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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Celebrar Agustina, II

 

A indomável

Por Eduardo Lourenço

Em 1953, uma autora já conhecida de leitores atentos, publica um livro que inaugura uma data na ficção portuguesa contemporânea. O título famoso, como sabemos, é A Sibila, título profético no qual Agustina Bessa-Luís profetiza o seu próprio destino e a sua vocação de vidente e visionária. Esse título representou na época, para quem estava atento, o fim de uma hegemonia que, desde há 15 anos dominava, com razões para isso, o panorama da ficção portuguesa, aquilo a que se chamou neo-realismo. A Sibila não é um romance que se coloque em qualquer oposição, ou ideário, à prática ficcional desse neo-realismo.
É um livro que começa num outro lugar. O lugar que não existia antes dele, pela originalidade da história, pela temporalidade ficcional que é a da memória, ela própria tão inventada como realisticamente evocada, em suma, um tipo de ficção que noutras paragens já tinha obras em que Agustina se podia inspirar, mas que ela renovou e preencheu de um tipo de vivências não só da sua memória subjectiva como do inconsciente duma cultura do Portugal mais arcaico, ou melhor, do imemorial.
Essa obra foi seguida de uma produção torrencial sem precedentes na nossa literatura mesmo se nela integramos Camilo – um dos referentes da cultura desse imemorial que ela levará até à sua incandescência.
Mais tarde, a cultura portuguesa aperceber-se-á que além da originalidade literária de A Sibila enquanto ficção e escrita, uma escrita por vezes aleatória e fantasmagórica, essa obra instaurava sem que ainda se soubesse muito bem uma espécie de longo reinado da literatura feminina em Portugal. No caso dela, mais feminina do que feminista – que Agustina não é nem nessa perspectiva uma ideóloga mas um exemplo da sua ficção povoada de personagens femininas entre as quais a do seu primeiro livro, Mundo Fechado, que impôs um mundo da mulher até então subalternizado com uma evidência que as suas sucessoras receberam já como uma herança natural. Até porque Agustina tinha demasiado humor para ser feminista – sobre as outras mulheres. E, por incrível que possa parecer e muitas vezes não é entendida, sobre ela própria.
Pouco a pouco, Agustina impôs-se como uma paisagem literária sem igual na nossa literatura com livros como A Muralha, Os Incuráveis, O Manto, e mais tarde outros que adquiriram uma segunda vida através do cinema de Manoel de Oliveira como Fanny Owen ou Vale Abraão impuseram-se e entraram não só no imaginário nacional mas universal.
Infelizmente, a escrita constantemente paradoxal e surpreendente de Agustina ainda não encontrou, pela sua dificuldade, o eco que merece. Mas pode esperar. Num livro que particularmente me deslumbrou – Um Cão Que Sonha – Agustina revisita a sua juventude e dá-nos um pouco a misteriosa e insólita perspectiva da sua ficção, como destinada a ser devorada por um outro que será o autor da sua obra em vez dela. Como se ela, que, como é sabido, tão pouco aprecia Fernando Pessoa, inventasse um mito da sua criação proliferante para se converter numa ficção sem autor. E isto pode ser uma fábula que resume o que trouxe realmente de novo Agustina para a ficção da sua época. Menos uma voz que narcisicamente inventa um mundo para se afirmar através dele do que para ser, por assim dizer, a voz anónima das múltiplas memórias do seu universo povoado de figuras cada uma resumindo a extravagância da vida como se fossem seres da natureza indomáveis e imortais. Como ela.

Lisboa, 29 de Novembro de 2008

Celebrar Agustina, III

De toda a sua vida, qual é o instante, o fragmento, o pontinho de luz que mais vezes lhe ocorre para dizer que viver vale a pena?


Ter a capacidade de amar alguém ou algo na vida. Ser capaz de pôr nisso todas as forças, toda a capacidade que, no fim de contas, é a capacidade para viver.

[LER, Outono de 2003]

Prémio Fernando Namora atribuído a Mário de Carvalho

Mário de Carvalho é o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora, criado pela Estoril Sol em 1988, com o romance A Sala Magenta, o que acontece pela segunda vez: em 1996 foi distinguido por Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.

