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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Mascote para as Livrarias Bertrand

As Livrarias Bertrand convocam todos os ilustradores portugueses para o desafio «Leitores de todos os tamanhos»: «criar uma mascote a ser usada nos diversos suportes de comunicação das livrarias». Os trabalhos devem ser enviados até 9 de março, e o prémio é de 2500 euros. Regulamento e outras informações aqui.

Voto de confiança dos leitores

Por estes tempos, nem todos os números são bons. Nós por cá, esta semana chegámos aos 8500 fãs no Facebook e, pela adesão dos últimos meses, não vamos ficar por aqui. Só podemos agradecer o voto de confiança dos leitores.

De(pu)pilação (crónica de Onésimo Teotónio Almeida)

Antiga, mas conto para introduzir o tema. Uma professora de Ciências pergunta à sexta classe qual a parte do corpo humano capaz de, quando estimulada, aumentar dez vezes o seu tamanho. Uma garota cora e ofende-se; ameaça queixar-se à mãe. A professora ignora-a e dá a voz a outra criança de braço no ar: «A pupila!» Voltando-se para a menina ultrajada, a mestra esclarece: «Ouviste? Essa é que é a resposta certa. Além disso, há três coisas que precisas de saber. Primeiro, a tua cabecinha está a precisar de uma boa limpeza; segundo, não estudaste a lição e, terceiro, um dia vais sofrer um grande, grande desapontamento.»

Foi a minha leitura de mais um capítulo do livro, ainda a cheirar à gráfica, Thinking, Fast and Slow, de Daniel Kahneman, Prémio Nobel da Economia, que me lembrou essa estória e a tornou científica nos pomposos termos de “pupilometria cognitiva”, campo a que aliás o mesmo autor já dedicara um volume inteiro, Attention and Effort (1973), explicando a interrelação entre a actividade mental e a dilatação da pupila; esta supostamente revela o índice de energia dispendido pela mente. Ou seja, acabaram quantificando a velha expressão «Os olhos são as janelas da alma».

A graçola que abre hoje este meu cantinho costuma provocar da parte das mulheres comentários do género: «Vê-se que essa é uma anedota masculina porque isso de tamanho é uma obsessão de homem, não partilhada pelo elemento feminino.» Na verdade, até mesmo o humor para consumo macho confirma a diferença. Em abono da afirmação ressalte-se os graffiti das casas de banho dos homens, informativo estendal de dados empíricos. (Um dia encontrei na privada do Andreas, ali à Thayer Street, um que anunciava «I’m nine inches». Por baixo, alguém acrescentou: «Fine, but how big is your prick?» – fica em inglês porque a tradução, por mais que a tentasse, só podia roubar metade da chalaça). Não tenho estatísticas mas estas realidades de diferenças de género foram ainda há meses corroboradas por ambos os lados dos campos de guerra sexual num programa de Jon Stewart a propósito da voga de jovens exibirem os seus dotes genitais via telemóvel em SMS às miúdas - em inglês, sexting, de texting. (Aliás, não lhes é exclusivo. Lembram-se do congressista Anthony Weiner que por isso teve de dizer adeus ao seu lugar em Washington?) Uma mulher captou o duro da questão: «Percebam os homens que sim, queremos um pénis, mas um pénis que nos oiça e com o qual possamos conversar, e com bom aspecto, para nos dar o prazer de apresentá-lo à família.» O que inevitavelmente me fez lembrar o pai daquela jovem toda século XXI, que prezava acima de tudo a sua liberdade e por isso… «Casamento?!... Nem pensar!» O pai tentava dissuadi-la: «Como mulher, um dia vais sentir a falta de um homem.» A filha, língua desempoeirada e solta, que não. «Para aquilo que os homens ainda servem, há hoje aparelhos eléctricos que desempenham bem o serviço.» Um dia, porém, ao entrar em casa, deparou com o pai na sala. De robe, contemplativo e taciturno, copo de uísque e charuto. Em cima da mesa, diante de si, um vibrador eléctrico. Intrigada, a rapariga indagou e ouviu: «Estou só a descontrair um pouco e a bater um papo com o meu genro.»

Houvesse aqui espaço e contaria uma mais recente sobre o género do computador, por sinal bastante equitativa dividindo a piada a meias entre homens e mulheres. Os ouvintes de ambos os lados acenam anuindo, reconhecendo-se nos estereótipos, um deles o da pecha sexual masculina. Essa verdade consagrada pela experiência histórica foi afinal captada em grande por alguém que corrigiu um provérbio da velha sabedoria americana, transmitido pelas mães às filhas casadoiras: «A way to a man’s heart is through his stomach». A alternativa proposta é: «Quem julga que para chegar ao coração de um homem lhe deve tratar do estômago, está a apontar muito alto.»

