãs argelinos bem como de críticas de professores das universidades francesas (curioso, não?).

A última das fatwas contra Daoud veio do imã Abdelfatah Hamadache Ziraoui, que pediu que também as autoridades argelinas condenassem à morte o escritor depois de este ter criticado, num programa de televisão, as relações entre os muçulmanos e a sua religião. A justiça argelina condenou o imã a seis meses de prisão.

 

  • COMENTÁRIO      O escritor argelino Kamel Daoud, autor do premiado e magnífico Mersault, Contra-Investigação (Teodolito), tomou posição – na sequência dos «acontecimentos de Colónia» – sobre o assédio e a violência sexual nos países muçulmanos e nas comunidades árabes dominadas por autoridades religiosas. Um grupo de inteletuais respondeu, no mesmo jornal (Le Monde), acusando-o de «culturalismo e orientalismo», «essencialista» ou – claro – islamófobo, por «não compreender» a rapaziada; a ideia, escreveu a escritora tunisina Fawzia Zouari (no Libération), é a de que os inteletuais de Paris não concebem que escritores como Kamel Daoud ou Boualem Samsal (o autor de 2084), vindos do campo de batalha (ambos são argelinos) possam pensar por si próprios, pondo em causa o saber universitário e as suas categorias – e escapando com vida às fatwas. FJV

As listas da LER: 10 livros sobre África moderna & contemporânea

Depois de Chinua Achebe (o seu livro maior, Quando Tudo se Desmorona, foi publicado em 1958), a literatura de África deixou de ser a literatura sobre África (é conhecida a sua crítica a Conrad e a O Coração das Trevas) – e, no tempo presente, já não é «a literatura das guerras de libertação», que produziu a maior quantidade de maus autores promovidos a talentos incontestáveis (a qualidade de alguns deles, como Agostinho Neto, é defendida por lei). Recentemente popularizou-se a marca «pós-colonial» – outra forma de promover a culpa de autores europeus; contra ela ou apesar dela, autoras como Chimamanda Ngozi Adichie ou Taiye Selasi estão a reinventar África na literatura de hoje. E a conseguir.

 

  • V.S. Naipaul, A Curva do Rio [Quetzal]
  • José Luandino Vieira, Nós, os do Makulusu [Caminho]
  • J.M. Coetzee, Desgraça [D. Quixote]
  • Mia Couto, Terra Sonâmbula [Caminho]
  • Nadine Gordimer, A Gente de July [Teorema]
  • Chimamanda Ngozi Adichie, A Coisa À Volta Do Teu Pescoço [D. Quixote]
  • Taiye Selasi, A Beleza das Coisas Frágeis [Quetzal]
  • José Eduardo Agualusa, A Rainha Ginga [Quetzal]
  • Germano Almeida, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo [Caminho]
  • Ungulani Ba Ka Khosa, Ualalapi [Caminho]