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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

Interditos

As democracias não estão isentas de interditos. Em tese, tudo é permitido. Na realidade, as patrulhas vigiam. Entre nós, o bufo-a-bem-da-Nação multiplicou-se a coberto de redes de anonimato garantido. A intolerância do bufo é sem medida. O bife do vizinho, por exemplo. Pelo bife, questão moral, será capaz de toda a ignomínia. Se a coisa meter trufas ou foie gras, a torpeza atinge o zénite. Talvez aceite o carapau e a meia-desfeita, mas nunca o cacciucco, porque o cacciucco regado a viognier é o retrato do seu falhanço. O que é o cacciucco? É a versão toscana da bouillabaisse, com casca de laranja (ripas fininhas) em lugar do açafrão. Aí chegado, o bufo cega.
Num país pequeno, pobre e mesquinho como ainda é o nosso, nada como a ideia de gourmandise para fazer vir à tona o ressentimento de sucessivas gerações de subalternos. Não admira. Enquanto o vasto mundo investia na pirotecnia culinária, criando uma cozinha de ornamento e álibi de que a variante molecular é o anticlímax, a cintura industrial de Lisboa celebrava os amanhãs que cantam com o consumo imoderado de sapateiras. Teve o seu tempo a desforra contra o trivial dos patrões. Agora que acabou, subjaz o rancor. O intelectual foi sempre o homem a abater, o ar do tempo apenas mudou as munições.
Num poema menos citado do que devia, Alberto de Lacerda resume: «O exílio é isto e nada mais / Na sua forma mais perfeita: / Hoje na terra de meus pais / Somente a luz não é suspeita.» De facto.
Como o preconceito fez escola, as patrulhas não desarmam.
Vejamos: literatura gay. Nada como a literatura gay para desatinar o bufo. Mas o que é literatura gay? São os livros de Proust, Thomas Mann e Gore Vidal? Ou só os de Genet, Edmund White e Andrew Sullivan? E porquê? Os homossexuais enrustidos não contam? E os não enrustidos mas muito bem-comportados, daqueles que as senhoras gostam de casquinar ao chá? E os poetas epicenos driblando os tropos?
Por que será que nunca nas livrarias vi bancas reservadas a escritoras com pêlos nas axilas? Será porque a mulher peluda é um fantasma subliminar? A lógica do livreiro que separa Virginia Woolf, Yukio Mishima, Renaud Camus, Thom Gunn, Elizabeth Bishop, Joe Orton, Ali Smith, Caio Fernando Abreu, Armistead Maupin ou Paul Monette, entre tantos, radica no preconceito e na ignorância. Isso explicará a omissão de Guimarães Rosa. Afinal de contas, não é fácil explicar a história dos jagunços Riobaldo e Diadorim. Verdade que o equívoco dá emprego a muita gente. Sem armário, não havia departamentos de lesbian and gay studies. Sob o aparato da teoria dos géneros, são ínvios os caminhos da exclusão.
E depois há o Manoel de Oliveira.
O Manoel de Oliveira tem 100 anos e pôs o cinema português a falar francês. Em 1972, O Passado e o Presente juntou na Gulbenkian os próceres do Estado Novo e o Gotha do reviralho. Passado o intervalo da revolução, Manoel de Oliveira tornou-se, por mérito próprio e vantagem sobre o russo, o Eisenstein do Douro. Por causa dele, a Deneuve passou a comer tripas e arroz de couve penca. Por causa do que ele fez ao Camilo, a pátria entrou em tumulto, não me recordo já se em 1978 ou 1979. A paz chegou com Francisca (1981), e mais ninguém piou. O dogma não se discute. Entre curtas e longas, para cima de 40 filmes, acertando as vezes todas que quis. E não foi uma nem duas. O problema não é o Manoel de Oliveira. O problema é terem feito dele uma versão camp de Nossa Senhora de Fátima. Isso não se faz com um homem do seu tamanho. Por essas e por outras, mais essas do que aquelas, um amigo brasileiro, espectador dos festejos do centenário, perguntava: «A coisa não tá ficando meio xiita?» A gente ouve e engole em seco.
Minudências? Decerto que sim.
Exemplos de como um atavismo de séculos sobreleva o verniz da democracia. Foi em vão? Trinta e cinco anos de puro desperdício? Herdeiros de Marx e Maurras, para sempre condenados às patrulhas invisíveis?
 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

A arte de bem capar

Um dos fulgores da língua portuguesa é a capacidade que ela tem para concentrar, numa só palavra, um tratado de filosofia. As nossas palavras não se limitam a ser polissémicas; muitas vezes desenham um arco de sentido que descreve uma identidade. O verbo «capar» é um exemplo disto: serve para castrar e serve para envolver as páginas de um livro. Basta entrar em qualquer livraria para ver a que ponto estas duas acções se fundem e potenciam: as capas dos livros portugueses tendem a ser ou sonsas, ou debochadas, ou obscuras – ou seja, em qualquer dos casos, castradoras. Mentirosas: um sonso é um falso tímido, um debochado é um sedutor sem arte, um obscuro é uma imitação barata de intelectual. A tradição portuguesa do contrabando, do faz de conta ou da auto-ilusão é perfeitamente ilustrada pela  paisagem gráfica da edição portuguesa. Há excepções – mas são isso mesmo, excepções. Já estivémos mais perto da vontade de atingir a verdade e a luz. A crise deprime-nos, e a depressão dá-nos desculpa para tudo. Embala-nos de medo, encolhe-nos. Aproveitamos a crise para desistir em vez de ousar. Perdidos por cem, perdidos por mil. Não será por isso que a palavra «crise» é o eterno cartão de visita de Portugal?