 

Crónica de Onésimo Teotónio Almeida publicada na edição de janeiro da LER.

Steinbeck e o amor explicado ao filho

 

Entre as 850 cartas de John Steinbeck (1902-1968) reunidas em A Life in Letters há esta em que o Nobel norte-americano responde ao seu filho Tom, então adolescente. Corria o ano de 1958.

 

 

New York
November 10, 1958

Dear Thom:

We had your letter this morning. I will answer it from my point of view and of course Elaine will from hers.

First — if you are in love — that’s a good thing — that’s about the best thing that can happen to anyone. Don’t let anyone make it small or light to you.

Second — There are several kinds of love. One is a selfish, mean, grasping, egotistical thing which uses love for self-importance. This is the ugly and crippling kind. The other is an outpouring of everything good in you — of kindness and consideration and respect — not only the social respect of manners but the greater respect which is recognition of another person as unique and valuable. The first kind can make you sick and small and weak but the second can release in you strength, and courage and goodness and even wisdom you didn’t know you had.

You say this is not puppy love. If you feel so deeply — of course it isn’t puppy love.

But I don’t think you were asking me what you feel. You know better than anyone. What you wanted me to help you with is what to do about it — and that I can tell you.

Glory in it for one thing and be very glad and grateful for it.

The object of love is the best and most beautiful. Try to live up to it.

If you love someone — there is no possible harm in saying so — only you must remember that some people are very shy and sometimes the saying must take that shyness into consideration.

Girls have a way of knowing or feeling what you feel, but they usually like to hear it also.

It sometimes happens that what you feel is not returned for one reason or another — but that does not make your feeling less valuable and good.

Lastly, I know your feeling because I have it and I’m glad you have it.

We will be glad to meet Susan. She will be very welcome. But Elaine will make all such arrangements because that is her province and she will be very glad to. She knows about love too and maybe she can give you more help than I can.

And don’t worry about losing. If it is right, it happens — The main thing is not to hurry. Nothing good gets away.

Love,

Fa

XVII Festa do Livro no Porto

Vamos aos números: 20 mil títulos, 400 mil exemplares, 150 editoras nacionais e estrangeiras e preços a partir de um euro. A grande novidade desta edição «é o regresso de obras descatalogadas sem comercialização» disponibilizadas pelo Instituto do Vinho do Douro e Porto. «São, muitas delas, obras raras», acrescenta o Público. A festa continua diariamente até 29 de Janeiro na Fundação António Cupertino de Miranda, no Porto. A entrada é livre.

Obra Completa de Clarice Lispector na Relógio d'Água

 
A Relógio d'Água acaba de adquirir «os direitos para a edição, até 2018, de toda a obra de Clarice Lispector». Para além da reedição de vários títulos, já este ano serão lançados os romances Água Viva, O Lustre, Para não Esquecer e Um Sopro de Vida, assim como textos infanto-juvenis (A Mulher Que Matou os Peixes e A Vida Íntima de Laura, reunidos num só volume, e O Mistério do Coelho Pensante, Quase de Verdade e Como Nasceram as Estrelas). «De todo inesperados são os álbuns», acrescenta a editora, «que, sob pseudónimo, Clarice Lispector divulgou com conselhos dedicados às mulheres e que foram organizados pela professora Aparecida Nunes. É o caso de Correio Feminino e Só para Mulheres — Conselhos, Receitas e Segredos, em que é visível o estilo da autora e o seu interesse pela elegância feminina através de inúmeras sugestões práticas. Nestes textos, inicialmente publicados na imprensa a partir de 1940, Clarice aborda temas como a maternidade e a educação dos filhos, os tratamentos de beleza, o veneno para ratos, a escolha dos perfumes e os dilemas morais, passando do trivial ao transcendental com desconcertante à-vontade.»

Tinta-da-china entra no mercado brasileiro

«O primeiro livro sai em março. É uma seleção de crônicas de Ricardo Araújo Pereira, um dos grandes fenômenos do humor português, convidado do festival Risadaria deste ano, em São Paulo. Em seguida, é a vez do romance O retorno, de Dulce Maria Cardoso, considerado um dos livros de 2011 em Portugal pelo jornal Público e pelas revistas LER e Time Out. E, depois, E a noite roda, romance de estreia de Alexandra Lucas Coelho», pode ler-se no jornal O Globo, que cita na notícia os Prémios de Edição LER/Booktailors.

Bestas Céleres (crónica de Pedro Mexia)

Em 1912, a Publisher’s Weekly começou a divulgar quais os livros mais vendidos na América. Com essa iniciativa, a indústria livreira quebrou a ancestral «sacralização» do livro, que se tornou então num «produto» de massas igual a outros. Um produto em competição comercial, independente de juízos estéticos.

