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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Caderno diário [1]

«Se isto não resultasse tinha de voltar a trabalhar como jornalista ou arranjar uma coisa completamente nova. Era a minha última cartada.»

Paula Hawkins, autora do best-seller A Rapariga no Comboio.

Vargas Llosa: a literatura e o mundo

No Le Monde, Mario Vargas Llosa publica o discurso que pronunciou no doutoramento honoris causa na Universidade de Salamanca, no passado dia 17 de setembro: 

 Mon expérience d’écrivain embrasse un domaine très large que je vais tâcher de résumer en répondant à trois questions que se posent parfois, à mon sens, tous les lecteurs de romans et les amateurs de littérature en général : pourquoi écrit-on de la littérature ? Comment écrit-on un roman ? A quoi sert la littérature ?

Pourquoi écrit-on de la littérature ?

A chegar às bancas

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Entrevista a Pedro Mexia; artigos sobre Camilo Castelo Branco (Hugo Pinto Santos) e Susan Sontag (Isabel Lucas); um olhar sobre a literatura síria em tempo de refugiados (Margarida Santos Lopes); a infância no cinema português (João Lameira); pré-publicação de Cidade em Chamas, o romance-sensação de Garth Risk Hallberg; entrevista com David Grossman (Filipa Melo); o novíssimo livro de Slavoj Zizek; crónicas de Abel Barros Baptista, Eugénio Lisboa, Leonor Baldaque, Manuel da Silva Ramos e Tiago de Oliveira Cavaco.

Toni Morrison: «Antigamente, éramos cidadãos; agora, somos contribuintes.»

O resumo de uma conversa de Toni Morrison (Nobel de 1993) com o crítico Hilton Als, da New Yorker: 

 

“I couldn’t write about now, I felt, because it was so slippery. Until I thought I knew – what was very definitive about now is that it’s so powerfully self-reverential. Selfies, look at me, novels about me, stories about me ...

The complexity of the so-called individual that’s been praised for decades in America somehow has narrowed itself to the ‘me’. When I was a young girl we were called citizens – American citizens. We were second-class citizens, but that was the word. In the 50s and 60s they started calling us consumers. So we did – consume. Now they don’t use those words any more – it’s the American taxpayer and those are different attitudes.”

Leonardo Padura: «Cuba é um purgatório»

Entrevista de Leonardo Padura à revista cultural do diário argentino Clarín:

«Ya he dicho que Cuba no es el infierno comunista del que habla la derecha retrógrada ni el paraíso socialista que quiere ver cierta izquierda acrítica. Cuba es algo así como un purgatorio, donde hay cosas buenas y malas, casi como en cualquier sociedad, aunque con características muy peculiares. Siempre se habla de los logros cubanos en la educación, la salud pública, la seguridad social, la cultura, el deporte, etc. O de la incapacidad cubana para lograr establecer un sistema económico eficiente, y todo eso es cierto. Pero como la economía decide sobre otros muchos aspectos de la sociedad, los logros que señalé se han visto afectados por la deficiente gestión productiva y económica que nos ha empobrecido, sobre todo desde que desapareció la subvención soviética que creó una especie de estado de bienestar de baja intensidad, pero real, aunque a la vez deformó la estructura económica de un país que se sostenía con esas subvenciones.»

O Diário de Anne Frank não entrará no domínio público em 2016

A notícia está a escandalizar os meios editoriais, bem como investigadores e ativistas, e foi dada pela Livres Hebdo (para assinantes) — matéria disponível no Le Figaro.

Ou seja, em vez de o livro entrar no domínio público em 2016, setenta anos depois da morte de Anne Frank no campo de concentração nazi de Bergen-Belsen, o Fundo Anne Frank invoca um complexo regime de exceções e pretende que a entrada em domínio público se faça apenas em 2030 ou 2050.

Prémio Samuel Johnson 2015

Ted Hughes: uma biografia polémica na lista dos candidatos.

 

Os melhores livros britânicos da não-ficção:

  • The Unravelling: High Hopes and Missed Opportunities in Iraq, de Emma Sky (Atlantic).
  • This Divided Island, de Samanth Subramanian (Atlantic Books)
  • Neurotribes: The Legacy of Autism and How to Think Smarter About People Who Think Differently, de Steve Silberman (Allen & Unwin)
  • Ted Hughes: The Unauthorised Life, de Jonathan Bate (William Collins)
  • Landmarks, de Robert Macfarlane (Hamish Hamilton)
  • The Four-Dimensional Human, de Laurence Scott (William Heinemann).