Ainda mal começara esta crise particular – a crise intergaláctica provocada pelos banqueiros gananciosos que arrastaram para os seus condomínios em Marte as poupanças do povo sofredor – já as capas dos livros começavam a urrar de desespero, numa profusão de relevos dourados e cores contrastantes, inspiradas na estética sórdida do famoso quadro do menino da lágrima. Deu-se um visível aumento dos livros cintados com frases bombásticas (cada uma mais igual à anterior) e os textos de contracapa tornaram-se discursos de infiéis, lançando promessas e adjectivos como projécteis aos olhos cândidos dos eventuais leitores. Antes da crise, a estratégia era a do «excerto-com-sabor-a-Literatura-com-L-maiúsculo». Não era bem uma estratégia, era mais uma espécie de preguiça pomposa, que se julgava impressionante e poupava o trabalho, tão pouco português, da sinopse. Pensava-se que os leitores se vergariam à solenidade do virtuosismo literato. O pior é que não se pensava mal – num país mais velho do que antigo e mais pretensioso do que culto,  a vaselina da literatice passa demasiadas vezes por substância literária.
O escândalo da capa que exibe A Origem do Mundo de Courbet teve várias consequências, todas elas positivas. Antes de mais, deu a conhecer o próprio Courbet. Em segundo lugar, excitou, entre vários outros, os órgãos de comunicação social, o que é sempre de louvar, num país tão difícil de excitar. Em terceiro lugar, recordou-nos a rigorosa definição de André Breton: «A pornografia é o erotismo dos outros.» E, acima de tudo, fez esgotar a edição. À atenção dos departamentos de marketing das editoras: se querem vender livros, chamem a polícia. Uma apreensãozinha em Braga dá largo espaço de publicidade gratuita nos media. Só tenho pena que A Origem do Mundo não tivesse servido de capa a O Mundo desde o Fim de Antonio Cicero, que merecia 10 mil vezes mais leitores do que este Pornocracia de Catherine Breillat. Também tenho pena que a bela obra de Courbet apareça, ela mesma, tão castrada pelo ouro da moldura ( o ouro, sempre o ouro) e pela fonte tipográfica em contorcionismo escancarado. Claro que há quem prove que as capas não precisam de ser feias, porcas e más para vender. Mas a inércia do mau gosto tornou-se tese de marketing; entende-se que a badalhoquice é comercial, e que a seriedade não compensa. Se as capas dos livros se tornam estridentes, aldrabonas e cada vez mais parecidas umas com as outras, como poderemos encontrar, apesar delas, os livros que nos fazem falta?
Em Portugal ainda são poucos os editores capazes de ser isso mesmo: pegar num livro e dar-lhe a roupagem que o livro e os seus leitores merecem. É muito mais fácil capar do que iluminar um livro – e por isso os livros se tornam casos de polícia.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Casar com o outro

É mais grave apedrejar mulheres até à morte ou destruir os Budas de Bamyan? Nem a UNESCO defenderia a segunda hipótese. As religiões monoteístas reveladas acham bem mais grave o primeiro caso. Mas é preciso entrar no sinistro campeonato de escolher entre crimes irreparáveis? A nata dos colunistas azedou, agitando-se com frases do patriarca de Lisboa e fixando-se nos casamentos de portuguesas com muçulmanos. Opinion makers locais reagiram de modo mais desabrido e imprudente do que vozes islâmicas, que desejam harmonia com vizinhos de outras crenças ou nenhuma. Mas uns e outros devem saber o que se passa em países islâmicos ou nos europeus onde o comunitarismo segregacionista prevaleceu sobre a integração pluricultural, os valores laicos e o respeito pelo outro no quadro democrático. «Houve excessos em termos de linguagem e de preocupação» de D. José Policarpo, disse o director da revista Al Furqán, Youssuf Adamgy, que replicou com Muçulmanos Esclarecem o Cardeal D. José Policarpo. Julgo o bispo (tolerante, culto, defensor de direitos de cidadania e valores morais) menos necessitado de esclarecimento do que vastíssimas áreas em que poderes ditos muçulmanos consentem ou adoptam práticas desumanas que esses colunistas recusariam.
Em países islâmicos e outros, casamentos inter-religiosos pressupõem a conversão, verdadeira ou simulada, de um cônjuge (e há a poligamia, reservada ao homem).  Regimes democráticos têm soluções para alguns problemas de convivência. Em Estados confessionais ou onde o peso esmagador de uma religião privilegia os crentes, a «solução» jurídica, social ou familiar esmaga a parte fraca. Há tanta informação sobre isto (notícias, reportagens, documentários, artigos, livros) que é penoso invocá-la, e o alarido em torno dos comentários do cardeal é estranho, salvo na vigência da ideia de que «quem se mete com o islão, leva», e inaceitável em termos de equidade; quem se mete com o cristianismo não «leva», nem nos Estados ditos cristãos nem, claro, nos islâmicos. Que eu saiba, nem D. José se «meteu» com o islão nem Adamgy se «meteu» com o cristianismo; crentes no Deus único mas de distintas tradições religiosas e culturais, divergem. Há civilizações, quer se fale de «choque» quer se proponha «diálogo» e «aliança». Reconhecer direitos humanos universais e irrenunciáveis é outra questão, embora conexa. Se «excessos verbais» podem vir de qualquer lado, os excessos inquietantes são actos: de violência contra minorias religiosas (proibindo templos, «proselitismo» e conversões), étnicas e linguísticas; contra excluídos dos grupos que controlam o Estado; contra mulheres (em punições, indumentária, reclusão doméstica); contra testemunhos de outras culturas (mesmo extintas), reduzidos a património cultural e ainda assim destruídos; contra ateus, cristãos, democratas, homossexuais. Há muçulmanos que rejeitam tais atitudes; o islão é diversificado, a sua história teológica complexa e contraditória (por exemplo, sunitas e xiitas), os costumes variáveis. Não se trata da doutrina (sem interpretação unívoca nem a-histórica) mas de práticas actuais em ditaduras com forte peso de fanatismo, intolerância e arcaísmo. Os portugueses vivem num recanto que os protege da realidade.
Há quem veja um mundo islâmico modelar e um mundo cristão (em regra laico, indiferente ou agnóstico, com muçulmanos que não persegue) no banco dos réus como se fizesse cruzadas, reconquista e inquisição. Mas quem critica práticas opressivas pode ser acusado de «islamofobia». Quem não aceita o Profeta (livros de Rushdie, conferências do Papa, cartoons) é condenado. Deste lado não vejo felizmente quem se indigne pelo facto de os muçulmanos negarem a divindade de Cristo e os acuse de «cristofobia». Sem equidade não há diálogo político-religioso. É curioso que se insurjam contra o cardeal pessoas cujo modo de vida é incompatível com o islão. Os bem-pensantes mal informados falham no alvo e no conteúdo. Dirijam-se aos donos do mundo muçulmano. Conheçam os pensadores do islão e a realidade actual deste. Leiam Sortir de la Malédiction (Seuil, 2008; subtítulo O Islão entre Civilização e Barbárie), de Abdelwahab Meddeb, útil a muçulmanos, cristãos e outras vítimas de fanatismos. O cardeal vê dificuldades no diálogo com os que acham «que a verdade deles é a única e é toda». Quem apela também ao respeito pela «verdade do outro»? Meddeb, nem mentor nem discípulo.


Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

O Bem e o Mal: Receitas de Oprah

BEM

Tenho engordado. A minha família e os meus amigos sabem: engordar para mim é como fazer exercício – faz-me bem.
Quero com isto dizer que ando porreiro da vida. E também que isso não interessa nada para quem quer ler a LER. Mas apeteceu-me dizê-lo: não era o Carl Sagan que referia que quando estamos apaixonados nos apetece dizê-lo a toda a gente? Pois assim eu: ando de amores com a faca e o garfo.
Por isso me sabe tão bem falar das receitas favoritas da Oprah. Há anos sabia-me tão mal falar de receitas como comê-las. Mas com o sol de Abril a nossa digestão muda: ando bem mais feliz, tenho comido que nem um abade.
As receitas favoritas da Oprah, ainda para mais, são limpas e saudáveis. Têm pouco sal, poucas calorias, pouca gordura. O que quer dizer que podemos cozinhar, comer e digerir sem pensar no pequeno pedaço de nós que ficará polinsaturado. Têm muito verde, que tenho aprendido a amar desde que provei amores perfeitos. E massas, carnes, mariscos e tanto mais. Têm, em duas palavras, «bom aspecto». E todos nós sabemos como os olhos comem. Um prato com um bom aspecto é meio caminho andado para que se veja o prato, todos o sabem.
A Oprah, no pequeno mas acutilante prefácio, fala de conforto. Fala de segurança. Fala de comida e de memória como se tudo fosse o mesmo. E é, Oprah, nós sabemos. O cheirinho do pão, pela manhã, é mais do que o cheiro do pão, pela manhã. É a lembrança do cheirinho do pão.
Eu sei que estas receitas em breve me lembrarão coisas boas. O que não é pouco. É muito. E é apetitoso.
   
MAL
    É uma chatice quando o tempo passa. Não falo do envelhecimento, embora isso também não seja das melhores coisas. Falo do tempo a dar razão à falta de razão que tivemos em alguma altura.
    Leio o pequeno prefácio da Oprah ao livro das suas receitas favoritas (Oprah - As Receitas Favoritas, Rosie Dailey, Casa das Letras) e pasmo. Como pode alguém errar tanto em tão poucas palavras? Ah, o tempo, o tempo…
    Oprah Winfrey escreveu este pequenino prefácio a um outro livro, foi o que foi. E a um outro tempo. Não falo do facto de o livro na edição inglesa se chamar In the Kitchen With Rosie. Porque isso não é assim tão importante. No minúsculo prefácio de Oprah percebemos que a cozinha da Rosie é a da Oprah. Ou se não é, parece, o que vale o mesmo. Falo de outro mundo, noutra época, talvez até com a Celine Dion nos tops e o Titanic a ganhar os Óscares. Falo de 1994.
    E nesses anos 90 – tão bem vividos – Oprah era uma magricela. Escanzelada. Cruzeta. Monte de ossos. O que a não impediu de escrever tão cheia de si um pequenininho prefácio ao livro da cozinha da dita Rosie. Ar e vento, era o que era. Cheia de vontade de gritar que a comida limpa a tinha feito sem um pingo de gordura a mais. Enfim, a vida é o que é. E ninguém preveria que, quinze anos depois e numa edição em Portugal, o pequenote prefácio mentisse tanto. É como diz o Dr. Oz: ela sabe o que tem de fazer; só que não o faz. E de pitéu em pitéu, acho que a Oprah já não assinaria o miúdo prefácio que agora nos é dado a ler. Fiquemos então pela Rosie, a inventar comida saudável que não nos faz emagrecer. Oprah é quem sabe.
 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER.

