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LER

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Volta a Portugal 15/25

 

Quase um ano após o lançamento das páginas «15/25», e da respetiva Volta a Portugal por escolas e bibliotecas, a visita à Escola Secundária Quinta das Flores, em Coimbra, na passada quinta-feira (25 de outubro), é a prova mais recente de um projeto que continua a superar as melhores expectativas. Mais de 300 alunos encheram um magnífico auditório para receber a LER (João Pombeiro, diretor, e José Riço Direitinho, escritor e colaborador da revista). Alguns dos alunos presentes já participaram no «15/25» e outros prometeram participar. Ao completar 25 anos, a LER sente-se muito bem no seu papel – acompanhar e promover os jovens talentos portugueses. E acreditem: 25 de outubro de 2012 foi um dia muito especial.

«Nestes tempos em que tudo se desmorona, é o que sobrevive: a amizade, o amor, a família.»

 

Sinto-me bem assim. Eu não devia dizer isto: convivo bem com a melancolia. Ainda há dias escrevi uma crónica que se chamava «Lembrança dos amigos mortos». Ocorre-me tantas vezes isso. Agora estão a morrer os meus gatos todos. [...] Mais tarde ou mais cedo – meses, anos – vão todos. Mas também nós. Eu tenho 68 anos:meses, anos e também vou. Tudo morre, não é?


Convive muito coma ideia da morte?


Não. Acho que nunca conseguimos conceber isso perfeitamente. Mas a racionalidade impõe-se-nos.Toda a gente tema ideia da morte.Durante muitos anos é só uma palavra. Depois começam a morrer pessoas próximas de nós e ela de repente ganha um rosto concreto. Estou numa idade em que muitos amigos meus se estão a ir. Os primeiros foram uma surpresa, agora é quase normal. Embora seja uma coisa sempre muito penosa porque nós também somos os nossos amigos. Até já escrevi que a amizade é a forma mais alta e mais desprendida do amor. E a família é também uma forma particular de amizade. Nestes tempos em que tudo se desmorona, é o que sobrevive: a amizade, o amor, a família.

 

[Manuel António Pina entrevistado por Carlos Vaz Marques, LER nº 109, janeiro de 2012. Fotografia de Pedro Loureiro]

Manuel António Pina (1943-2012)

 

[AOS MEUS LIVROS]

 

Chamaram-vos tudo, interessantes, pequenos, grandes,
ou apenas se calaram, ou fecharam os longos ouvidos
à vossa inútil voz passada
em sujos espelhos buscando
o rosto e as lágrimas que (eu é que sei!)
me pertenciam, pois era eu quem chorava.

 

Um bancário calculava
que tínheis curto saldo
de metáforas; e feitas as contas
(porque os tempos iam para contas)
a questão era outra e ainda menos numerosa
(e seguramente, aliás, em prosa).

 

Agora, passando ainda para sempre,
olhais-me impacientemente;
como poderíamos, vós e eu, escapar
sem de novo o trair, a esse olhar?
Levai-me então pela mão, como nos levam
os filhos pela mão: sem que se apercebam.


Partiram todos, os salões onde ecoavam
ainda há pouco os risos dos convidados
estão vazios; como vós agora, meus livros:
papéis pelo chão, restos, confusos sentidos.
E só nós sabemos
que morremos sozinhos.
(Ao menos escaparemos
à piedade dos vizinhos)


[Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011]

Fotografia de Pedro Loureiro

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