O júri é presidido pela historiadora Anne Applebaum, e o vencedor vai ser  anunciado dia 2 de novembro em Londres.

O nobel, portanto [Act.]

 

 

Aí está Svetlana Alexeievich — a autora de Voices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster, e de O Fim do Homem Soviético – Um tempo de desencanto, publicado pela Porto Editora.

Página da autora.

Página da agência literária Galina Dursthoff.

Leituras complementares:

Porque não se devem fazer apostas sobre o Nobel.  

Notícias e comentários em The Daily TelegraphEl Pais e The Guardian

O livro Voices from Chernobyl será publicado em Portugal pela Elsinore.

Bom dia, Estaline: As saudades da URSS [Svetlana Aleksievitch]

   Leitura.    

Conta-se que, no dia em que Jossif Vissariónovich Dzhugashvili, Estaline, mandou deter Polina Jemtchoujina Molotov (e a enviou para a um campo de prisioneiros no Casquistão), altas horas da noite convidou o seu marido para lhe fazer companhia enquanto via um filme, altas horas da noite, no seu apartamento do Kremlin. Polina só voltou a ver Molotov depois da morte de Estaline, em 1953, e – apesar dos longos anos de dentenção – nunca duvidou da grandeza do Grande Líder, de cuja morte só na altura tomou conhecimento. Chorou-o com sinceridade. Apesar de Estaline ter desfeito o casal, ter arruinado a sua vida e ter exercido uma chantagem inaudita sobre Molotov, Polina continuou a acreditar que Estaline tinha sido ludibriado para tomar essas decisões – a culpa não era sua.

Esta história não é inédita. Vem, replicada, nultiplicada e adaptada, nas páginas de O Fim do Homem Soviético. Um Tempo de Desencanto, de Svetlana Aleksievitch. E não custa a acreditar nesse retrato, ou pelo menos em alguns dos retratos fornecidos pelos depoimentos orais que Svetlana Aleksievitch recolhe (método também presente na sua obra sobre Chernobyl): centenas de pessoas que viveram nos anos de Estaline, nos anos da URSS, nos anos da Perestroika, nos anos de Putin, e que agora – cada um à sua medida e cada um à medida da sua geração – olham para o período de grandeza e pacificação do comunismo como uma espécie de reflexo do paraíso diante da desmoralização dos anos pós-Ieltsin e da queda da URSS durante o consulado de Gorbatchov. Gente que tem saudades do comunismo? Sim. Exatamente. Mas essas pessoas não sofreram o bastante durante as purgas estalinistas, durante os anos do Gulag, durante os períodos das grandes fomes, da repressão de Brejnev, das filas para os alimentos, do apodrecimento de Andropov ou Tchernenko? Sim. Exatamente. Mas, para a generalidade dos depoimentos recolhidos – o livro é constituído por uma polifonia de testemunhos sobre a vida soviética e posterior –, nada se assemelha tanto a uma catástrofe como o período Gorbatchov, o homem que pôs fim ao comunismo, que devolveu aos russos a liberdade: “Querem que nós consideremos o nosso passado como um buraco negro. Odeio-os a todos: gorbatchov, chvardnadze, iakovlev – escreve com letra pequena, é assim que os odeio. Não quero ir para a América, quero ir para a URSS..”

Svetlana Aleksievitch ouve russos, chechenos, ucranianos, abcáses, quirguizes, georgianos. Mas o tom que regista é quase sempre o mesmo: “A Rússia... Limparam os pés na Rússia. Qualquer um lhe pode dar agora nas ventas. Transformaram-na num monturo do Ocidente, para despejar as roupas usadas e os medicamentos fora de prazo. A quinquilharia! Reserva de matérias-primas, torneira de gás... O poder soviético? Não era ideal, mas era melhor do que o que temos agora. Mais digno. Em geral, o socialismo convinha-me: não havia pessoas excessivamente ricas, nem pobres...”

Para quem quer compreender o “fenómeno Putin” e o seu discurso, este livro explica como os tempos soviéticos se foram tornando simpáticos aos russos, mesmo recordando-lhes os assassínios em massa de Estaline e de Lenine. Tem passagens de uma “facilidade” confrangedora, e a escrita irrita por vezes com o seu excesso de pontuação e reticências – a recolha de testemunhos fará as delícias de qualquer comunista ou ex-comunista nostálgico. Mas, fundamentalmente, é de grande utilidade para explicar Putin e o desejo de reconstrução do império. [Francisco José Viegas]

Svetlana Aleksievitch, O Fim do Homem Soviético. Porto Editora, 472 págs.

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