A Oriente do Oriente (Parte II)

Logo a seguir a Ésquilo, é Heródoto que lerpa com o rótulo de orientalista, embora de forma menos consistente. É um suspeito disponível: um «ocidental» que viaja pelo Oriente e o descreve utilizando o poder de criar representações sobre o «Outro». Um «Outro» oriental. Que eu tenha conhecimento, em toda a obra de Edward Said o acusado não merece mais do que quatro ou cinco linhas. Mas estão lá. São um detalhe e o Diabo está nos detalhes.
Said queixa-se do esquecimento a que foram votadas as raízes afro-asiáticas da Grécia Antiga e Heródoto viaja precisamente por esses territórios. Um exemplo: a descrição da campanha  egípcia de Cambises. O exército persa conquista Pelúsio e avança depois sobre Cirene em direcção à Líbia. O exécito persa de Cambises incluía uma armada constituída por gregos da Iónia e da Eólia (Heródoto, Livro III; 1:1, Edições 70, 1994). Como ficamos de orientalismo?
Heródoto menciona esse detalhe de comando e serviços para recordar que etnias gregas da Ásia Menor já haviam sido vítimas de anteriores conquistas persas (Maria Fátima Silva e Cristina Abranches, no prefácio ao Livro III). No entanto, se seguirmos o conselho de Said (não esquecer as raízes afro-asiáticas da Grécia Antiga) essas etnias não se constituíam como ex-colonos gregos: eram Gregos. Confuso? Não. O orientalismo é muito simples: escolhe-se uma tese – «o Ocidente desde sempre construiu o Oriente» – e depois tenta-se adaptar os factos à tese. Se houver azar, como dizia Hegel, tanto pior para os factos.
Isso não significa que grande parte do arquivo de que Said fala (e cujas características sintetizei no número anterior desta revista) não tenha existido. Também é evidente que a dominação colonial existiu e assentou na exploração material e humana dos colonizados, ainda que essa exploração não tenha sido maior da que estes sofriam (e sofram)  às mãos dos seus conterrâneos – a escravatura em África precedeu largamente a aventura colonial.
Numa passagem da célebre intervenção na Conferência do Lago Como, Gramsci explica a Bordiga que se alguém for a Ales (aldeia natal de Gramsci na Sardenha) falar aos camponeses sobre a luta contra o capitalismo estes não entendem, pois dirão que tal coisa não existe lá. Em Culture and Imperialism (Vintage Books, 1994), Said demonstra não querer incorrer nesse erro: é preciso universalizar o conceito. Por isso começa no colonialismo grego para acabar no colonialismo anglo-francês, o braço armado do capitalismo.
Massignon é citado por Said: «Lutador infatigável em defesa dos direitos dos árabes muçulmanos  e dos cristãos na Palestina contra o sionismo.» No entanto, até Massignon sofre do pecado orientalista, porque  – entre outras coisas – ousou escrever que «les vieilles civilizations des nations orientales furent très superieures à leur état present» (Les Appels de l’Orient, 1925). Said não suporta que a diferença actual entre Oriente e Ocidente seja a diferença entre modernidade e tradição.
Nos nossos dias, intelectuais islâmicos como  Souroush (que vive com a cabeça a prémio) e  Shabestari (ex-director do Centro Islâmico de Hamburgo e Doutor por Qum) opõem a modernidade ao islão. Said não chegou a discuti-los e é pena. Poderia, por exemplo, ter comentado Souroush  quando este diz que a secularização e os direitos do Homem levam-nos a uma compreensão subjectiva do homem incompatível com o estatuto da Fiqh, a jurisprudência muçulmana. Ou a carta que Souroush enviou ao Presidente Khatami, em Julho de 2003, na qual diz que as «novas gerações não devem esquecer que no Irão o melhor jornal é o que está fechado, a melhor caneta é a que está partida e o melhor pensador é aquele que não existe».
É o problema da verdade, é o problema do orientalismo. Como diz Said, «o que interessa é saber se pode haver uma representação verdadeira do que  quer que seja». As entrevistas coligidas em Power, Politics and Culture (Vintage Books, 2002) revelam um Said mais obcecado com as posições americanas e com  o «colonialismo burguês israelita» do que com a resposta à pergunta formulada em Orientalismo. O pretexto é «o afastamento das fórmulas redutoras que ignoram as experiências concretas». Sim, mas quantas vezes as experiências concretas (o comunismo soviético ou a revolução iraniana, por exemplo) são ainda mais redutoras do que as fórmulas que as inspiraram?