Fotografia de Pedro Loureiro

 

À prosa de Mário de Carvalho, nos diversos registos narrativos que tem percorrido, nunca foi estranha a intenção paródica e irónica. Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, romance anterior, de 2003, levava essa marca do autor ao seu ponto mais alto, na irrisão impiedosa do Portugal contemporâneo. Cinco anos depois, com A Sala Magenta, à ironia de Mário de Carvalho acrescenta-se um traço melancólico. O romance é um estudo de carácter, tendo como protagonista um cineasta medíocre a afundar-se na consciência da sua própria mediocridade. Gustavo Miguel Dias, vítima de um assalto violento, vê-se repentinamente reduzido a uma imobilidade forçada. A irmã recolhe-o na casa de campo onde vive. O isolamento de Gustavo desencadeia um processo de auto-análise ao «descomunal saco de débitos que não tinha outro remédio senão ir arrastando pela vida fora». A sala magenta, do título, é a evocação do espaço onde durante anos o cineasta teceu uma relação submissa e humilhante com Maria Alfreda, a amante que lhe diz, sem «qualquer sinal de remorso»: «Preferia que ficasses, mas quando te quiseres ir embora substituo-te em dois dias.» A pistola largada ao acaso por Maria Alfreda em cima de um móvel da sala – e evocada na ilustração da capa – nunca há-de chegar a entrar verdadeiramente em cena, a não ser no fascínio mudo do protagonista. «A fantasia do tiro de pistola com o seu sabor romanesco, a implicação de um desfecho trágico, elevado, camiliano», não chega a concretizar-se e o que resta é o drama sem grandeza de Gustavo Miguel. Um drama impiedosamente observado pela lente de Mário de Carvalho, um dos autores que melhor escreve, nos nossos dias, em língua portuguesa.
Carlos Vaz Marques [Texto publicado na edição nº 69 da LER, Maio de 2008]

Poesia reunida de António Osório apresentada amanhã

Guilherme de Oliveira Martins, Eugénio Lisboa, Fernando J.B. Martinho e José Manuel de Vasconcelos apresentam amanhã A Luz Fraterna - Poesia reunida (Assírio & Alvim), de António Osório, antologia de toda a obra poética produzida entre 1965 e 2009. A partir das 18h30, na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura, em Lisboa.


«A poesia de António Osório – e nela incluo, por assim dizer, todos os seus livros, mesmo os que, aparentemente, são de prosa — é sempre em verso livre (quando leio obras como a Libertação da Peste — livro notável — ou Crónica da Fortuna, o meu ouvido “diz-me” que estou a ler versículos, como quando leio A Raiz Afectuosa ou A Ignorância da Morte.)
Do já citado livro de C.S. Lewis, recolho uma observação pertinente e que me parece ser digna de ser tomada em conta pelos leitores da obra de António Osório, que agora se publica “completa”. Diz Lewis ser “possível que aos jovens de hoje se tenha deparado demasiado cedo o verso livre. Quando este é veículo de verdadeira poesia, os seus efeitos auditivos são de extrema subtileza e, para uma verdadeira apreciação, exigem um ouvido longamente familiarizado com a poesia metrificada. Aqueles que acreditam poder apreciar verso livre sem experiência de métrica estão, creio eu, a enganar-se a si próprios, tentando correr antes de saberem andar. Mas na corrida literal as quedas magoam e o aspirante a corredor logo descobre o seu erro.” Um dos grandes prazeres que podemos deduzir da leitura dos livros do autor de Décima Aurora vem de podermos ir ajustando, com cuidado e alguma teimosia, o nosso ouvido à música subtilíssima que se esconde na só aparente “liberdade” que os versos sugerem.» Eugénio Lisboa

José Alfaro

Ao fim de 22 anos, o fundador da Quimera deixou no início de Outubro de ser sócio da editora. «Os tempos que vivemos obrigam, por vezes, a grandes decisões, e acredito que esta solução é a que melhor serve a prossecução do projecto e a que mais me convém também a mim». Desenvolvimento no Bibliotecário de Babel.

Prémio Leya 2009 para O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho

«O romance vencedor restitui-nos o contexto histórico dos combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na I Guerra Mundial, na fronteira entre o ex-Tanganica e Moçambique, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, a reacção dos mineiros brancos, as primeiras greves dos trabalhadores negros e a emergência do nacionalismo moçambicano, nomeadamente através da imprensa e dos editoriais do jornalista João Albasini», lê-se na acta do júri.
 
Notícia, comunicado e biografia do autor galardoado com a segunda edição do Prémio Leya.