Alexandre O’Neill chamava ao best-seller a «besta célere», e com bons motivos. Trata-se de uma «besta» pela sua dupla enormidade, pois são em geral calhamaços escritos a trouxe-mouxe; e é «célere» porque vende depressa e espelha uma época em directo. Como escreveu o crítico John Sutherland, ler um best-seller antigo é tão estranho como ler um jornal antigo. Aliás, antes da invenção das bestas céleres universais, houve fenómenos localizados, com sucesso instantâneo e colossal. Foi o caso de Charlotte Temple, romance publicado em 1791 por Susanna Rowson. Sabem quem é? Eu também não.

A besta célere é um fenómeno de moda e de impaciência. Muita gente quer ler o mesmo que os outros andam a ler, e ler de imediato, ler livros conhecidos, reconhecíveis, acessíveis. Livros escritos para o momento, e não para o futuro. O aparecimento do livro de bolso, um avanço a todos os títulos notável, acentuou porém a ideia de que o livro não é para guardar, é transportável, descartável, efémero.

O que distingue uma besta célere não é vender muito, mas vender muito depressa. As tiragens acumuladas da Bíblia ou do Quixote superam todas as bestas céleres, mas são livros que vendem sempre, ao longo dos séculos, enquanto o prazo médio de vida de uma besta célere é de uns meses, raramente mais de um ano. Até porque entretanto é preciso renovar as existências, e o romancista tem de produzir novo cartapácio.

Os grandes êxitos comerciais são quase sempre romances, embora algumas memórias, biografias e livros de auto-ajuda se possam intrometer. O romance, que se tornou uma forma hegemónica, fornece escapismo e a facilidade a rodos. Há vários anos que quatro grandes «bestas» (Clancy, Grisham, King, Steele) conseguem vender em regra um milhão de exemplares em hardcover por cada novidade, mais uns quantos milhões em paperback. Os autores de «ficção popular» escolhem muitas vezes as baias de um género, com os seus códigos previsíveis, ou as questões que angustiam a sociedade, a guerra, a mudança de costumes, o «regresso ao religioso». Temas polémicos ou sentimentais são eternos favoritos. Enredos ofegantes e conspirativos também.

Também há escritores propriamente ditos que vendem muito e depressa, como Dickens, mas são uma raridade. Um caso curioso é o de Graham Greene, que dividia as suas obras de ficção entre «novels» e «entertainments», pois não queria confusões (sendo que um “entretenimento” de Greene é coisa magnífica). E há escritores a sério que foram bestas céleres por terem sido processados (Lawrence), proibidos (Pasternak) ou condenados à morte (Rushdie), incidentes exteriores à literatura e que ainda por cima fazem mal à saúde. Faulkner também se propôs escrever uma besta célere, escolheu um tema grosseiro e escreveu à pressa Santuário (1931), que cumpriu as expectativas. Mas o sucesso é uma incógnita: a besta célere, como a economia, é uma falsa ciência, nunca se sabe o que vai acontecer. A existir, a fórmula de besta tem a ver com uma determinada intenção e uma determinada estratégia. Falar de assuntos «em voga», escrever em linguagem «simples», fazer sociologia de bolso ou metafísica aguada. Nenhuma besta é célere se for difícil.

Cresci sem bestas céleres em casa, e lembro-me de em casas alheias espreitar com espanto os calhamaços de Herman Wouk, Morris West, Leon Uris, ou o fininho Fernão Capelo Gaivota, sem perceber que continente obscuro era aquele, lia umas páginas e aquilo não era literatura, era «outra coisa». Não podia imaginar que um dia as livrarias teriam mais dessa coisa do que literatura. Nessas alturas, consolo-me pensando em Susanna Rowson. Sabem quem é? Eu também não.  

 

Crónica de Pedro Mexia (segundo o anterior acordo ortográfico) publicada na edição de janeiro da LER.

Polémica em Espanha

Em causa a extinção da Direcção Geral do Livro: «Es cierto que era un instrumento y un escudo; ahora el libro en todas sus formas (también el libro en formato digital) está viviendo un tsunami que está quemando vivo el suelo, el techo y las paredes del edificio de la industria. ¿Era este el momento más adecuado para retirar el escudo antimisiles que, en términos ideales, constituía la Dirección General del Libro? No parece que, desde el punto de vista de las metáforas, esenciales en este territorio, el Gobierno haya acertado con su propuesta, aunque ahora depende de la gestión de sus responsables que lo que parece una ausencia se convierta en un proyecto, en una política, como suele decir Santos Juliá, que alivie al sector de la zozobra que sufrió cuando aparecieron las noticias de que la vieja Dirección General del Libro pasaba a otra vida.» Excerto de um texto de opinião publicado hoje no El País.