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

O que ela andou a ler

«Este livro é uma grande ideia – e uma das coisas mais interessantes e frustrantes que alguma vez fiz», explica Ali Smith, logo no início da introdução a The Book Lover (Anchor Books, 467 páginas, 2006). Para sermos mais precisos, a «grande ideia» partiu de uma amiga, Becky Hardie, editora experiente com quem Smith trabalhou numa colecção de ficção breve da Granta Books. «E se agarrássemos nas leituras preferidas de alguns escritores, não só as leituras actuais mas de toda uma vida, e fizéssemos uma antologia com isso?»
Ali Smith ofereceu-se logo como cobaia. A princípio com o entusiasmo infantil de quem abre a porta do sótão, há muito fechado à chave. Depois com o pânico da escolha e da necessidade de preterir textos, autores, épocas inteiras. Porquê este e não aquele? O clássico dilema do antologiador. «Veja-se o caso de [Virginia] Woolf, por exemplo, e todos os seus livros ali na estante, à minha frente. Como poderia eu escolher entre a sua ficção e os seus textos críticos, entre os seus diários e as suas cartas?» Mesmo imaginando que optava pela ficção, a dúvida permaneceria: qual dos romances? Ou qual dos contos? «Nunca deixaria de ser um compromisso.»
Para dificultar ainda mais as coisas, Smith decidiu seleccionar, com uma ou duas excepções, apenas textos editados pela primeira vez no século XX, o que levantou o sempre delicado problema dos direitos autorais. A negociação com os detentores destes direitos equivale muitas vezes a um labirinto burocrático, demorado e dispendioso, razão pela qual não encontramos nesta antologia uma só palavra de James Joyce, Raymond Carver, Alice Munro, Susan Sontag ou Flannery O’Connor. «Este livro acaba por ser uma liturgia de ausências», assume a autora de Hotel Mundo, mas isso deve servir apenas como um desafio para o leitor «pôr mãos à obra e reler os escritores que não estão aqui».
Dito isto, os autores presentes chegam e sobram para as encomendas. Durante dois dias, Smith fechou-se em casa e espalhou livros no chão da sala da frente, recriando o puzzle dos momentos essenciais da sua vida de leitora, um percurso que começou precocemente (aos três anos) e conheceu vários momentos de autêntico frenesi bibliófilo. Depois, encaixou os 89 textos seleccionados em seis categorias: «Raparigas» (de Jane Austen a Virginia Woolf, passando por Angela Carter, Marina Tsvetayeva, Marilynne Robinson e Margaret Atwood), «Diálogos» (que inclui poemas de John Keats, Czeslaw Milosz, Margaret Tait, W. G. Sebald), «Viagens» (secção tão heterogénea que junta John Donne, Katherine Mansfield, Joseph Roth, Kate Atkinson, W. B. Yeats e Louise Brooks; sim, a actriz), «O Mundo» (Wallace Stevens, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Philip Larkin, Gertrude Stein, Jeanette Winterson), «Histórias» (William Blake, Joyce Carol Oates, Anne Frank) e «Crenças» (Shakespeare, Simone de Beauvoir, e. e. cummings, Italo Calvino, Rainer Maria Rilke).
O principal mérito desta antologia é a sua imprevisibilidade. Ou seja, mesmo quando os escritores escolhidos são canónicos, os textos citados geralmente não o são. De Katherine Mansfield, por exemplo, podemos ler uma entrada do seu diário (15 de Dezembro de 1919), de Shakespeare uma passagem do quarto acto de Cymbeline e de Sebald uns versos sobre o rosto desconhecido do pintor Grünewald, que dialogam com um texto de John Berger sobre a Crucificação de Cristo, feita pelo artista germânico num retábulo em Colmar. 
Como se vê pela amostra, a escocesa Ali Smith é capaz de misturar tudo e mais alguma coisa. Lado a lado, perfilam-se clássicos absolutos e compatriotas obscuros, um excerto biográfico da cantora Billie Holiday e uma crónica de Clarice Lispector (Estado de Graça), nomes quase esquecidos (J.M. Synge) e autores de outras latitudes (Dubravka Ugresic, Amos Tutuola). O resultado não podia ser mais idiossincrático. Se cada escritor é também o somatório das leituras que foi fazendo ao longo da vida, então este The Book Lover oferece-nos um mapa possível para aceder ao território literário de Smith. Um mapa estranho, cheio de curvas inesperadas e acidentes na paisagem, mas por isso mesmo desafiador e fascinante.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Amado e os patrulheiros

Morrer salvou-me da velhice. «A velhice é uma merda» - afirmei certa ocasião, numa entrevista, escandalizando muito boa gente, inclusive alguns jovens. A morte também me salvou da estupidez, e dos patrulheiros do politicamente correto, que deram para implicar com minhas muitas mulatas e seu generoso talento para a dança e para o amor. Lembro - é só um exemplo - as palavras do poeta (e senador) Abdias Nascimento: «O que tem a ver as personagens "Maria dos Reis" ou "Rosenda Rosendá" com as figuras respeitáveis de Yalorixás, como Tia Massi ou Mãe Teté do Candomblé do Engenho Velho da Casa Branca? Poderia a dignidade de uma Mãe Menininha do Gantois ou de Mãe Stela do Ilê Axé Opo Afonjá ser confundida com as imagens espumejantes que Jorge Amado retrata no seu famigerado livro Jubiabá? E onde se situariam, nesse universo de sexo espumante, figuras da enorme dimensão humana e religiosa de uma Mãe Nicinha, do Bogum, ou Dona Hilda, do Ilê Axé Ogun? Estas e muitas outras personalidades religiosas afro-brasileiras têm sido impunemente agredidas e humilhadas nos livros de Jorge Amado, como o foram nossos antepassados nas obras de antropólogos, etnólogos, historiadores, etc., criadores de estereótipos pejorativos sobre a raça negra. (...) Esse estereótipo e seus equivalentes modernos (mulata, mãe de santo e filha de santo lascivas) propagados por Jorge Amado, e muitos outros artistas brasileiros, afastam a mulher negra do âmbito íntimo da procriação - do âmbito familiar -, relegando-a ao espaço externo da transação sexual gratuita, diversionista ou comercial. Não é uma opinião pessoal minha. Ainda recentemente, o professor e crítico literário inglês David Brookshaw, observou o mesmo fenômeno nos romances de Jorge Amado, comentando a respeito que o escritor "caiu no exotismo", isto é, que ele vê o negro como um elemento ex-ótico (fora de ótica): um estrangeiro na própria Bahia que ele construiu.»
Depois de morto cada qual tem seu  paraíso - ou seu inferno - e no meu (graças a Deus!) bailam mulatas. No do senador Abdias, ou no do professor Brookshaw, não há mulatas, apenas afro-descendentes muito respeitáveis, e, suspeito, muito chatas. Mesmo a palavra «mulata» incomoda meus detratores politicamente corretos. Acham nela irremediável degradância, por porvir de «mula», esquecendo que a palavra terá adentrado em nosso idioma, a partir do espanhol, por volta de 1525. Durante os quinhentos anos que se seguiram o povo e seus poetas e trovadores trabalharam a palavra, poliram-na, deram-lhe luz, operando nela uma esplêndida subversão semântica.
Melhor se preocupariam meus detratores com o desaparecimento dos afro-descendentes - e da cultura africana do Brasil - das páginas da literatura brasileira. Depois de mim deixou de haver pretos e mulatos na ficção nacional. Os jovens escritores brasileiros, quase todos provenientes da classe média do Rio e São Paulo, (d)escrevem um país que poderia ser europeu, não se desse o caso dos países europeus estarem hoje cheios de imigrantes africanos e seus descendentes, alguns dos quais, aliás, se revelaram entretanto muito bons escritores. Há mais negros nos romances ingleses e franceses que se publicam atualmente, do que na ficção brasileira. Não estou a defender um sistema de cotas, segundo o qual os escritores deveriam ser forçados a incluir nos seus livros uma determinada percentagem de personagens de cor preta ou aparentada - ah, aí está uma ideia que agradará aos patrulheiros do politicamente correto. Estou simplesmente a manifestar a minha estranheza.
E enquanto dito esta crónica vou ouvindo com gosto Mart'nália cantar o famoso samba de Ary Barroso, com versos de Vinícius de Moraes. «Mulata no Sapateado»: «Quem tem mais balanço no sapateado / Tem mais molejo, tem mais requebrado, oi / Do que a mulata tem / Quem é mais faceira, mais apaixonada / Faz mais miséria quando está gamada / Tem mais feitiço que a mulata tem? // Quem é que se mostra / Pro estrangeiro ver, por favor / Imperador ou presidente / Ou qualquer todo crente que vem / Quem é a mulata só porque ela samba bem? / Se samba ô, se samba /  Sim, é a mulata seja lá de onde ela for / Pra mexer assim precisa ter aquela cor /Tanto faz no samba de partido alto / Ou no puladinho na ponta do salto / Desenvolvendo o seu sapateado».

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Um bocadinho palhaço

O mundo da moda é de facto fascinante: tão inacessível e sofisticado, e ao mesmo tempo tem gente chamada Katty Xiomara.
Decidi procurar bibliografia. Têm aparecido nesta coluna livros fúteis inúteis e livros fúteis úteis. É o caso deste útil manual, Modelo Procura-se, de Ana Borges (Caderno, 2007). Ao contrário do que o título faz supor, não é um manifesto por um novo socialismo na era da globalização. Ana Borges tem a vantagem de usar a palavra «modelo» como nós todos usamos, em vez do mais empinado «manequim», que transforma qualquer esbelta rapariga num episódio tétrico do Twilight Zone. É pois de modelos do mundo da moda que falamos. Ana Borges é directora da agência Elite Portugal, uma entidade que eu invoco sempre com gosto quando me acusam de «elitismo». A autora convive com o crème de la crème da raça ariana (e também com a Nayma), que descreve em tons inquietantemente evocativos: «O corpo ideal é o que parece naturalmente perfeito. Deve ser musculado sem ser em excesso, bem definido e, acima de tudo, harmonioso e elegante. Um corpo seco, sem gorduras, firme e tonificado». Isto, sendo factual, não deixa de parecer um folheto de emprego das SS.
Ana Borges lembra que estamos a falar de pessoas ideais («para as pessoas reais, existem agências especializadas», garante). Uma mulher estonteante com 1,69 m e com a provecta idade de 29 anos está definitivamente out: «Um modelo não pode contar com um futuro eterno como modelo. Uma cara de 25 anos não é igual a uma de 15. Nem em fotografia nem em passerelle. E o mercado é muito exigente. Não se compadece com a idade, tornando-se bastante cruel a esse nível.» Tal como nos manifestos por um novo socialismo na era da globalização, o «mercado» tem as costas largas. Não é o mercado que se torna «bastante cruel», é a própria moda que é cruel. É a própria ideia de beleza que é cruel: porque é que uma combinação de genes dá a Bárbara Elias e outra combinação produz catedráticas de Estudos Portugueses? «A esse nível», tudo isto é um bocado cruel.
Tal como é cruel a situação das modelos. As modelos (o livro também fala de homens, mas saltei essas páginas) são umas adolescentes mais ou menos bimbas, que devem ser guiadas pela Agência. As acusações feitas às modelos, que Ana Borges rebate, são acusações que não fazem sentido quando dirigidas a bimbas adolescentes. Elas são burras? Mas quem é que esperava fluência em Badiou? São fúteis? Mas a vida delas é cremes, champôs, roupas e maquilhagem. São promíscuas? É porque estão longe da família. Estão sempre em festas? Porque são solicitadas. «Mesmo no seu dia-a-dia, um modelo tem de ser um bocadinho palhaço (costumo usar muito esta expressão) […]», explica Ana Borges, que diz que nós é que somos no fundo uns invejosos. E um bocado palhaços.
A Agência descobre modelos através de scouters, a melhor profissão do mundo depois de director do Banco de Portugal: «Percorrem o país inteiro à descoberta dos jovens com mais potencial para se tornarem modelos profissionais. Não andam disfarçados, pelas ruas, em busco do corpo ou do rosto perfeito. Muito menos circulam na noite, ao contrário do que muita gente pensa – à noite não se encontra ninguém bonito, porque a luzes ou a falta delas enganam. A presença desta equipa é agendada para que todos aqueles que sonham ser modelos possam aparecer.» No meio dessa garimpa supimpa, comove a ideia de que «as luzes ou a falta delas enganam», como se houvesse grande diferença entre «a noite» e «a moda». Eu até vos citava Baudelaire sobre a natureza e a ilusão, se não estivesse aqui entretido com a Bárbara Elias.
A Agência (como antes se dizia «o Partido») pega em «diamantes em bruto», que sejam «lindos, claro!», e faz deles uns belos duns manequins. Hidratam-nos, cortam-lhes as espessas molhangas, põem-nos a remar, ensinam-nos a fazer a mala, avisam os cuidados a ter com o herpes e os saltos altos (incluindo aqui os homens). Aquelas que tenham «orelhas de abano» e «bicos-de-papagaio» (cito) podem ir à faca que não vem mal ao mundo. Depois, já formatadas, as nossas queridas modelos são fotografadas e desfiladas, cobrando vários preços de acordo com as suas «categorias» (outra sugestão inquietantemente evocativa). E há algumas surpresas: «Um peito extremamente volumoso limitará hipóteses de trabalho.» Aí está uma frase que também só faz sentido no mundo ideal e não no mundo real. Há mesmo pouca diferença entre a Moda Lisboa e o Fórum de Porto Alegre.
 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Tuning

Não sei quando nem onde soube isto, mas Aldous Huxley tinha o hábito de escrever com o nariz. Tanto quanto me lembro, era para descansar os braços. A história até nem parece implausível a quem tenha lido o Admirável Mundo Novo ou o Contraponto: há parágrafos inteiros em que se detecta claramente o repouso dos braços, dos olhos, do cérebro.
Mas o interesse nos hábitos de trabalho dos escritores pode ser razoavelmente classificado como um prazer de culto. A audiência será muito mais restrita do que a que manifesta interesse nos hábitos sexuais dos escritores, por exemplo; e consideravelmente menor do que a soma dos adeptos da obra em si. A liturgia de horários, superstições, tamanhos de lápis e diagramas narrativos está fora do território populoso do voyeurismo mainstream. Pertence às franjas da parafilia neo-geek, de interesse residual para as pessoas decentes como nós. É tuning literato. Vamos, portanto, falar um bocadinho do assunto.
Foram provavelmente as entrevistas da Paris Review que deram alguma legitimidade a estas questões de serralharia («Escreve de manhã ou de noite, senhor Vidal?») elevando-as uns patamares acima do «Qual é a sua cor preferida?». E os escritores, regra geral, agarraram-se à praxe com as mãos ambas. A Paris Review deu a três ou quatro gerações literárias um espelho em frente do qual podiam ensaiar poses, vestir roupinhas e autocinzelar as suas estatuetas ontológicas para a posteridade. O entusiasmo com que Hemingway (que escrevia não com o nariz, mas com o fígado) falou do seu método para afiar os lápis é verdadeiramente enternecedor. Don DeLillo também se divertiu imenso: revelou que escreve quatro horas de manhã e três de tarde, com um jogging rupestre pelo meio, para «sacudir o mundo do corpo»; e improvisou uma sonata à letra de imprensa da qual ainda hoje a sua mãe se deve orgulhar. Pauline Kael, por seu lado, deu a melhor resposta de todos os tempos à pergunta «Escreve à mão ou à máquina?»: a senhora nunca aprendeu a escrever à máquina porque tinha medo de acabar como dactilógrafa.
Com a memória calejada com factóides dessa natureza, torna-se difícil não ceder à tentação taxonómica de começar a classificar os tipos de exibicionismo. Afinal, salvo raríssimas excepções, a única testemunha da aplicação prática desses métodos de trabalho é o próprio escritor. Os hábitos de trabalho são apenas mais uma narrativa paralela, mais uma forma de fazer sentido. É relativamente seguro partir do princípio de que estamos a lidar com uma chusma de aldrabões. (Menos o Manuel António Pina, evidentemente. Se o Manuel António Pina diz que escreve de madrugada com os gatos por perto, então o Manuel António Pina escreve de madrugada com os gatos por perto, e  manda-se já partir os braços a quem disser o contrário.)
O tecido mitológico encoraja as dicotomias. Temos Thomas Wolfe, que escrevia de pé, em cima de um frigorífico (o homem tinha dois metros de altura, coitado); e temos Truman Capote, que escrevia sempre deitado (o homem tinha dois centímetros de altura, coitado). E o que dizer de Faulkner, por exemplo, que afirmava ter escrito o As I Lay Dying numa mina, com as páginas em cima de um bidão iluminado pela lâmpada do seu capacete? O enredo nunca foi o seu forte, mas esperava-se melhor do que isto. Javier Marías chamou-lhe uma «lenda pirosa» e estava a ser extremamente simpático. Faulkner viria mais tarde a descartar essa simbologia tão histericamente proletária e a trabalhar uma versão da «narrativa do posto dos corrreios», cujo pioneiro foi Anthony Trollope.
Trollope escrevia todos os dias, entre as 5:30 e as 8:30 com um relógio à frente. O objectivo eram 250 palavras por cada quarto de hora. Às 8:30 parava, mesmo que estivesse a meio de uma frase. Se acabava um romance antes das 8:30 pegava numa folha em branco e começava outro. Depois disto, ia fazer o seu turnozinho no posto dos correios de Waltham Cross, onde foi um empregado exemplar. (Ao contrário de Faulkner, cuja «narrativa do posto dos correios» tresanda a incompetência. Ainda assim, aposto que o patrão nunca gritava com ele. Basta olhar para uma fotografia: está ali o retrato-padrão de um tipo que se deixa em paz na sua negligência, não vá ele matar-se. Como o Rui Patrício, no fundo. Mas disperso-me.)
Devem ter adorado essas histórias do Faulkner em França, e com tão poucos motivos. Uma biografia de Balzac faria qualquer mitómano do Mississípi corar de inadequação. Enquanto os trémulos boiolas americanos faziam efeminados planos para trilogias, Balzac concebia sagas de 50 tijolos. Chegou a fazer maratonas de 15 horas de escrita, alimentadas por inúmeras chaves de café turco. Quando o café não estava disponível, Balzac mastigava os grãos. Quando os grãos não estavam disponíveis, provavelmente mastigava as chávenas. Ao contrário de Flaubert, que era acordado por um valete chamado Narciso que lhe trazia um copo de água e o correio do dia, e que tinha sempre um plantel de sicofantas ao alcance da mão direita, Balzac era uma pequena indústria de um só homem. Continua a ser o campeão em título do tuning literário; fica aqui o meu pequeno tributo.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER.

O género dos anjos

Já se sabe que entreter-se um sujeito com a sua história pessoal é coisa que faz bem, se não for mesmo curativa. É um hábito construtivo, estruturalmente falando, porque, descrevendo-o ou redescrevendo-o, arruma o disperso na ordem de uma história. Em suma, temos fé na inteligibilidade e esperança no reconhecimento que dela decorre, uma e outro legados meio perenes dos gregos e ambos contribuindo para a glória e persistência da tragédia, da psicanálise e do boato. Já se considera menos, por outro lado, que as histórias se discriminam em géneros e que os géneros obrigam a descrições específicas. De tal maneira que, por vezes, a melhor terapia consiste em mudar de género: redescrever tudo numa farsa, por exemplo, é sempre saudável, nem que seja como exercício de escrita criativa. Uma complicação é que ninguém tem uma só história, tem ao menos duas, a que reputa própria efectiva e a que reputa própria virtual — digamos expressão concentrada das que não lhe pertencem mas deveriam —, e então semelhante redescrição poderia afectar a virtual em vez da efectiva e… Deixemos.
Outro bom exercício a propósito, esse sim, é o filme Do Céu Caiu Uma Estrela, de Frank Capra. É bem conhecido, até dos Natais da RTP: aparentemente, nele uma história recompõe-se e um sujeito regenera-se por efeito de história alternativa. Alude-se muito ao momento final em que o anjo Clarence mostra a George Bailey, o personagem interpretado por James Stewart, como seria a vida dos outros se ele não tivesse existido. É uma modalidade interessante de história contrafactual, sem dúvida, até porque orientada para a regeneração, a cura, o auxílio que devolva o desesperado à vida. Mas não deixemos escapar que todo o filme, até esse ponto, é a narração que Deus (ou equiparado) faz a Clarence,  quando o destaca para ajudar Bailey. Dela ressalta um Bailey repetidamente renunciando aos próprios projectos, obrigado ou sentindo-se obrigado a resolver os problemas criados por outros ou pelas circunstâncias. Sem autonomia nem iniciativa, Bailey só pensa em partir da cidade natal, mas fica sempre: divide-se, portanto, entre a história virtual, que seria a dele por desejo próprio, e a efectiva, que seria imposição dos outros. Compreende-se que a mesma divisão crie ressentimento, e até desespero. O anjo aparece justamente no momento do desespero máximo, quando Bailey decide suicidar-se. Que história, se alguma, poderia ali salvá-lo?
Pois a história que Deus (ou equiparado) contou a Clarence — e que é também a que nos deu a conhecer George Bailey. De facto, a habilidade de Clarence consistiu em colocar Bailey perante o mesmíssimo dilema que enfrentou ao longo da vida e o conduziu ao desespero: ou ele ou os outros, ou obedecer à própria deliberação ou desistir dela em nome do bem-estar dos outros. O anjo não lhe mostra o que teria sido a sua vida se tivesse podido realizar os seus desejos e projectos, dá-lhe a ver o que seria a vida dos outros se ele não tivesse vivido como viveu. A diferença é que agora lutar pelos outros coincide com lutar por si mesmo, pela sua própria existência, no perfeito sentido literal da expressão: abandonar os outros à miséria que o anjo lhe mostra equivale a renunciar literalmente à existência. É a incapacidade de abandonar os outros que o reintroduz na existência, digamos assim, e essa incapacidade acaba por definir a natureza de George Bailey, a natureza bondosa, de George Bailey, a que justamente ressalta da história tal como Deus (ou equiparado) a conta.
Clarence conta a Bailey a história dele sem ele: a sua eventual inexistência seria a causa eficiente do infortúnio dos outros. Nesse sentido, não há nisto alternativa nenhuma. É o método da redução ao absurdo, e funciona: demove Bailey do suicídio dando-lhe um destino. Mais do que lhe mostrar que a vida ficara melhor com ele tal como tem sido, o anjo obriga Bailey a reconhecer em si uma natureza, escondida mas inexorável, enquanto motor da sua história — uma natureza a que não pôde escapar nem no momento em que se dispunha a matar-se… Bailey regressou à existência com uma história com que se entreter — teve o seu momento de epifania autobiográfica —, e o anjo ganhou as asas porque restabeleceu a coerência ameaçada da história que Deus (ou equiparado) lhe contou, assegurando-lhe final conforme. Tudo se conjuga, afinal.

 

Crónica publicada na edição nº 79 (Abril) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.

Tribunais políticos em Portugal

Tribunais Políticos - Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo resulta de um trabalho de investigação de Irene Flunser Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola, com coordenação de Fernando Rosas. O volume inclui a lista completa de réus políticos. Chega às livrarias nos próximos dias. Edição Temas e Debates/Círculo de Leitores.

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